Cearense largou alcoolismo pela Portuguesa e sofre com derrocada histórica

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

  • Adriano Wilkson/UOL

Tem certas coisas que só acontecem com a Portuguesa. Por exemplo, perto da bilheteria do Canindé antes de um jogo pela Copa Paulista, uma semana depois de o time ser eliminado da quarta divisão nacional, um torcedor de 77 anos grita para quem quiser ouvir:

"Aqui é Portuguesa, mano! Aqui a gente não abaixa a cabeça para ninguém!"

Seu nome é Antônio Dionísio, mas ele pede para ser chamado de Kaverna ("escreve com K", ordena ele). Veste-se com uma camiseta rubro-verde, a palavra Barcelusa estampada no peito, uma lembrança da época não tão distante em que eles eram comparados com os gigantes da Catalunha. Conhecido por todos os que frequentam o Canindé, Kaverna é um dos dois torcedores-símbolo da Lusa.

(O outro é chamado de Sardinha, mas esse não gosta de falar com a imprensa por medo de ser sequestrado.)

Kaverna chorou quando a Portuguesa foi eliminada na Série D há uma semana. É a fase mais difícil de uma história centenária. Mas ele chorou mais ainda quando o time foi rebaixado no tapetão da Série A em 2013. Ali foi o início do calvário luso. "Uma quadrilha rebaixou a Portuguesa para salvar o Fluminense", afirma Kaverna, ecoando sentimento comum entre as centenas de outros fiéis seguidores nesta noite fria (14º no termômetro, vento gelado às margens do Tietê na capital paulista).

Adriano Wilkson/UOL

De lá para cá, foram três rebaixamentos nacionais, uma briga entre cartolas que parece não ter fim e um mar salgado de lágrimas de Portugal. O quarto maior time da maior cidade do país agora precisa vencer a Copa Paulista para se classificar à última divisão em 2018, do contrário ficará fora do calendário.

Entre um lance e outro Kaverna conta sua história de amor ao clube da comunidade dos colonizadores. Ele não tem qualquer ligação familiar com o além-mar, já que nasceu em Fortaleza, no Ceará, e chegou a São Paulo em 1965 como milhões de outros retirantes nordestinos.

Era, então, alcoólatra; passava os dias enchendo a cabeça de cachaça, como ele lembra. Um dia um português lhe fez uma proposta tentadora: se ele parasse de beber, lhe daria um título de sócio da Portuguesa. Kaverna topou e, orgulhoso, largou a mardita, abraçou a abstemia e um clube que também se tornou sua família na cidade grande.

Leon Valente/Arquivo Pessoal

"Nunca mais bebi uma gota de álcool", ele informa. Também lembra que naquela época foi difícil romper a barreira racial dentro da comunidade portuguesa nos trópicos. "Não tinham muitos negros no clube. Os portugueses olhavam torto, falavam 'preto isso', 'preto aquilo', era foda. Hoje graças a Deus não tem mais."

Ele ganhou o apelido na época em que trabalhou como salva-vidas na antiga piscina do Canindé. Costumava pular de um alto trampolim desempenhando na queda variadas posições heterodoxas, e a molecada lá embaixo gritava "Vai Kaverna!": Capitão Caverna era um troglodita peludo dos estúdios Hanna-Barbera que andava de cima pra baixo com um pedaço de pau nas mãos. Ele adorou.

De vez em quando puxa seu celular para mostrar as fotos daquela época, e nessas fotos é possível vê-lo de sunga, ao lado de beldades dos anos 80 com seus biquínis asa-delta e penteados-capacete. De vez em quando ele puxa a carteira pra mostrar ingressos antigos de jogos da Portuguesa, aos quais ele comparece quase religiosamente.

Adriano Wilkson/UOL

Ele vive de uma pequena aposentadoria em uma casinha perto do estádio e não mora com a mulher nem com filhos (faz mistério sobre eles, que ficaram no Ceará); não tem dinheiro para colocar crédito no celular e nem para viajar atrás da Lusa Brasil afora.

Mesmo assim ele viaja. O clube lhe dá ingressos, e Kaverna conhece o atual presidente dos tempos de salva-vidas do clube; a torcida organizada lhe garante uma cadeira nas caravanas, às vezes alimentação e um senso de família que faz caverna estufar a Barcelusa no peito e dizer: "Isso aqui [a Portuguesa] é tudo para mim."

Após a Portuguesa vencer a Portuguesa Santista por 1 a 0, Kaverna volta para casa caminhando sobre a calçada do Canindé, estádio que ele conhece há mais de 40 anos, onde ele se tornou parte de uma coisa maior, onde as pessoas o cumprimentam como se ele fosse um amigo íntimo, e antes de se despedir, avisa: "Se precisar de mais alguma coisa, você sabe onde me encontrar." 

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