Craques da seleção de 82: onde Brasil errou e o que Tite não deve fazer?

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

  • Jorge Araújo/Folhapress

    Paolo Rossi domina bola entre Oscar e Falcão no jogo em que Itália eliminou Brasil

    Paolo Rossi domina bola entre Oscar e Falcão no jogo em que Itália eliminou Brasil

Trinta e cinco anos se passaram desde o fatídico 5 de julho de 1982. O dia em que até mesmo brasileiros que pouco ligavam para futebol caíram aos prantos após ouvirem soar o apito final de Itália 3 x 2 Brasil, resultado que eliminou a seleção da Copa do Mundo e ficou conhecido como a Tragédia do Sarriá, estádio onde foi disputada a partida.

Apesar da derrota, o time comandado por Telê Santana ainda é lembrado como um dos que jogou o futebol mais bonito da história. E desta forma, chega a ser natural, mesmo após tanto tempo, ainda tentar encontrar – ou ao menos discutir – os motivos que fizeram a seleção brasileira ficar sem a taça.

E ninguém melhor do que os próprios personagens da seleção de 1982 – além de jornalista que acompanham o Brasil passo a passo – para buscar as respostas para o que se tornou uma das maiores tristeza da história do futebol brasileiro. Waldir Peres, Toninho Cerezo, Zico, Falcão, Serginho Chulapa e Oscar, além dos jornalistas Juarez Soares (então repórter de campo da TV Globo) e Márcio Guedes (então comentarista da TV Globo), conversaram com o UOL Esporte e deram suas versões sobre o que aconteceu.

Erros táticos, salto alto e a falta do "DNA ofensivo" foram alguns dos motivos apontados para o revés ao longo das entrevistas, que destacam também o que o técnico Tite não deve fazer para que a história de 1982 não volte a se repetir na Copa do Mundo Rússia, em 2018.

ONDE O BRASIL ERROU NO JOGO CONTRA A ITÁLIA?

Zico: ele, Falcão, Cerezo ou Sócrates precisavam ficar no banco

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Entre eu, Falcão, Cerezo e Sócrates, tinha que ter deixado um no banco, porque a gente não teve tempo para treinar com este homem protegendo o lado direito. Se a gente tivesse tempo para treinar a partir do jogo contra a Escócia, que foi o segundo jogo e a primeira vez que a gente jogou juntos na seleção com o Telê... Esse lado direito a gente tentava uma hora eu, outra hora o Cerezo, outra hora o Sócrates, outra hora o Falcão, só que não era a mesma coisa que um Paulo Isidoro, que era um especialista ali, e de um Tita, que antes jogava ali também e depois não foi mais. Tanto é que o Telê colocou o Dirceu no primeiro jogo para tapar este buraco e não deu certo. Eu acho que a gente errou porque não tinha ninguém para dar apoio ao Leandro pelo lado direito. A partir do segundo jogo, a gente jogou com Falcão, Cerezo, Sócrates e eu, e não tinha ninguém que fazia aquele lado direito ali tão bem como os outros faziam. Eu, analisando como técnico, acho que a gente tentou suprir com a qualidade técnica, mas a parte tática... O Leandro ficou muito sobrecarregado e, coitado, às vezes ele teve que não subir tanto porque sabia que não tinha essa proteção, e nosso time ficou meio torto.

Chulapa: Brasil menosprezou a Itália e foi 'geração perdedora'

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Nós menosprezamos a Itália, essa é a verdade. Nego não tem coragem de falar. Tem um monte de cara aí que dá desculpa, não tem desculpa coisíssima nenhuma. O time deles [Itália] era bom pra caramba, meu, mas a gente ganhava quando queria, essa é a minha opinião. O time era bom? Bom pra caramba, merecia o título pelos jogadores que tinham, mas foi uma geração perdedora, infelizmente. Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, pô, nunca foram campeões mundiais, isso foi um absurdo. Eu não, mas esses caras mereciam o título mundial. Pô, o empate era nosso... Custava alguém chegar e falar: Ó, vamos ficar aqui atrás, não vamos jogar pra frente. Ora, tira eu ou o Éder e coloca um zagueiro, o Edinho, aquele vagabundo que estava lá... Foi uma geração perdedora, essa é a verdade, infelizmente. A gente parecia índio, só queria atacar [risos].

