Ex-palmeirense que jogou com Carille afirma: "sucesso dele não surpreende"

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

  • Arquivo pessoal

    Ex-auxiliar do Palmeiras, Fernando Miranda ri entre Murtosa e Felipão

    Ex-auxiliar do Palmeiras, Fernando Miranda ri entre Murtosa e Felipão

Quem já teve a oportunidade de trabalhar com Fábio Carille não tem a menor dúvida em dizer: o sucesso conquistado por ele e pelo Corinthians neste início de temporada, especialmente no Campeonato Brasileiro, não surpreende. É o caso de Fernando Miranda, que trabalhou por 22 anos no Palmeiras, entre as funções de goleiro, preparador de goleiros e auxiliar técnico.

Amigo de Fábio Carille desde 2004, quando jogou com o técnico (ainda jogador) no Juventus-SP, Fernando Miranda hoje mira a carreira de treinador e, já há algum tempo, estuda para, quem sabe, estar no comando de algum time já no fim deste ano. E com tudo que acompanha do amigo há tanto tempo, diz com total propriedade: o sucesso de Carille não é à toa.

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"Não me surpreende porque ele é um cara preparado. Ele não caiu de paraquedas no futebol. Além de ter sido um bom jogador, um cara que tinha uma boa leitura dentro de campo como atleta, ele se preparou. A gente fez curso da CBF juntos recentemente, é um curso muito bom, super válido, e está cada vez ficando melhor. E o Carille é um cara que sempre está se preparando... A cada conversa que a gente tinha ele estava mais preparado, mais maduro, então esse sucesso dele não me surpreende", diz Fernando em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

"Eu joguei com ele no Juventus. Quando eu estava no Palmeiras, eu fui emprestado para o Juventus por seis meses, em 2004, e o Carille estava lá", recorda.

Com mais de 20 anos de Palmeiras, Fernando Miranda teve a oportunidade de conviver de perto com muitos técnicos de renome, como Tite, Vanderlei Luxemburgo, Luiz Felipe Scolari e Muricy Ramalho, com quem ainda conversa bastante sobre futebol. Ainda engatinhando na carreira de treinador, espera tirar um pouco de cada um deles para se tornar um profissional de sucesso.

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"Cada um tem uma coisinha. Por exemplo, o Alberto Valentim [que hoje voltou a ser auxiliar do Palmeiras], a gente se deu muito bem, um cara super atualizado, com treinamentos modernos. O Vanderlei tem uma visão de tática muito aflorada, pensamento muito rápido... Já o Felipão, o comando dele, tem a gestão do clube, num todo, muito boa. O Tite está sempre inovando nos trabalhos, sempre procurando a perfeição, e o Muricy um trabalho duro no campo. Então sempre tem algo, alguma coisa de todos... Se eu puder absorver essas coisinhas de cada um, penso que serei um profissional melhor, então é injusto eu falar só de um", analisa Fernando, que ainda chegou a citar Marcelo Oliveira, Oswaldo de Oliveira, Gilson Kleina, Gareca e Dorival.

"Eu cheguei uma vez a ir na casa do Muricy para bater um papo com ele, passei uma tarde com ele, cinco, seis horas falando de futebol, tudo o que engloba o futebol e a vida de um treinador, e foi muito enriquecedor. O próprio Jorginho [Cantinflas], que agora está no Água Santa, também bati um grande papo. Pela rotina dos outros de vida e trabalho fica mais difícil... O Felipão está lá na China... O próprio Cleber Xavier, auxiliar do Tite, já conversamos algumas vezes, e o próprio Fábio Carille, principalmente quando eu era auxiliar [do Palmeiras], a gente trocava algumas ideias de trabalho, de treino, da dificuldade do dia a dia, da profissão, então graças a Deus eu tenho uma relação muito boa com eles", acrescenta.

História no Palmeiras começou em 1994

Fernando Miranda chegou ao Palmeiras no ano de 1994, ainda nas categorias de base. Alcançou o time profissional em 1997, mas desde então fez apenas um jogo (amistoso) pelo clube, em 2003, com Jair Picerni. Em 2005, ainda aos 25 anos de idade e sem espaço no elenco, aceitou a proposta para ser preparador de goleiros; um ano depois, passou a ser auxiliar técnico do Palmeiras, e só deixou o clube alviverde no ano passado, após a chegada do técnico Cuca.

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"Eu cheguei ao Palmeiras em 94 como goleiro na categoria de base, no dente de leite, e aí eu fui chegar no profissional em 97, o Felipão me subiu. Na época eu era o quarto goleiro e goleiro do sub-17. Participei do grupo da Parmalat na era Felipão, mas não tive oportunidade de jogar. Tinha o Marcos e o Sérgio, e dois tiveram sequência de jogos. E quando eu estava com 25 anos, já formado em Educação Física, o Palmeiras me convidou para ser preparador de goleiros da base. Estava acabando o meu contrato e o Palmeiras precisava de um profissional, e eu acabei aceitando essa opção: encerrar a carreira cedo e me tornar membro da comissão técnica. Em 2005 isso", conta o ex-goleiro, que não se arrepende da decisão que tomou na época.

