Em velório de torcedor assassinado, amigos cantam samba e hino do Palmeiras

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo pessoal

O torcedor Leandro de Paula Zanho, que tinha 38 anos, foi sepultado na tarde desta sexta-feira (14) sob o olhar de mais de uma centena de amigos, parentes, colegas de trabalho e vizinhos do bairro de Valparaíso, em Santo André, na grande São Paulo.

Minutos antes, durante seu velório, ao lado de guirlandas oferecidas por escolas de samba e pela torcida organizada Mancha Alviverde, seus amigos entoaram emocionados o samba "A amizade" do grupo Fundo de Quintal, canção apontada como a preferida de Leandro.

Em seguida, como se estivessem em um estádio de futebol, cantaram o hino do Palmeiras. "O time era a vida dele", disse um amigo de infância.

Adriano Wilkson/UOL
Torcedor do Palmeiras morto após clássico é enterrado

Leandro, que foi enterrado vestido com uma camiseta da Mancha, foi assassinado na madrugada da última quinta-feira, a 2 km do Allianz Parque depois que seu time perdeu um clássico contra o Corinthians. Um de seus agressores era corintiano. No velório, seus amigos diziam que ele não era uma pessoa violenta e lamentavam que o grupo em que ele estava tivesse "caído na provocação" dos corintianos. Em imagens de segurança, Leandro é visto espancando um torcedor rival antes de ser morto.

"No nosso país a gente não consegue nem sair na rua com camisa de time de futebol que corre o risco de sofrer uma tragédia", lamentou o mecânico Dorival, tio de Leandro. Ele disse que um rapaz resolveu aparecer no velório com uma camisa do São Paulo, mas foi orientado pela família a mudar de trajes: no local havia dezenas de integrantes da Mancha.

Amigos disseram que, apesar de Leandro não ser membro da organizada, ele tinha amizades e frequentava festas da torcida. Convidado a se filiar, declinou. "Ele falava que preferia cuidar do pessoal dele", afirmou o amigo Eduardo "Corvo". Muitas pessoas apareceram no velório com camiseta da Valparaíso, o time de várzea do qual Leandro era presidente.

Eles disseram que, apaixonado por futebol, o metalúrgico tinha decidido há três anos reerguer um antigo clube de várzea da cidade. Assim renasceria o Valparaíso, cujas cores branca e grená se misturaram ao alviverde palmeirense durante o enterro do torcedor-cartola.

Um dos momentos mais tocantes da tarde aconteceu quando jogadores e torcedores da equipe se reuniram em volta do caixão para rezar um pai-nosso e uma ave-maria, orações que eles sempre repetiram em campo antes dos jogos na várzea. "Era também uma forma de meter medo, impor respeito ao adversário", disse um dos jogadores.

Arquivo pessoal

No caminho até a sepultura, o time começou a cantar o grito de guerra que a torcida costumava cantar nos jogos do Valparaíso.

O metalúrgico sofria de uma forma incomum de câncer, que lhe havia feito perder um dos olhos. "Ele usava prótese e nunca se envergonhava disso", afirmou "Corvo". "Todo mundo sabia que ele tinha câncer e ninguém nunca o viu abatido por causa disso. Ele dizia: 'Não é um negócio desse tamanhinho que vai derrubar um cara de 90 kg'."

Os amigos que estavam com Leandro no momento de sua morte também compareceram ao enterro e pareciam muito abalados.

Ele deixou três filhos e uma esposa, que é dona de casa.

A polícia prendeu dois suspeitos de envolvimento com sua morte, e um terceiro pode se apresentar nos próximos dias.

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