Do lava jato ao sonho: como Max, o homem de pedra, chegou ao Palmeiras?

Emanuel Colombari e Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

  • Fernando Santos/Folha Imagem

    Max chegou a seu 1º clube em 2002, aos 19 anos; cinco anos depois, estava no Palmeiras

    Max chegou a seu 1º clube em 2002, aos 19 anos; cinco anos depois, estava no Palmeiras

Aos 34 anos, Max Brendon Costa Pinheiro poderia ser o dono de uma longa carreira no futebol. No entanto, a trajetória do atacante Max é marcada por dois fatos: o começo tardio e a passagem pelo Palmeiras entre 2007 e 2010.

Nascido em 10 de julho de 1983 na cidade de São Luís (MA), Max não atuou nas categorias de base de nenhum clube. Ao invés disso, trabalhava fazendo bicos como chaveiro e funcionário de um lava jato de seu tio na capital maranhense.

"Eu conseguia levantar um dinheirinho, uma grana lavando carros. Nos finais de semana, eu ia jogar bola", contou, em entrevista ao UOL Esporte. "Aprendi muita coisa na raça, mas eu sempre joguei pelada, campeonato de várzea. Só que eu nunca disputei profissionalmente, e sem futebol de base, é muito difícil. Sem começar desde pequeno, é muito complicado", completou.

Em 2002, Max passou em um teste no Maranhão. No entanto, sem oportunidades para entrar em campo, acabou desanimando. Nos anos seguintes, pensou até em abandonar o futebol – e só não fez porque o pai o incentivou.

"Pensei em parar. O meu pai, seu Ovídio Antônio, chegou até a perguntar para mim se eu queria jogar. Eu falei que eu não ia mais, não queria mais. Era muita trairagem, muita panelinha. E eu não gosto de trairagem. Cabeça-dura, pensei em parar. Falei: 'Eu vou parar antes de começar'. E o meu pai foi o meu incentivador, ele me deu força", relembrou.

O incentivo do pai acabou sendo decisivo. Levado por um treinador, defendeu o Tocantinópolis (TO) em 2004 e 2005. Em 2006, foi contratado pelo América-RN, e aí explodiu: com gols decisivos na reta final da Série B do Brasileiro, inclusive o último no empate por 2 a 2 contra o Atlético-MG na última rodada, ajudou o time potiguar a subir à elite nacional.

Max então caiu nas graças da torcida. Aquela temporada valeu a ele apelidos como 'Homem de Pedra' e 'Pedreiro', graças a seu estilo pouco refinado.

"Falavam que eu era muito duro. Como eu não tenho essa base, essa malandragem do futebol, de o cara bater e o jogador cair, os caras batiam em mim e era eles que caiam", conta, rindo. "Eles acabam sentindo dores e eu não sentia nada. Aí colocaram esse apelido e acabou pegando até hoje."

A campanha na Série B, porém, valeu mais do que os apelidos a Max. A pedido de Caio Júnior, o Palmeiras foi atrás do jogador como reforço para 2007.

Palmeiras: chegada tumultuada e apenas um gol

A chance no Palmeiras veio, mas em meio a uma grande confusão. No começo de 2007, renovou contrato com o América-RN, mas assinou também com o Corinthians (AL) sem rescindir o primeiro compromisso. Foi o clube alagoano que cedeu o atacante ao Palmeiras, onde precisou da Justiça para poder atuar a partir de julho. Ao longo do primeiro semestre, não conseguiu jogar.

"O empresário disse: 'Deixa que eu resolvo isso'. E quem acabou se ferrando fui eu, que acabei seis meses sem poder atuar. Eu já estava com o contrato certo para ir ao Palmeiras, mas não dava certo por causa dessa situação", conta. "Mas depois deu certo, consegui reverter isso. Foi o Caio Júnior, com o empresário dele, que acabou me levando para lá. Junto com o Toninho Cecílio, regularizaram a minha situação e eu fui para o Palmeiras."

O segundo semestre no Palmeiras, no entanto, não foi dos melhores. O time terminou o Campeonato Brasileiro apenas em sétimo, e Max passou por uma cirurgia de púbis. Ainda assim, renovou o contrato com o clube – que se encerrava no fim daquele ano – até 2010.

