Após anos proibidas, organizadas voltam à casa do PSG e já cativam Neymar

Mário Camera

Colaboração para o UOL, de Paris (França)

  • Thomas Samson/AFP

    Coletivo Ultras Paris marcou presença na apresentação do Neymar no jogo contra o Amiens

    Coletivo Ultras Paris marcou presença na apresentação do Neymar no jogo contra o Amiens

No dia em que foi apresentado à imprensa como novo contratado do Paris Saint-Germain, Neymar cumpriu o ritual de embaixadinhas e fotos com a camiseta do clube no gramado do Parque dos Príncipes. Em seguida, deixou o campo e se dirigiu à saída do estádio, onde seu nome era gritado por centenas de torcedores do seu novo clube. Um grupo se destacava pela organização, os cantos e os sinalizadores vermelhos. Era o Coletivo Ultras Paris (CUP), uma associação que congrega antigas torcidas organizadas do clube, que durante anos foram impedidas de assistir aos jogos e agora começam a voltar aos estádios.

Os gritos se repetiram no dia seguinte, quando Neymar foi apresentado à torcida, no mesmo Parque dos Príncipes, antes da partida contra o Amiens. Dessa vez, o nome do craque vinha de uma parte da arquibancada e era entoado em ritmo de "Aquarela do Brasil". No mesmo dia, Neymar postou um vídeo em suas redes sociais, retomando o canto dos Ultras, com direito a Torre Eiffel ao fundo, iluminada com as cores do PSG e dando as boas-vindas ao atacante.

Clima tenso

Se tivesse chegado ao clube um ano antes, no entanto, Neymar não teria ouvido nada vindo desses mesmos torcedores. Isso, porque até outubro de 2016, todas as torcidas organizadas estavam banidas do Parque dos Príncipes. O motivo da proibição foi uma briga entre torcedores do PSG em 2010, que terminou com um morto.

Hédi Kaddouri estava no setor da arquibancada conhecido como Auteuil no dia em que o torcedor da arquibancada oposta, Boulogne, foi espancado e acabou morrendo. Era noite de PSG x Olympique de Marseille, clássico de maior rivalidade do futebol francês. Kaddouri fazia parte da Authentik, uma das organizadas que ocupavam a chamada "tribune Auteuil".

"Nessa época o clima era tenso. A rivalidade e a violência tinham chegado a um estado perigoso. Eu sempre fui com meu pai ao estádio, quando era criança, mas em 2010 ninguém tinha mais vontade de levar seus filhos ao Parque", relembra Kaddouri.

Medida radical

O episódio foi a gota d'água para a diretoria do PSG e as autoridades francesas. Vários torcedores das organizadas foram impedidos de entrar no estádio, os lugares numerados nas arquibancadas passaram a ser vendidos de maneira aleatória. Era chamado "Plano Leproux", colocado em prática pelo então presidente do clube, Robin Leproux. O Governo, por seu lado, dissolveu todas as associações de torcedores e montou uma lista-negra com nomes de gente que frequentava o estádio para arrumar confusão.

Quem não foi impedido de entrar na arena passou a boicotar os jogos. As arquibancadas se esvaziaram. A má fase do clube na época também não ajudava. Um ano depois, um fundo soberano do Qatar comprou o PSG e os anúncios de grandes contratações - ao menos para o Campeonato Francês - começaram a se suceder. A torcida voltou, mas não era a mesma coisa. No lugar de torcedores fanáticos, o que se via eram espectadores da partida, gente que assistia ao jogo sentado, cantando de maneira tímida e berrando apenas na hora do gol.

"Era preciso fazer alguma coisa para acabar com a violência, mas a medida acabou sendo algo radical, porque em vez de atingir as 300 ou 400 pessoas envolvidas nessas violências, acabou atingindo todo mundo", analisa o escritor e jornalista Frank Berteau, autor de "Dictionnaire des Supporters" (Dicionário dos Torcedores, sem publicação no Brasil).

Geoffroy Van Der Hasselt/AFP

Volta das organizadas

Foram necessários mais de seis anos para o Parque dos Príncipes voltar a ter bandeiras, cantos e mosaicos nas arquibancadas. O retorno só foi possível por vontade do atual presidente do clube, o qatariano Nasser Al Khelaïfi, que não estava gostando nada de ver como seu time disputava as fases finais da Liga dos Campeões com uma torcida sem empolgação.

Depois de meses de negociações com o clube e as autoridades, as antigas torcidas organizadas que tinham sido proibidas pelo Governo se reuniram para criar o Coletivo Ultras Paris.

"Para voltar, tivemos de assinar um termo de responsabilidade que proíbe qualquer tipo de violência ou de posicionamentos racistas ou políticos. Também estão proibidos sinalizadores", conta Kaddouri, que faz parte do Coletiv

O resultado da mudança da política sobre as organizadas pôde ser visto no jogo do último domingo contra o Toulouse, na estreia de Neymar no Parque dos Príncipes. No setor Auteuil, local histórico para boa parte das torcidas organizadas parisienses, centenas de Ultras agitavam bandeiras e cantavam sem parar.

"O clima estava muito bom, mas ainda pode melhorar. Foram muitos anos afastados do estádio e precisamos reaprender a torcer", conta James Rophe, voluntário de uma associação de ajuda jurídica a torcedores que foram expulsos com o Plano Leproux e que estava ao lado dos Ultras na arquibancada do Parque no jogo contra o Toulouse.

Em casa

REUTERS/Christian Hartmann

Ao final do jogo, depois de marcar duas vezes e ser ovacionado durante 90 minutos pela multidão, Neymar foi até a beira do gramado agradecer os torcedores.

"Eu já me sinto em casa. Adorei o clima no Parque dos Príncipes, a torcida faz muito barulho", disse o brasileiro ao esportivo L'Équipe.

O atacante pode esperar mais. Com o apoio da diretoria do clube - que agradeceu diretamente o CUP pelas redes sociais no dia seguinte ao jogo contra o Toulouse - os torcedores organizados devem encher cada vez mais as partidas do PSG.  

"A volta dos torcedores através do CUP está mudando as coisas. Ainda falta tempo para vermos mais bandeiras, mosaicos e cânticos, mas está acontecendo. E de uma maneira pacífica", conclui Frank Berteau.

Receba notícias pelo Facebook Messenger

Quer receber notícias de esporte de graça pelo Facebook Messenger?
Clique aqui e siga as instruções.

UOL Cursos Online

Todos os cursos