Antiga promessa acusa Inter de barrar sua ascensão: "Tinha nojo do futebol"

Marinho Saldanha

Do UOL, em Porto Alegre

  • EFE/Harold Escalona

    Tales, ex-Internacional, em jogo do Sub-20 da seleção brasileira

    Tales, ex-Internacional, em jogo do Sub-20 da seleção brasileira

Craque das seleções de base do Brasil e recordista em convocações até os 20 anos. Este era o cartel do meia Tales, cria das categorias inferiores do Internacional, clube que defendeu até próximo de 2008. Mas a trajetória que se apresentava brilhante acabou abruptamente. Hoje com 27 anos, ele se 'aposentou pela segunda vez'. Magoado pelo que houve no Inter, ele diz que simplesmente 'perdeu o amor pelo futebol'.

A trajetória é marcada por uma acusação séria. Quando estava prestes a subir para o profissional, Tales foi envolvido em uma transação envolvendo D'Alessandro e diz que o Inter barrou sua subida para mascarar um erro administrativo, o que o clube nega. Frustrado, o jogador diz ter perdido o amor pelo futebol e passou a perambular pela bola, privilegiando experiências pessoais a projetos de carreira. Hoje, 

Tales defendeu o Inter até 2010, quando esteve uma temporada no Sporting, de Portugal. Depois voltou ao Colorado e jogou por ASA-AL; Joane, de Portugal; Suphanburi, da Tailândia; Al Yarmouk, do Kwait; e no Osaka, do Japão. Em 2014, decidiu pela aposentadoria pela primeira vez. Ficou dois anos parado, apegou-se ao triatlo (esporte que pratica até hoje e disputa inclusive campeonatos profissionais), e tentou uma última vez no ano passado, no Homka, da Finlândia. Foi então que uma lesão crônica no quadril o fez desistir definitivamente. Uma carreira que começou de forma brilhante, gerou imensa expectativa, mas acabou prematuramente e sem se aproximar do brilho esperado.

Fase 1: Sensação da base do Inter, nunca no profissional

Divulgação/Inter

"Sempre se falou muito no meu nome, mas joguei uma partida no profissional. E foi antes de subir definitivamente, como 'tapa-buraco', eu nem treinava com o profissional. As coisas foram muito mal administradas por parte do Inter em relação a mim. Em todas as categorias sempre fui o maior destaque. Com 15 anos eu estava no Time B [que comporta adultos]", contou o ex-jogador em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Só que os contratempos começaram a provocar incertezas. "Sempre tinha algum problema. Uma hora era eu ser baixo demais [Tales mede 1,72 m]. Mas como? Se no principal tinha o Glaucio [1,70 m] e o D'Alessandro era um centímetro maior que eu? Depois diziam que eu era fraco demais. Fiz dois meses de trabalho separado, que chamávamos de 'projeto Rambo'. O Pato fez, o Nilmar fez... Daí mudava a justificativa. Sempre tinha um problema e eu não entendia por que todos passavam na minha frente. Sempre tinha alguma questão e aos poucos isso tomou conta da minha cabeça. Como tinha jogador que era meu reserva na base indo para o profissional e eu não? Não tinha cabimento", reclamou.

Em seguida, uma acusação forte contra o Internacional e o início do fim da carreira. "Depois de muito ficar nessa é que fui saber o que estava acontecendo. O Inter cometeu um erro absurdo, primário até em termos de matemática. O Inter nunca aceitou muito bem que eu e meu pai controlávamos tudo na minha carreira, e éramos muito corretos. Meu contrato era diferente da maioria dos jogadores da base. Normalmente os direitos são 70% do clube e 30% do jogador. O meu era o contrário", disse Tales, para seguir.