Naquele momento, a inexperiência e a teimosia do atacante foram vencidas pelo clube. Hoje, Max relembra o período que passou sozinho em São Paulo e o peso de atuar pelo Palmeiras. Para ele, faltou orientação naquele momento da carreira.

"O Palmeiras teve paciência comigo. Eu tive alguns jogos bons pelo Palmeiras; infelizmente, a bola não entrava. Eu queria sair, brigava muito com a diretoria para sair, para ir embora. (Era) mais cabeça dura, sem ninguém para me orientar, sem orientação... Faltou uma pessoa para me ajudar neste aspecto de ter paciência, esperar a minha hora", conta.

Teimoso, Max finalmente chegou a seu primeiro – e único – gol com a camisa do Palmeiras. Em 26 de agosto de 2007, justamente aniversário de 93 anos do clube, o Palmeiras foi a Florianópolis para enfrentar o Figueirense pela 21ª rodada do Campeonato Brasileiro. Valdivia abriu o placar no primeiro tempo, mas Jean Carlos empatou no segundo. No fim, Max balançou as redes e deu a vitória ao time paulista por 2 a 1 no Estádio Orlando Scarpelli.

Em 2008, sem jogar pelo Palmeiras que conquistou o Campeonato Paulista, Max só voltaria a ganhar chances em 2009: enquanto os titulares do técnico Vanderlei Luxemburgo disputavam a pré-Libertadores contra o Real Potosí (Bolívia), entrava em campo para os jogos contra Mogi Mirim, Marília, Ponte Preta e Paulista pelo torneio estadual. Passou em branco.

"Eu estava jogando (o Paulista) e os titulares estavam jogando a pré-Libertadores. O Palmeiras tinha um time do caramba. Às vezes, eu jogava e o time vencia, mas a bola não queria entrar comigo nem a pau. O (Vanderlei) Luxemburgo falava para eu ter calma, que na hora certa a bola ia entrar. Eu achava que estava bem e queria jogar. Isso acabou me prejudicando bastante", lamenta Max, que hoje vê a passagem pelo Palmeiras como "uma das maiores chances" que perdeu na carreira.

O motivo, ele reforça: faltou orientação para que pudesse render melhor em um time grande. "Não tinha essa de conversar muito no particular. Então, quem estivesse melhor para jogar era colocado. Às vezes a equipe vencia e nenhum dos atacantes que jogavam na época estava bem, fazendo gol em todos os jogos, em uma sequência boa. Essa conversa eles faziam mais com os garotos de base e em clubes pequenos que têm poucas condições de investir; aí, pela minha idade na época (estava com 24 anos), para eles, eu já não era mais um garoto", relembra.

A peregrinação (e o doping)

Nos anos seguintes, passou a peregrinar por clubes de menor projeção. Em 2010, defendeu o Náutico. Em 2011, esteve no Boavista (RJ). Em 2012, na Caldense (MG). Ao longo deste período, porém, passou mais algumas vezes pelo América-RN. Na última deles, entre 2012 e 2015, foi pego em um exame antidoping por cocaína já no fim de 2012. Acabou afastado dos gramados por um ano, retornando no fim de 2013.

Sobre o assunto, Max nem gosta de falar. Disse apenas que "é passado".

Tombense FC/Divulgação
Max defende o Tombense na Série C 2017
Em 2016, disputou a Série B do Brasileiro pelo Sampaio Corrêa. No ano seguinte, acertou com Cabofriense (RJ) e Inter de Lages (SC). O clube catarinense ainda hoje é dono de seus direitos, embora o atacante atue por empréstimo no Tombense até o final da Série C.

Passados dez anos da chegada ao Palmeiras, Max comemora a rara chance que teve de realizar um sonho: disputar o Campeonato Brasileiro. Para ele, "foi uma maravilha".

"Às vezes, eu só fazia pelada e assistia o Campeonato Brasileiro pela televisão. Saber que você vai estar lá na televisão jogando em um time grande foi um sonho realizado", conta.

Hoje, aos 34 anos e longe da primeira divisão nacional, Max Brendon – nome escolhido pela mãe, Elzanira – não pensa em parar. "Enquanto Deus me der saúde para correr, para treinar, continuar me dando saúde e disposição para seguir, eu vou procurar", conta. "Com certeza, eu penso em continuar mais um pouco", garantiu.

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