Vasco tem plano de sócio para organizada; Grupo suspenso pelo MP tem acesso

Bruno Braz e Leo Burlá

Do UOL, no Rio de Janeiro

Ao menos até o último sábado, quando uma confusão generalizada terminou na morte de um torcedor após o clássico contra o Flamengo, o Vasco facilitou a entrada de membros de organizadas em São Januário. Desde maio, o clube conta com um plano de sócio-torcedor especial para uniformizadas, que podem comprar ingressos por R$ 10 enquanto o torcedor comum chega a pagar R$ 90. Entre os beneficiados estão integrantes da Força Jovem do Vasco, que mesmo antes da tragédia do último fim de semana estava proibida pela Justiça de entrar em estádios.

O plano em questão é chamado de "sócio-torcida" e foi desenhado especialmente para as organizadas. Horas antes da partida contra o Rubro-Negro, o UOL Esporte flagrou ingressos de tal plano sendo comercializados na sede da Força Jovem, que fica bem próxima a São Januário. Alguns, inclusive, com preço bem acima dos R$ 10 propostos pelo programa.

O clube confirma a existência do plano e seu foco em organizadas, mas diz desconhecer o cambismo praticado. "A logística do plano é igual a de qualquer sócio-torcedor.  É limitado a mil ingressos. É feito um cadastro com carteira com todos os dados incluídos. O clube desconhece qualquer outra negociação", disse o vice-presidente de marketing do Vasco, Marco Antônio Monteiro, em resposta ao UOL Esporte por meia da assessoria de imprensa cruzmaltina.

Monteiro não esclareceu se o clube tem conhecimento de que a Força Jovem, apesar da proibição, é uma das beneficiadas do plano. Além da proibição à torcida, 55 de seus integrantes também estão individualmente vetados de comparecerem aos jogos, segundo o ranking divulgado semana passada pelo Tribunal de Justiça-RJ. O Vasco também não diz se confere a condição de todos os usuários do programa. 

Em nota oficial no site do clube publicada dia 20 de maio de 2017, o Cruzmaltino informa sobre o plano e diz ser uma "parceria com as torcidas organizadas". No conteúdo, explica a logística para se associar:

"(...) o Vasco está cadastrando mil torcedores que poderão comprar um ingresso de arquibancada a 10 reais. Os torcedores cadastrados serão prioritariamente os que têm mais dificuldades financeiras. Eles receberão uma carteira nominal, com o CPF, e terão um guichê exclusivo para a compra do ingresso nos portões 5 e 9 (...).A carteira é individual e intransferível.  O projeto está limitado a mil vascaínos que, a cada período determinado pelas torcidas organizadas, podem ser trocados por outros para ampliar as chances desses torcedores de baixa renda". 

Presidente da Comissão Judiciária de Articulação dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais em Eventos Esportivos, Culturais e Grandes Eventos (CEJESP), o desembargador Mauro Martins recriminou possíveis desvios de ingressos de tal plano para revenda, mas destacou que ainda não tomou conhecimento de tal fato:

"Não pode haver desvio de ingressos, isso é objeto de investigação da Polícia Civil. Se a torcida compra e revende, é ilícito, mas desconheço".

Presidente do Vasco, Eurico Miranda também se posicionou em relação ao plano após a barbárie do último sábado.

"Vem um desses que pretende ser algo no Vasco um dia e coloca que eu daria ingresso para torcida. Não dou um ingresso. Criei uma situação de facilitar, com limitação, venda para a sócio-torcida. Pagam R$ 10. São cadastrados. Fora isso, não dou ingresso", disse o dirigente.

Informalmente, funcionários do Vasco alegaram à reportagem ser difícil ter controle de tais ingressos após os mesmos serem retirados pelos membros cadastrados.

Orgãos confirmam presença de suspensos em estádio

A falta de biometria e câmeras de identificação facial na entrada dos estádios é apontada por policiais militares e órgãos de fiscalização como a principal dificuldade para se chegar a um indivíduo suspenso ou que seja membro de uma organizada vetada dos jogos. Mesmo assim, a retirada de integrantes da Força Jovem dos jogos do Vasco em São Januário é algo recorrente, de acordo com um policial militar ouvido pela reportagem e que não quis se identificar, já que a determinação é a de que somente a Coordenadoria de Comunicação Social está autorizada a falar sobre os episódios no clássico com o Flamengo.

Em contato por telefone, tal setor da PM informou que vai seguir se baseando somente na nota oficial emitida no último domingo que, entre outras questões, destaca que: "A revista para entrada dos torcedores ao estádio é de responsabilidade do clube, que possui funcionários destinados a isso em todos os pontos de acesso. O GEPE supervisiona a revista".

