Com medo, presidente do Paysandu diz que família foi ameaçada e renuncia

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação

O presidente do Paysandu, que disputa a Série B do Brasileiro, renunciou na manhã desta quinta-feira (06) ao cargo que ocupava há seis meses. O time vem de oito jogos sem vitória. Em sua carta de renúncia, Sergio Serra afirmou que estava em uma praça de Belém (PA) no domingo quando ele e sua família foram agredidos e tiveram sua integridade física e segurança ameaçadas.

Em contato com a diretoria do clube, o cartola disse que brincava com seu filho, um adolescente que sofre de autismo, e sua mulher, quando dois homens desceram de uma moto armados e o ameaçaram, cobrando resultados do time. O cartola preferiu não prestar queixa da ameaça à polícia, segundo a diretoria do Paysandu. No dia seguinte, ele se reuniu com o clube e comunicou a renúncia.

Irmã do cartola, a jornalista Cristina Serra, da TV Globo, publicou um texto em sua página no Facebook, no qual relata detalhes da ameaça sofrida.

"No domingo à noite, ele passeava numa praça em Belém com a esposa, Cristina (sim, minha xará), e o filho mais velho, Gustavo, de 14 anos, quando dois homens numa moto se aproximaram. Um deles, com o rosto encoberto pela camisa, encostou o revólver no rosto do meu irmão e disse o seguinte: 'Eu já sei onde tu moras. Se o Paysandu descer pra série C, eu acabo contigo, com a tua mulher e com esse teu filho maluco'. Detalhe, Gustavo, meu sobrinho, é um adorável adolescente autista, um tesouro que temos em nossa família", escreveu a jornalista, uma das mais experientes repórteres da Globo.

"Ele é uma pessoa muito família e reservado e sempre disse que quando a coisa começasse a colocar em risco a segurança da família, esse seria o limite dele", disse Tony Couceiro, que assumiu a presidência do clube. "A gente entende a decisão dele, nesse caso não seria nem justo que pedíssemos o contrário."

A diretora do Paysandu não sabe se o antigo presidente está em Belém ou deixou a cidade para evitar agressões mais graves.

Com um começo promissor na Série B, o Paysandu chegou a vencer o Internacional e liderar a competição, mas começou a perder jogos em casa e causar revolta na torcida. Agora, o time ocupa a 16ª posição a um ponto da zona de rebaixamento. Serra era considerado um presidente omisso porque não tinha presença nas redes sociais, diferentemente de seus antecessores.

Couceiro, que assume e deve ficar no cargo até o fim de 2018, pediu desculpas à torcida e disse que trabalhará muito para tirar o time da situação em que se encontra. "Tem que pedir desculpa à torcida por eventuais erros que tenhamos cometido. Agora é trabalhar muito para chegar aos resultados."

Leia o relato da jornalista Cristina Serra sobre a ameaça ao irmão

Meu irmão, Sérgio Serra, acaba de renunciar à presidência do Paysandu Sport Clube (time de futebol de Pará), depois de um episódio traumático que nos abalou a todos.

No domingo à noite, ele passeava numa praça em Belém com a esposa, Cristina (sim, minha xará), e o filho mais velho, Gustavo, de 14 anos, quando dois homens numa moto se aproximaram. Um deles, com o rosto encoberto pela camisa, encostou o revólver no rosto do meu irmão e disse o seguinte: "Eu já sei onde tu moras. Se o Paysandu descer pra série C, eu acabo contigo, com a tua mulher e com esse teu filho maluco".

Detalhe, Gustavo, meu sobrinho, é um adorável adolescente autista, um tesouro que temos em nossa família. Abaladíssimo, meu irmão tomou a única decisão possível numa situação como essa, a renúncia. Como muitas outras coisas no Brasil, o futebol (com poucas exceções), pra mim, há tempos virou coisa de bandido. Já está a tal ponto contaminado que não há o que reformar, recuperar, restaurar, tamanha a putrefação. E dou ênfase: tal como outras tantas coisas no Brasil.

Quando meu irmão informou à família que iria se candidatar à presidência do clube, todos lamentamos. Eu, particularmente, achava um desperdício o Sérgio dedicar o seu talento, sua competência, sua inteligência e seu altruísmo a isso. Mas meu irmão é um idealista, tem um coração de ouro, acredita poder fazer a diferença com seus valores, seu trabalho e sua dedicação.

Sou testemunha do quanto trabalhou nestes seis meses, sacrificando o tempo precioso em que poderia estar com a família e sua vida profissional, para se dedicar ao clube que é sua paixão desde a infância. Infelizmente, vejo este caso, que me toca tão de perto, como uma metáfora do Brasil de hoje, em que bandidos nos ameaçam, nos amedrontam, nos tiram a crença de que podemos contribuir para a construção de algo melhor, nos tiram a esperança em dias melhores. Pobre Paysandu, pobre Brasil.

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