"E o Inter deu 30% dos meus direitos ao Zaragoza quando contratou o D'Alessandro, achando que teria ao menos mais 20% depois. Mas não tinha. Quando se deram conta disso, primeiro não acreditaram, depois não sabiam o que fazer. Imagina se isso chegasse na imprensa? Se eu descobrisse isso o que eu iria fazer?. Fiquei um ano ou dois sem saber disso. Simplesmente treinando e nada acontecendo comigo. Arrebentando no time B, e nenhuma chance porque, se eu estourasse, todo valor de venda seria do Zaragoza. Daí a Gestifute [grupo do empresário Jorge Mendes que, entre outros, trabalha com Cristiano Ronaldo e José Mourinho] me chamou para trabalhar com eles. Me contaram isso e foi um baque muito grande", completou.

Em contato com a reportagem do UOL Esporte, o ex-presidente e vice de futebol do Inter na ocasião, Fernando Carvalho, disse que a negociação dos direitos de Tales ocorreu com total ciência do Inter. Segundo ele, o jogador não foi aproveitado por questões técnicas. "É verdade. Ele era um excelente jogador, promissor, com histórico de seleção. Então demos este percentual para o Zaragoza para concluir a negociação do D'Alessandro. O Inter sabia que estava dando o percentual dos direitos que tinha dele. O Zaragoza poderia tê-lo levado imediatamente, mas não quis. E ele não foi aproveitado por questões técnicas. Sempre esteve à disposição dos treinadores do Inter. Não foi aproveitado por questões unicamente técnicas", afirmou.

Fase 2: Desgosto, viagens e desistência

Divulgação/Site oficial do Sporting

"Talvez num primeiro momento eu tenha tido raiva do Inter, mas depois a coisa foi minando tanto que eu simplesmente acabei prostrado. Não tinha força nem para ter ódio do Inter. Tinha perdido o amor pelo futebol. Tinha nojo do futebol. Hoje me perguntam se eu odeio o Inter. Não, não odeio. Agradeço muito, passei 13 anos lá, cheguei à seleção e tenho várias histórias maravilhosas. Mas acabou meu prazer de jogar futebol. Não vejo futebol. Vejo o Barcelona porque acho bonito, acompanho notícias do Inter, mas não vejo. Se tomar oito ou fizer dez não tem a menor diferença para mim", disse Tales.

"Acabou com minha paixão que eu tinha desde bebê. Minhas últimas vezes [no futebol] eu fui como experiência de vida, não pelo futebol. Isso não tenho mais, nunca mais tive este prazer. Agradeço ao Inter por tudo, só que eles também perderam muito. Não gosto de falar, sou muito modesto, Mas acho que perderam muito, sim", continuou Tales. "Não sei quem foi. Não fiquei sabendo quem teria feito isso. Não sei se foi o Vitório [Píffero, presidente na época], algum diretor. Não sem quem é o responsável. Mas tem", completou.

Depois disso, Tales virou andarilho do futebol. Por meio da Gestifute, foi para Portugal, jogou na Ásia, mas diz que nunca mais teve o mesmo prazer pela bola. "Passei uma temporada, depois, no Sporting, em Portugal. Lá não consegui jogar. Foram só duas partidas. Tive vários problemas de lesão, já não tinha motivação. Tinha ficado muito tempo só treinando, não tinha ritmo nem confiança. Depois voltei para o Inter e fiquei oito meses treinando como se fosse um indigente. Era eu e preparador físico, treinos das 7h às 8h, usando vestiário das crianças para não ter contato com outra categoria", falou.

Depois veio ASA-AL, Joane-POR, Tailândia, Japão e a primeira aposentadoria. "O clube da Tailândia era um dos quatro maiores do país. Lá é diferente. O futebol é amado como esporte. Não é como aqui. Lá o jogo é a felicidade deles. Perdendo ou ganhando, a torcida troca faixas com a rival. Comecei a rodar o mundo inteiro atrás do que te falei: experiência de vida, conhecer outras culturas, focado no meu bem-estar e experiência como pessoa. Não pensava mais em carreira, dinheiro... Tinha sonhado em ser o melhor do mundo, jogar num time top da Europa, nessa altura já não sonhava mais. Em 2014, depois do meu contrato com Osaka, no Japão, resolvi parar. Voltei para o Brasil", explicou.