"Se fosse mudar para uma outra profissão que não tivesse nada a ver com esportes, tenho certeza que ficaria frustrado, mas quando você trabalha com o futebol, a rotina acaba sendo a mesma, de jogos, de viagens, de concentração, e isso foi algo que me ajudou bastante. Mesmo tendo jogado muito pouco, eu tive essa sorte de ter essa adaptação já rápida dentro do futebol mesmo. Se eu tivesse seguido uma carreira fora do futebol, seria bem difícil", analisa Fernando.

Em 2006, com a saída de Leão e a chegada de Tite, surgiu a oportunidade de virar auxiliar técnico do clube, cargo que até então não existia no Palmeiras. Foi quando a carreira de técnico começou a ganhar forma. "Eu estava trabalhando como preparador de goleiros na base e, com a saída do Leão, saiu toda a comissão técnica e eu subi para trabalhar no profissional. Fizemos alguns jogos e chegou o Tite em 2006, e o Palmeiras não tinha essa função de auxiliar técnico do clube na época. E a pedido do Tite, que já tinha o Cléber Xavier como auxiliar, é que eu virei auxiliar técnico do Palmeiras... então foi com o Tite que eu passei por esta transição", lembra.

Cursos e mais cursos para virar treinador

Fernando Miranda se prepara de todas as formas para iniciar a profissão de treinador com propriedade para comandar uma equipe. Uma delas são os cursos da Uefa, os quais fez – e ainda continua – na Irlanda. "Além dessa minha experiência de atleta e de auxiliar eu via que precisava também de um embasamento, e como a gente fala muito de Europa, como funciona fora, o que eu quis fazer? Eu quis ver como eram as coisas, como funcionava, como eles organizavam as coisas, e foi em 2015, em Dublin, que eu fiz o meu primeiro curso da UEFA, o B", conta.

"Agora eu estou fazendo o A, que aí se pode trabalhar em qualquer equipe da Europa. Eles deram ensinamentos para colocar as ideias em prática, que era um pouco do que eu queria: como organizar o seu pensamento, o que você analisa de um time, como você pode fazer o treino, como abordar o jogador nas situações difíceis, como abordar o jogador de uma maneira que ele entenda o que você quer dele, gestão de pessoas, como formar um elenco equilibrado... Eles foram dando suporte para que eu pudesse, nesse momento, embasar tudo aquilo que eu penso e colocar em prática. É um alicerce mesmo. São 15 dias intensivos. Você passa um ano fazendo esses trabalhos, treinos, palestras, um monte de coisa que eles pedem, e depois no final do ano você vai lá e passa uma semana de novo. É uma coisa bem elaborada", acrescenta.

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Paul Mc Shane, John O'Shea, Fernando Miranda e Glenn Whelan durante curso da Uefa

Amizade com São Marcos e pedido divertido do ex-goleiro

O convívio de muitos anos com o goleiro Marcos fez Fernando Miranda e o pentacampeão se tornarem grandes amigos. E rendeu, recentemente, um divertido pedido do "Santo". "Ele fala que quando eu for treinador ele quer uma vaga na minha comissão técnica [risos]. Aí eu falei: 'Primeiro você cuida do coração e depois a gente negocia alguma coisa aí [risos]'. O Marcão é um cara fantástico, ele entende muito de futebol, mas ele é muito explosivo, então eu acho que, para trabalhar com goleiro, não se enquadra muito no perfil dele... Provavelmente ele gostaria de ser auxiliar técnico, gerente de futebol... Acho que ele preferiria isso", diz Fernando, para depois encher ainda mais de elogios um dos ex-jogadores mais queridos pelos torcedores.

"A gente tem amizade até hoje. A gente não se fala muito, não se vê muito, mas nos momentos mais difíceis, mais importantes da vida, a gente se fala. Agora ele operou do coração, e eu estava sabendo bem antes, a gente trocou ideia sobre isso... E a partir do momento que eu virei preparador, ele era um dos goleiros na época e teve um respeito profissional muito grande, foi uma coisa que ficou do lado de fora do clube, uma coisa que a imprensa rotulou isso, 'amigo do Marcos', e eu me sinto privilegiado de ter convivido todos esses anos com ele", comemora.

Frase polêmica de Renato Gaúcho: "falou da boca para fora"

"Quem precisa aprender, estuda, vai pra Europa... Quem não precisa vai pra praia. Eu falo isso, e muitos criticaram. Disseram: estão trazendo um treinador que estava jogando futevôlei... Eu pergunto, e agora? E ai? Futebol é como andar de bicicleta. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, vai estudar". A frase dita por Renato Gaúcho no fim do ano passado, após a conquista da Copa do Brasil pelo Grêmio, até hoje repercute. Para Fernando Miranda, porém, ela foi dita 'da boca pra fora' e não representa exatamente o que o técnico gremista pensa sobre futebol.

"O Renato Gaúcho falou tudo aquilo lá, mas com certeza ele, no trabalho dele, tem um grande preparo, tem profissionais ao lado dele muito preparados... Ele fala isso da boca pra fora, mas dentro do clube, dentro de campo, dentro do vestiário, pode ter certeza que o trabalho dele tem um embasamento muito grande", completa o ex-goleiro e, se tudo der certo, futuro técnico.

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