Como é a rotina de brasileiros "anônimos" que topam jogar no futebol chinês

Karla Torralba

Do UOL, em São Paulo

  • VCG/Getty Images

    Renatinho atua na China desde 2015 e sentiu a grande diferença do futebol local

    Renatinho atua na China desde 2015 e sentiu a grande diferença do futebol local

Oscar, Hulk, Alex Teixeira formam o topo da lista de brasileiros mais caros que disseram "sim" ao futebol chinês. Mas nem só de recordes de transferências e fama vivem os que nasceram no Brasil e aceitaram ir para a China. O país também reserva lugar para aqueles que concordam em trocar o reconhecimento por uma boa condição financeira e aceitam o papel de coadjuvante para desenvolver, ao lado de grandes ídolos, um esporte ainda em crescimento no país asiático.

Os valores financeiros seduzem. Eles faturam os milhões que só conseguiriam se engatassem boas temporadas em grandes times no futebol brasileiro.

"Eu estou há seis anos aqui. Eu cheguei muito antes de estourar e vim ganhando muito bem e continuo ganhando muito bem apesar de agora estar na segunda divisão. O 'bicho', como se fala no Brasil, pago aqui é muito maior que qualquer salário que qualquer jogador de time grande no Brasil. Eu não tenho o que reclamar", conta Davi, que tem passagens pelo São Paulo e pelo Coritiba e hoje atua no Nei Mongol Zhongyou da segunda divisão.

Mas para esses "desconhecidos", o desafio pode ser ainda maior que uma simples mudança pessoal e status bancário.

Há cinco anos, Renatinho trocou o Coritiba pelo Japão, onde o futebol se desenvolveu há mais tempo, e conseguiu se adaptar bem. Diferente foi quando concordou em se mudar para a China e atuar pelo Guangzhou R&F, que disputava a primeira divisão do país, em 2015. Ele foi um dos responsáveis pela boa campanha de seu time em 2016: foram 23 jogos, nove gols e três assistências do canhoto. Em 2017 já foram 5 gols. Mas ele pensou em desistir.

"O que me deu mais choque é que o time não estava em um bom momento quando eu cheguei e até o fato de a estrutura ser abaixo, as condições de treinar, a mentalidade bem abaixo, muito abaixo do Japão. Deu aquele baque, porque tinha que pegar tudo isso que era diferente para mim e assimilar tudo. Em 2015, de agosto até setembro, foi o mais difícil, pensei em ver outras coisas em 2016, mas depois as coisas foram acontecendo e fomos engatilhando", relembrou.

AFP / STR / China
Tevez é um dos badalados da China

A oportunidade de jogar com atletas consagrados também conta. Renatinho teve o encontro do fã com o ídolo quando atuou contra Tevez, por exemplo. "Eu quis encarar o desafio, o futebol está crescendo aqui. Teve a chance de encontrar os jogadores mais conhecidos. O Tevez foi um que desde que eu era novinho já era bem badalado. Depois chegou o Hulk e aquele dinheiro todo, também tem o Lavezzi. Eram três jogadores que eu achava mais difícil de jogar junto", comentou.

Hoje são 34 brasileiros atuando em clubes de primeira e segunda divisões. Os mais antigos pensam em ficar no país por mais tempo após encerrar a carreira. Como é o caso de Davi, que espera retribuir o "investimento" feito nele pelo futebol chinês.

"Eu estou muito tempo na China, acabei criando um vínculo, eu tenho um nome aqui. Isso acaba facilitando para ter negociações mais recentes na China. É um lugar que me acolheu, que eu gosto. Eu pretendo encerrar minha carreira aqui mesmo e de repente ser treinador pra ajudar o futebol a crescer. Tenho contatos aqui que querem. Estou analisando. A minha intenção é ficar aqui", disse Davi, que chegou a ficar sem clube no primeiro semestre de 2017 e deve jogar por mais um ano antes de virar treinador.