Cerezo: não houve erro, e Telê fez o que tinha que fazer

Ali todo mundo tinha um só pensamento, que era o bem da seleção. O Telê colocou, escalou quem ele achava melhor, quem estava melhor naquele momento. Eu não entendo que o Telê errou em nada, não. Se errou, todos nós erramos. Como a gente ia jogar pelo empate [Brasil jogava pelo empate para avançar para a semifinal] se você tem um time que só joga para frente, só joga em função do adversário? O Telê explorava o melhor da equipe, e o melhor daquela equipe era o quê? Era o toque de bola, jogar em direção ao gol adversário, a criatividade... A não ser que se colocassem sete jogadores só para defender e pronto. Não era a nossa filosofia.

Falcão: Brasil sabia se defender e não esqueceu que empate o classificava

Naquele dia, quis o destino que a Itália ganhasse, porque o Brasil era o melhor time. O futebol não é uma questão de justiça, foi a situação do jogo. Se fosse uma questão de justiça a gente tinha ganhado a Copa, como outras grandes seleções e times teriam sido campeões se fosse uma questão de justiça, mas não tem a justiça no futebol, o que o futebol tem é só um jogo. Essa seleção era irretocável em termos de críticas, em termos de consistência. Ninguém conseguiu até hoje... Talvez tenha sido a única seleção do Brasil que perdeu e não tinha alguma crítica a se fazer, porque toda imprensa entendia que jogavam os melhores. O Brasil fez, até jogar com a Itália, 13 gols, e tínhamos sofrido três. Não dá para se dizer que não era um time que se defendia bem.

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Segundo: se a gente computar mesmo os três gols que tomamos contra a Itália, foram seis, e fizemos 15, então não dá para dizer que era um time que não sabia marcar, que não sabia se defender. Não tem nenhuma tese contrária que justifique que aquela seleção perdeu por esse ou por aquele motivo, perdeu porque naquele dia a Itália jogou muito bem. Nós também jogamos bem, e eu aprendi quando eu comecei a fazer jornalismo a contextualizar as coisas; poucas pessoas fazem a contextualização, ela leva à justiça na crítica. E não houve nenhuma crítica consistente que pudesse dizer assim: esse foi o motivo que perdeu. Não. A Itália estava num grande dia, o Brasil também estava num grande dia. O Zoff [goleiro da Itália] fez dois milagres e terminou o jogo. Foi um jogo só, né. Por justiça, a última frase que o Telê falou [na preleção] foi: 'Gente, nós vamos jogar como sempre jogamos, vamos jogar para ganhar porque essa é a nossa característica, não vamos fugir da nossa característica, mas não vamos esquecer que o empate nos classifica', e nós não esquecemos, tanto é que no terceiro gol [da Itália] nós tínhamos dez jogadores dentro da área.

Oscar: Tite não se arriscaria tanto quanto Telê se arriscou

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Eu não vou dizer que tenha sido um erro porque aquele time, naquela época, não sabia jogar diferente, jogava ofensivamente, tanto é que o meio de campo era muito técnico, com Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates, ou seja, não tinha nenhum homem que pegava firme ali, que funga no cangote, que nem o Batista, que era o cara mais marcador - ele estava poupado para poder jogar [na sequência do Mundial], contra a Argentina ele se machucou -,então o Brasil achava que passaria, mas também foi um erro de cálculo. Não que o Batista ia resolver a situação, mas era um cara marcador. Por exemplo: hoje o Tite com certeza não faria aquilo lá. Ele tem a seleção de 82 como referência, mas eu garanto que, contra a Itália, ele jogaria em cima do resultado, em cima do regulamento. Eu penso que hoje, com o Tite, seria diferente, mas eu não quero aqui crucificar a comissão técnica de 82, mesmo porque não tem o que falar de Telê Santana. Quando estava 2 a 2, a gente podia ter fechado, mas o problema é que o nosso time não sabia jogar defendendo, não tinha essa característica.

Waldir Peres: Brasil não errou. A Itália que soube marcar

Não erramos. É que a Itália soube marcar a nossa equipe. A Itália tem uma marcação muito grande, o futebol na Itália é assim. Fez, com isso, que a equipe [brasileira] não jogasse da maneira que vinha jogando, e as oportunidades de gols foram aproveitadas. Nós tivemos oportunidade também, inclusive um pênalti no Zico que não foi dado. Em termos de tática e técnica foi um time importante, totalmente habilidoso, que jogava ofensivamente, que era o Brasil, e o esquema tático da Itália, de se fechar num momento certo, embora o Brasil tenha tido muito mais oportunidades de fazer gol do que a própria Itália.

