Richarlyson diz por que voltou ao futebol e revela pior momento da carreira

Marcello De Vico

Do UOL, em Santos (SP)

  • Gabriel Ferrari / GuaraniPress

    Richarlyson acertou com o Guarani após uma indicação do técnico Vadão

    Richarlyson acertou com o Guarani após uma indicação do técnico Vadão

29 de novembro de 2014. O Vitória de Richarlyson perdia de goleada (4 a 0) para o Flamengo e estava a apenas um jogo de ser (ou não) rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Na saída do gramado, Richarlyson, extremamente irritado com a arbitragem de Elmo Resende, surpreendeu a todos ao anunciar a aposentadoria dos gramados.

Uma semana depois, após a derrota para o Santos por 1 a 0 que decretou o descenso do clube baiano, Richarlyson confirmou o que havia dito na semana anterior. Mas durou pouco. Dias após ser visto jogando vôlei por uma equipe amadora no interior de São Paulo, ele assinou com a Chapecoense no fim de janeiro de 2015 e 'despendurou' as chuteiras. Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, Richarlyson, hoje com 34 anos e jogador do Guarani, explica por quê.

"O que me fez voltar foram vários, vários, inúmeros pedidos de carinho, as pessoas pedindo para que eu voltasse, que eu era importante para o futebol, que eu era espelho para muitos jovens, isso com certeza mexeu muito com o meu coração e me fez avaliar a situação que eu não poderia deixar essas pessoas que gostam tanto do meu trabalho por causa de uma atitude de uma pessoa que não vai acrescentar nada na minha vida. É claro que naquele momento ficou ruim, me senti um nada, me senti um cara que trabalhou, batalhou, mas que de nada adiantou pelo episódio", conta Richarlyson.

"Eu não me arrependo de nada na minha vida. Todas as minhas decisões são sempre muito coerentes, mesmo apesar de alguns acharem que era algo de cabeça quente naquela situação, mas eu falei sabendo que estaria tomando uma decisão muito séria", recorda o jogador, que ao menos por enquanto não faz planos para uma nova – e oficial – aposentadoria.

"Agora eu não penso, não. Eu acho que o futebol tem aberto portas para jogadores com mais idade, a ciência também tem ajudado muito em termos de avanço tecnológico da recuperação, para você poder jogar em alto nível até uma certa idade. Eu estou com 34, vou fazer 35 [em 27 de dezembro]. Vou até onde as pessoas quiserem contar com o meu trabalho e eu puder fazê-lo da melhor forma possível, como eu sempre fiz", acrescenta.

Objetivos: Série A e entrar para o seleto grupo de ídolos do Bugre

Com um currículo recheado de títulos importantes (Mundial em 2005 e tri brasileiro em 2006, 2007 e 2008 pelo São Paulo, e Libertadores em 2013 pelo Atlético-MG), Richarlyson agora tem a missão de ajudar a levar o Guarani de volta à Série A após sete anos e, quem sabe, entrar para o seleto grupo de ídolos bugrinos. Consciente de que dificilmente alcançará o mesmo nível técnico das épocas do São Paulo, ele espera compensar com a experiência que acumulou dentro de campo ao longo destes anos.

Reprodução/Instagram
"Deus me agraciou em poder ter esses três títulos no meu currículo e, uma pessoa que continua a trabalhar, ela sempre tem que ter objetivos. É claro que voltar ao nível do que eu jogava no São Paulo, eu acho que, pela idade, não muito. Apesar de que eu acho que a idade me trouxe muita maturidade, muita experiência, liderança dentro de campo. Mas, objetivo eu sempre tenho. Até porque o clube em que estou atuando no momento... ele também tem seus objetivos. E junto com esses objetivos do clube eu tenho os meus. Imagina eu poder entrar para o seleto grupo de ídolos que o Guarani tem. Esse é o meu objetivo. Poder marcar minha história, como eu marquei em todos os clubes que eu passei, ou quase todos, e poder, primeiramente, colocar o Guarani de onde ele não deveria ter saído nunca, que é a Série A do Brasileiro. É esse o meu principal objetivo atualmente", revela.

Indicado por Vadão, Richarlyson, que não entrava em campo desde o ano passado, quando atuou pelo FC Goa, da Índia, clube treinado por Zico, fez a sua estreia no dia 20 de junho, no empate sem gols com o Oeste, em jogo que atuou por pouco mais de cinco minutos. Depois, foi titular na vitória por 1 a 0 sobre o ABC, jogou mais de 20 minutos no triunfo sobre o Goiás, também por 1 a 0, e no último sábado (15) atuou pelo mesmo período no empate sem gols contra o América-MG – resultado este que recolocou o Guarani na ponta da tabela.

"O mais importante é que a minha contribuição tem sido dupla, às vezes, muitas vezes não jogando, com a minha liderança fora de campo, podendo ajudar de certa forma quem está entrando, quem está jogando, dando confiança, tranquilidade, e, quando solicitado, sempre mostrando aquela vontade, aquela dedicação, acima de tudo, sabendo da responsabilidade. O que mais me admira é que, graças a Deus, o pessoal tem gostado, a torcida tem elogiado e, muitas vezes, pedido até que eu pudesse jogar mais tempo. Então, isso para mim já é gratificante", garante Richarlyson.