Fase 3: Triatlo e última chance ao futebol

Reprodução/RBS TV

Durante o período em que colocou o futebol no divã, Tales ganhou duas paixões: gastronomia e triatlo. Hoje ele já participou de duas edições do Iron Man e outras competições profissionais no esporte. "Eu pratico com mais dedicação hoje. Durante o período do futebol, foi quando eu estava sem clube. Depois de sair do ASA-AL, fiquei seis meses sem jogar, meu irmão já praticava e comecei a treinar. Fui adquirindo gosto, mas continuei jogando futebol. Em 2014, depois do meu último clube, decidi tocar a vida longe do futebol, comecei a trabalhar com gastronomia, outra paixão que eu tenho, e praticar triatlo", contou.

Só que no ano passado veio uma nova oportunidade de jogar profissionalmente. Na Finlândia, Tales encontrou tudo: estrutura, qualidade de vida, perspectivas. Mas uma lesão barrou o caminho de novo. "Me apaixonei pelo país, mas fiquei só dois meses. Era tudo como eu tinha sonhado. Cultura, qualidade de vida, tudo que eu sempre gostei. Forma de viver, o povo, o frio... Mas a sequência de treinos me deu uma dificuldade por causa de uma dor que me atrapalhava muito. Parei, fiz fisioterapia, mas não diminuía a dor. Até que se fez uma ressonância magnética e descobri que tenho um problema quase hereditário no quadril. Não poderia continuar jogando sem operar. E mesmo a cirurgia não garantiria o retorno. O período de recuperação seria longo. Então aproveitei que já tinha parado uma vez, voltei para casa e vou decidir se faço a cirurgia ou não", acrescentou.

Fase 4: A vida pós-futebol

Arquivo Pessoal

"Até o fim do ano passado eu trabalhava como cozinheiro em um restaurante. A gastronomia é minha paixão também. Mas saí para a Finlândia. Agora voltei e em função do futebol nunca tive tempo para dar atenção à minha saúde. Tenho esta situação do quadril e resolvi dar um tempo para investigar isso. Tive alguns problemas clínicos hormonais também e vou tirar um tempo para cuidar de mim enquanto pratico triatlo. Não abri restaurante ainda, mas sem dúvida é nisso que gostaria de trabalhar. Talvez de uma forma mais autônoma, eu e meu irmão [Walter, ambos juntos na foto acima], que já é do meio, fazemos eventos e cozinhamos para as pessoas", projetou.

"Faço um balanço de prós e contras e vejo que os prós ganham de goleada. O simples fato de você me ligar quase dez anos depois de eu estar no meu auge, sem ter estourado no profissional do Inter, é demais. Não existe alguém que tenha isso. Ao menos uma vez por semana, alguém acaba me reconhecendo na rua. Perguntam: você não é o Tales do Inter? E eu não joguei no profissional. Me pergunto: 'Nossa, como isso aconteceu?' Sempre acreditei pouco em mim... Fico pensando. O que todo mundo fala deve ser mesmo verdade, eu era muito fera. Como pode, cara?", diz ele, para relembrar os sucessos na seleção de base.

"Pego um táxi e o taxista me reconhece. Não acho que dei errado no futebol. Alcancei muita coisa. Sou o jogador com maior número de convocações na CBF, posso contar histórias do Ronaldinho (Gaúcho) para meus amigos. Do Pato... Isso enche os olhos de lágrimas. Não é o fato de ter jogado ou não, de ser milionário ou não. Fico chateado pelo desgosto que tive com futebol. Gostaria de curtir mais, mas perdi o prazer. É triste. Mas tenho orgulho do que construí", finalizou. 

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