Márcio Guedes: seleção brasileira deveria ter sido mais cautelosa

Arquivo
Eu acho que o Brasil entrou em campo achando que a vitória já estava garantida, porque no time havia aquela sensação de uma superioridade incrível em função das goleadas iniciais. Houve até advertência do Zezé Moreira [espião de Telê Santana na Espanha] de que a Itália tinha bons jogadores, mas isso parece que não foi ouvido e o Brasil entrou em campo, em minha opinião, com o sistema defensivo quase sempre vulnerável a contra-ataques italianos: a Itália jogando futebol tradicional, de cautela e com jogadores muito bons, de toque de bola, de velocidade na hora da passagem da defesa para o ataque, e o Brasil não se preparou pra isso. O Leandro e o Junior, os dois laterais do Brasil, eram grandes jogadores com a bola nos pés, mas não eram marcadores, especialmente o Junior, e o Telê gostava daquele miolo ali, de jogadores muito leves. E o Brasil, mesmo assim, estava melhor no jogo, mas acabou não resistindo aos contra-ataques fatais do time italiano e esqueceu que poderia ter tido um esquema de jogo muito mais cauteloso. Foi um resultado, em minha opinião, que não foi injusto, não. Talvez o empate seria o ideal. Foi consequência de certa soberba do Brasil e do bom time italiano também, basicamente isso.

Juarez Soares: Brasil precisava de um jogador de mais marcação

O Telê fazia questão de ganhar o jogo com o time jogando bem. Ele falava que preferia perder um jogo com o time jogando bem do que ganhar com o time jogando mal, porque ele achava que, com o time jogando bem, a chance de ganhar era muito maior do que se o time se preocupasse em se defender. Ele gostava do futebol espetáculo. E na escalação do Brasil contra a Itália, o Brasil tinha dois meias, o Zico de um lado e o Sócrates do outro, e os dois volantes, que eram Falcão e Toninho Cerezo, e um ponta esquerda que voltava para ajudar, que era o Éder Aleixo. Não tinha um ponta do lado direito. O que me parece é que, num determinado momento, precisaria de um jogador de maior marcação no meio-campo, que fosse correr pelo Falcão, pelo Zico e pelo Sócrates. E esse jogador não teve na Copa de 82. O Brasil teve três vezes pra continuar na Copa: primeiro quando o jogo estava 0 a 0, depois 1 a 1 e depois 2 a 2. Nessa hora faltou esse jogador, tipo o Gérson, o canhota de 70, que era outro jogador espetacular, que falava para os caras: 'agora, moçada, acabou o jogo bonito, vamos garantir esse resultado aqui, você vem pra cá, você vai pra lá', como ele fez em 70, como o Cruijff sabia fazer, como o Xavi, que jogou no Barcelona, sabia fazer, como o Zidane sabia fazer. O Brasil tinha craques: o Zico era um artilheiro, o Sócrates tinha visão de jogo, mas faltou esse jogador que abrisse mais a boca pra falar. Contra a Itália, o Brasil só continuou jogando, e aí, os lances que o Paolo Rossi fez os gols, foram lances pontuais, não lances trabalhados.

Arquivo/EFE

O QUE TITE TEM DE FAZER PARA QUE BRASIL NÃO REPITA 82?

Chulapa: Brasil tem de jogar com seriedade e de acordo com regulamento

Jogar com seriedade, lá [na Espanha] nós não tivemos, e jogar de acordo com o regulamento. Hoje é outra história, a seleção está classificada, entrosada, então hoje o Brasil volta a ser um dos candidatos, mas nunca querer mudar a maneira de jogar, dizer que já está bom, isso não dá. Tem que ganhar a Copa do Mundo para poder ter a identidade do Tite.

Zico: Tite não deve mudar esquema sem treinar antes

Não mudar o esquema que deu certo durante três anos. Por mais que os jogadores estejam prontos para serem colocados no time, treinar os jogadores. Hoje, a maioria joga em diversas posições, mas naquela época jogavam os jogadores fixos na posição, então hoje tem mais essa rotatividade, e naquela época não tinha.

Jorge Araújo/Folhapress
Nós jogamos durante três anos de uma forma e, quando chegou na Copa do Mundo, foi mudada essa forma de jogar. Mesmo com a grande qualidade dos jogadores... Mas tem hora que o adversário pode aproveitar isso. Foi igual à seleção de 70, que jogou com jogadores fora da posição; tinham cinco jogadores da mesma posição jogando no time, só que ele [Zagallo] teve um mês para treinar isso. Eles jogaram várias partidas amistosas, treinaram, e a gente, eu, Falcão, Cerezo e Sócrates, nunca tinha jogado junto com o Telê. Sempre tinha um homem do lado direito com o Leandro ou com o Edevaldo [lateral direito reserva], mas a maioria das vezes foi o Paulo Isidoro e o Tita. Aí chegou a Copa do Mundo de 82 e não foi assim depois do segundo jogo, e isso fez diferença.