Com a equipe na liderança da Série B, Richarlyson acredita que o Guarani está preparado para voltar a fazer parte da elite do futebol nacional. E explica por quê.

"Eu acho que todo dia a gente tem a oportunidade de aprender e se preparar. O Guarani está tendo isso. Quando você fica muito longe da Série A, às vezes, você deixa de fazer algumas coisas que são importantes para você alcançar novamente esse tão sonhado acesso. É claro que antes de eu vir eu tive a conversa, uma reunião, onde estavam presentes o presidente, o vice, alguns diretores, o Vadão, o auxiliar, e eu senti que pelo projeto que o Guarani estava me apresentando a gente poderia sim galgar coisa boa", afirma.

Gabriel Ferrari / GuaraniPress
Richarlyson ressalta, porém, que o Guarani ainda tem um longo caminho até, de fato, confirmar o acesso para a Série A. E destaca a evolução que o time vem tendo ao longo da temporada, especialmente a partir do início da Série B.

"É importante eu salientar que a gente não ganhou nada. É um começo muito bom. Um começo onde muita gente não acreditava que o Guarani poderia estar fazendo. Mas, é manter esse foco, essa humildade, é manter essa preparação que tem sido feita através da confiança que o Vadão tem depositado, porque se você for avaliar, é praticamente o mesmo time que não conseguiu subir, não conseguiu o acesso da Série A-2 para a primeira do Paulista", diz o experiente jogador bugrino.

"Mas, os jogadores entenderam e compraram a ideia do Vadão, de que eles tinham capacidade. E aí eles melhoraram com algumas peças pontuais e precisas, porque o campeonato é muito longo e precisa de um elenco qualificado. E esse é o resultado. É a mescla de jogadores que vieram para somar, que foi o meu caso, com jogadores que já tinham essa sede de almejar coisa boa dentro do Guarani, junto com a capacidade do Vadão, de saber levar, e a sabedoria que a diretoria tem tido de dar um suporte para gente, mesmo que o mínimo necessário, para que a gente possa ter a tranquilidade para conseguir nessas 38 rodadas fazer com que o Guarani volte para a elite do futebol nacional", completa.

VEJA MAIS TRECHOS DA ENTREVISTA:

O melhor e o pior momento da carreira até aqui

O melhor momento é o primeiro título, Mundial de 2005. O pior momento da minha carreira foi eu ficar fora depois de ter sido campeão da Libertadores de 2013, ter uma lesão no ligamento cruzado, não ter ido com o Atlético-MG para o Mundial Interclubes.

AFP PHOTO / DOUGLAS MAGNO

Frio de cair a unha (literalmente) na Áustria

Na Áustria, (falar) o alemão, é mais difícil, apesar de eu ter tido um pouco mais de tempo lá, deu para aprender alguma coisa. Na Áustria é muito frio, muito frio, eu ia jogar com -15ºC. Eu não sabia dos trâmites que têm lá para você passar menos frio, então meu pé congelou, as unhas caíram, as unhas do pé, do dedão do pé. Algumas coisas difíceis.

Pimenta demais na Índia e muita risada com os locais

Dificuldade a gente sempre encontra. Primeiro, o idioma, na Índia, só em Goa são mais de 2.000 dialetos, então você já imagina. O meu inglês já não é bom, o deles também não, então fica meio complicado. E na Índia, a comida. Muita, muita pimenta, muito, muito tempero. Eu não sou muito adepto a isso. Prefiro mais o arroz, feijão com alho mesmo e sal. De curioso só a questão dos indianos: quando eles vão responder eles balançam muito a cabeça. Então, às vezes, uma pergunta que você faz para eles a resposta é sim, mas como eles balançam a cabeça lateral, parece que eles estão respondendo não. Então, fica engraçado. Você vai lembrar daqueles cachorrinhos que põe no carro, atrás do carro, que ficam balançando a cabeça enquanto o carro está andando, parece os indianos respondendo. Então, é uma coisa bem bacana que eu ria muito, porque era engraçado. Eles respondiam sim, mas com a cabeça lateral não, tipo muito cômico.

Informação de que trocou de esporte foi mentirosa

Reprodução/Santa Cruz News
Eu teria sim falado que estaria encerrando minha carreira de futebol, mas jamais dei nenhuma entrevista dizendo que eu estava mudando de modalidade esportiva. Então, foi uma inverdade. Uma notícia que não existiu. Alguém plantou essa notícia. Eu tenho o vôlei como um hobby, sempre brinco quando posso, sempre tenho o meu clubinho e os meus amigos que brincam e alguns disputam até campeonatos regionais, essas coisas. E naquela possibilidade por eu ter parado de jogar eu também fui junto com esses meus amigos para disputar aquele campeonato. Mas, em momento nenhum tinha falado que teria trocado de esporte.

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