No ranking divulgado pelo TJ-RJ, a "FJV" aparece como a organizada com o maior número de membros proibidos de frequentar praças esportivas com os seus 55, seguidos por Corinthians (41), Young Flu (31), dois grupos do Flamengo (10 integrantes) e Botafogo (sete torcedores).

O desembargador Mauro Martins confirma a presença de membros de organizadas suspensas em jogos do Rio.

"Pontualmente ficamos sabendo que membros de organizadas afastadas estão nos jogos, mas só quando provocam baderna e são levados ao juizado. Se forem ao jogo e ficarem bem comportados, não há como saber", alega.

Premiere/Reprodução
Torcida do Vasco entra em conflito com a PM em São Januário

Por conta disso, o presidente da CEJESP bate na tecla da necessidade de se ter um sistema de biometria na entrada dos estádios para se identificar os suspensos:

"São proferidas decisões de afastamento, mas a efetivação é muito difícil. Não há controle de acesso. Estamos batendo na tecla da biometria, isso tem de ser enfrentado. Não existem mecanismos para barrar, apenas uma decisão do juiz. A Polícia Civil trabalha com uma dificuldade enorme, falta até papel, não podemos impor mais uma medida a eles. Do jeito que está, a Justiça se torna inócua, vira apenas ficção", reclama.  

Martins até revela que um número considerável de torcedores comparece à delegacia em dias de jogos para cumprir a punição da Justiça, mas deixa claro que não acredita que essa seja a solução para o problema.

"Há um espaço para o comparecimento de torcedores afastados em dias de jogos lá na Cidade da Polícia e a adesão tem sido razoável, mas a solução está no acesso. Não quero que o cara esteja na polícia, quero que ele não esteja no estádio. Existem organizadas positivas, mas existem algumas que são organizações criminosas", disse.

Por fim, o desembargador criticou a postura do presidente do Vasco, Eurico Miranda, que tem alegado que grupos políticos opositores têm inflamado badernas em São Januário:

"Se o Eurico sabia que havia o risco de grupos políticos infiltrados, não foi sensato insistir com o jogo em São Januário".

Organizada alega ter cumprido a pena no dia do clássico

Divulgação Facebook
Sede da Força Jovem lotada de torcedores no dia do jogo contra o Flamengo

Pouco depois do clássico da barbárie, fotos circularam de membros da Força Jovem em um camarote de São Januário no dia do jogo. Eurico Miranda negou que tenha cedido o espaço a membros da organizada em coletiva logo após a partida.

"Não tem nada de camarote para nenhuma torcida organizada. Estou sabendo agora dessa presença de pessoas lá e vou apurar o que houve. Eu garanto que a diretoria não deu nada para ninguém de torcida", disse o presidente cruzmaltino.

Em sua página oficial no Facebook, a Força Jovem emitiu uma nota repudiando as cenas de violência no estádio e fez questão de ressaltar que cumpriu a pena imposta, destacando que realizou um evento com a transmissão ao vivo do clássico em sua sede. Veja abaixo a íntegra:

"NOTA OFICIAL (C.R. Vasco da Gama x C.R. Flamengo - 08/07/2017)
O G.R.T.O. Força Jovem lamenta os episódios de violência e depredação ocorridos em São Januário na partida disputada contra o C.R. Flamengo, dia 08/07/2017.
É de absoluta convicção que o Clube e Estádio possuem totais condições de sediar qualquer evento esportivo, independentemente de qual adversário seja visitante. Os reais culpados dos crimes citados, são marginais trajados de vascaínos que premeditadamente adentraram na partida portando artefatos explosivos no objetivo único de prejudicar o futebol do C.R. Vasco da Gama.

A Força Jovem espera que seja realizada a identificação dos bandidos disfarçados de torcedores e também dos policias que indevidamente utilizaram armas de fogo, causando um homicídio. A Diretoria já se colocou a disposição dos órgãos de segurança para qualquer tipo de colaboração com as investigações, dando continuidade ao seu compromisso firmado por aplicação de idéias e atitudes pela paz no esporte, denunciando e excluindo qualquer meliante dos ambientes socioespotivos.

Como de costume, a Diretoria da Força Jovem trabalhou mais um jogo para que seus associados cumprissem as sanções judiciais impostas pelo Ministério Público, promovendo um evento social com transmissão da partida em sua sede, sem comparecimento e deslocamento ao Estádio. Caso os sócios e líderes da Força Jovem pudessem estar presentes na arquibancada, com certeza exerceriam a função de liderança da massa, coibindo grupelhos de realizar tais graves crimes contra o C.R. Vasco da Gama.

Punições severas aos indivíduos criminosos, chama-se: solução!
Punições a instituições, chama-se: ineficiência covarde!
"PAZ NO ESPORTE É NOSSO OBJETIVO"
Att.: Diretoria do G.R.T.O. Força Jovem
"NINGUÉM FICA PRA TRÁS"

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