Empresário de jogadores que escolheram a China, César Soller aponta o que mais pode atrapalhar o brasileiro que decide jogar no país. "O que mais talvez conte é comida, costumes. Por exemplo: o chinês quer tudo para ontem. A gente aqui imagina que é submundo se tratando de futebol, mas a estrutura que oferecem, tem clube brasileiro de Série A que não tem. O presidente da China é apaixonado por futebol, as crianças aprendem futebol na escola, é matéria escolar", explicou.

Divulgação
Anselmo Ramon em ação pelo Hangzhou Greentown FC

A falta que a pressão do torcedor brasileiro faz

Os torcedores brasileiros fazem tanta pressão que, às vezes, levam um jogador a deixar o clube que defende, também xingam e extrapolam nas cobranças. Mas quem vive longe do país sente falta da torcida mais quente. Eles definem os chineses mais como fãs.

"Eu sinto muita falta. No Brasil dá pra sentir a emoção de jogo mesmo, tem uma energia de torcedor daquela coisa de estádio lotado. Aqui é muito difícil nessa questão", conta Renatinho.

Anselmo Ramon, que defende o Hangzhou Greentown FC da segunda divisão concorda. "Claro que sentimos falta do torcedor brasileiro. Apesar das cobranças no Brasil, a pressão também é uma forma de motivar o atleta em campo. Mas aqui temos um carinho especial do torcedor chinês, que é sempre presente nos estádios".

Arquivo Pessoal
Maurício Copertino, ex-técnico do Zhejiang Yiteng, no estádio do clube

A diferença de investimento 

O treinador Maurício Copertino viveu os dois lados. Foi auxiliar de Vanderlei Luxemburgo no Tianjin Quanjian em 2016, na campanha que terminou com o acesso da equipe já sem o técnico brasileiro. Recentemente, Copertino viveu uma realidade bem diferente no comando do Zhejiang Yiteng, da segunda divisão.

"O Yiteng como o Tianjin também estavam na segunda divisão. O Tianjin tem poder econômico muito maior, o dono é um bilionário chinês. Era um investimento 1,8 mi de dólares por ano (R$ 5 milhões) comparado às equipes que investiram mais. A principal diferença na minha equipe era econômica. O investimento no total do Tianjin atingiu 80 milhões de dólares (R$ 249 milhões) com as contratações de Vanderlei, Jadson, Luis Fabiano... Foi um investimento para subir a equipe como conseguiu subir", analisou.

O investimento do Tianjin quase chega ao do Corinthians de 2016, quando o clube gastou R$ 300 milhões só com o futebol.

Categoria de base é quase um "luxo"

A diferença de investimento se traduz na diferença de estrutura. Nem todos os times têm categorias de base, algo praticamente impensável hoje no Brasil para qualquer clube profissional.

"As equipes da primeira divisão tem equipes de base, as da segunda também, mas no Yiteng as equipes treinavam em outra cidade e quando eu precisava de um atleta eles traziam, eu observava e aprovava ou não para continuar com a gente. Ainda estão engatinhando. O presidente já tinha conversado comigo, porque sabia que eu tinha trabalhado na seleção de base (ao lado de Alexandre Gallo) e queria organizar isso, porque ainda estão engatinhando nesse aspecto", explicou Copertino.

O gramado não é um tapete

Até mesmo a estrutura física dos clubes passa por evolução constante. A cada brasileiro que chega em cada clube um degrau a mais é alcançado. Renatinho contou que após sua chegada em 2015, o seu time trocou os gramados e passou por melhoras.

"Os campos são difíceis. Ano que cheguei estava difícil para treinar. Falando do meu time, eles aumentaram o número de campos e essa questão melhorou um pouco, mas comparando com o Brasil e o Japão até a parte de academia tem uma estrutura inferior", comentou.

Copertino explicou que é uma constante mudança de mentalidade para que o crescimento do futebol seja alcançado. "Antigamente não se importavam muito com o gramado, mas estão percebendo que isso melhora a qualidade do espetáculo, o jogador que tem melhor condição técnica. Principalmente as equipes da primeira divisão. Os clubes de primeira e segunda divisão estão fazendo algo para se organizar".

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