Oscar: seleção deve ficar mais próxima da torcida

O Brasil tem que estar mais junto com a torcida, ou seja, os jogadores têm que ficar mais próximos da torcida. Como? O Tite tem que arrumar uma forma de ficar aqui no Brasil treinando mais tempo. Nós ficamos treinando quase três meses na Toca da Raposa... Senão fica aquele negócio, parece um time europeu com a camisa do Brasil... É uma sugestão, eu não sei se dá para fazer, mas é uma coisa positiva.

Cerezo: Tite saberá aproveitar jogadores da melhor maneira

O Tite tem uma filosofia que, normalmente, o time dele jogando da maneira que joga, tem sempre dois volantes que chegam na área, o Paulinho e o Renato Augusto, então são dois jogadores que, além de marcar, sabem chegar na área adversária, e estão fazendo isso muito bem. E ainda tem alguns meninos que estão vindo fortes com esta característica de chegar também. O Tite vai saber aproveitar os seus atletas da melhor forma possível.

Waldir Peres: seleção precisa estar preparada para qualquer tática rival

Hoje é completamente diferente, mudou muito de 82 para cá: os esquemas táticos, a maneira das equipes jogarem... Então tem que acertar os jogadores que têm dentro da seleção para poder fazer uma seleção vencedora. O Tite tem que procurar formar uma equipe sólida e uma equipe que supere todos os obstáculos táticos das outras equipes.

FALCÃO TERIA FEITO ALERTA AO BRASIL. ELE MESMO EXPLICA...

De acordo com o zagueiro Oscar, o meio-campista Paulo Roberto Falcão teria alertado, ainda nos vestiários, que o Brasil podia se complicar diante da Itália caso mantivesse a postura extremamente ofensiva e não se preocupasse tanto com a defesa. Zico confirma a versão, mas o "Rei de Roma" nega e esclarece qual foi o tom da conversa antes do apito inicial.

Oscar

Nós até comentamos e o Zico pode falar isso para você, mas o Falcão comentou ao longo da preleção antes do jogo contra a Itália que a gente tinha que atacar menos porque os nossos atletas eram muitos ofensivos... E o Falcão, na época, jogava na Itália e sabia que eles jogavam no contra-ataque, principalmente contra um time ofensivo como era o nosso, e a Itália nos surpreendeu: fizeram um gol rápido e viram que podiam eliminar a gente.

Zico

Ele [Falcão] falou em tom de preocupação, que o time italiano não era um time que estava morto, como muita gente imaginava. Era um time competitivo e que, mesmo indo mal na primeira fase [três empates: 0 a 0 com a Polônia, 1 a 1 com o Peru e 1 a 1 com Camarões), poderia e ia jogar nos nossos erros, e foi o que aconteceu. A gente errou mais do que o normal e eles aproveitaram muito bem.

Falcão

Quando o Telê, depois de ter dado a palestra, me perguntou se eu tinha alguma coisa a acrescentar, na medida que eu jogava no futebol italiano... Porque a gente sabia que o Gentile ia marcar o Zico homem a homem, porque foi assim que o Gentile marcou o Maradona [Itália 2x1 Argentina, antes de Brasil x Itália], nós tínhamos visto o jogo, e tinha ainda o Cabrini, o lateral esquerdo que era um jogador de muita qualidade não só defensivo, mas de apoio, e eu sugeri que o Galo [Zico] fosse para cima do Cabrini de modo que ele levasse o Gentile também para cima do Cabrini, para que ficassem dois marcando o Zico... O Cabrini não ia apoiar com o Zico ali, e ia tirar o Gentile também, nós íamos tirar dois jogadores e ficar com o meio mais aberto, menos congestionado; mas não foi isso que levou a mudança, eu acho que o resultado teria sido o mesmo. Mas a única coisa que eu disse foi isso, e sinceramente, eu não credito que teria mudado na questão do destino. Mas foi o que eu falei quando o Telê me perguntou se eu queria falar alguma coisa, porque eu jogava lá [na Itália] e conhecia os caras. Foi isso.

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