De 5º goleiro a titular em decisão de Brasileiro? Aconteceu no Palmeiras

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

Imagine a situação: você é apenas o quinto goleiro de um time grande profissional que disputa o Campeonato Brasileiro. A equipe vai avançando de fase, chega à grande decisão e, de uma hora para outra, por obra do destino, você ganha a chance de fazer a sua estreia entre os profissionais logo no segundo jogo da final. Soa como uma história quase impossível, mas ela aconteceu. O personagem é o ex-goleiro Gilmar; o time: Palmeiras; e o ano: 1978.

Para contar essa história, é preciso relembrar detalhes do primeiro jogo da final, realizado no dia 10 de agosto, em um Morumbi com mais de 100 mil pessoas (104.526). Emerson Leão era o titular do gol palmeirense, mas acabou expulso - aos 26min do segundo tempo - pelo árbitro Arnaldo Cezar Coelho após dar um soco no atacante Careca, do Guarani. Como a agressão aconteceu dentro da área, o time bugrino ainda teve um pênalti a seu favor, convertido por Zenon, que determinou o placar de 1 a 0 do jogo de ida. Vale ressaltar que, como o Palmeiras já tinha feito as três substituições, Escurinho foi o responsável por substituir Emerson Leão nos pouco mais de 20 minutos restantes de partida.

Mal sabia eu que ia ter uma chance numa decisão de campeonato

"O Leão já era um goleiro consagrado e de seleção brasileira e, na primeira partida, na qual o Leão foi expulso, já tinham sido feitas as substituições e eu não podia entrar. Eu também estava no banco de reservas por uma circunstância: o paraguaio Benítez, que era da seleção do Paraguai, não aceitava ficar na reserva porque ele era da seleção do Paraguai; o outro goleiro que tinha era o Bernardino, ele tinha vindo do Juventus, mas não estava bem de saúde; foi quando eu tive que ir para o banco de reservas. Na realidade, eu era o quinto goleiro; tinha o Tonho, mas ele foi emprestado e eu seria a quinta opção, mal sabia eu que ia ter uma chance numa decisão de campeonato", recorda Gilmar em papo com o UOL Esporte.

Arquivo pessoal
Três dias depois, era a vez de Palmeiras e Guarani se reencontraram no Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas. E Gilmar, com apenas 22 anos de idade e prestes a fazer a sua estreia com a camisa alviverde, recebia toda atenção do grupo. Até hoje ele lembra como foram os dias que antecederam um dos momentos mais marcantes de sua carreira – apesar da derrota.

"Eu era um moleque que tinha muita coragem, mas é claro, tinha muita preocupação por parte de todo mundo: 'ó, cuidado, faz isso, faz aquilo'. O seu Valdir [Joaquim de Morais, então preparador de goleiros do Palmeiras] ficava o tempo todo no hotel me orientando, e eu controlando os nervos, mas eu tinha uma coisa: eu era muito ousado, eu tinha muita personalidade, mesmo aos 22 anos, e isso foi muito importante para mim. Eu tive que apostar as minhas fichas num jogo só: ou ir bem e fazer parte da história ou ir mal e nunca mais jogar. Eu tinha 50% de chance, então eu agarrei nas possibilidades que poderiam me fazer jogador profissional mesmo", lembra Gilmar, que apesar da perda do título (Guarani voltou a vencer o Palmeiras por 1 a 0), conseguiu ganhar a confiança da comissão técnica e virar titular.

O Leão, com toda a experiência, foi vítima dessa circunstância naquele momento

"Eu fiquei chateado primeiramente porque era um companheiro meu que tinha passado por um momento chato, mas por outro lado me serviu de reconhecimento com a minha inexperiência para que eu não cometesse o mesmo absurdo. Realmente foi uma coisa chata e custou a titularidade do Leão; eu entrei e as coisas mudaram a meu favor, então você vê o peso de um goleiro numa expulsão, ele pode acarretar coisas muito chatas e, o Leão, com toda a experiência, foi vítima dessa circunstância naquele momento. Depois do jogo que eu fiz, onde eu fui muito bem na final, o Palmeiras apostou em mim e reconheceram que eu podia ser titular, e o Leão foi negociado com o Vasco da Gama. O Leão era muito profissional, mas eu não tinha liberdade com ele porque eu treinava com os juniores e, quando eu fui treinar no profissional, aconteceram todas essas situações que os outros goleiros não aceitavam a reserva, então eu não tinha muita amizade com o Leão. Eu tinha um grande respeito e uma grande admiração porque ele era o goleiro da seleção brasileira", conta o ex-goleiro do Palmeiras, hoje com 61 anos de idade.

Por que o Palmeiras não revela mais goleiros como antes

Marcos, Emerson Leão, Valdir Joaquim de Moraes, Zetti... São apenas alguns dos jogadores formados na tradicional 'escola de goleiros do Palmeiras'. Em sua história, o time alviverde pouco precisou de arqueiros vindos de outros times, algo que voltou a acontecer nos últimos anos. Hoje, por exemplo, Fernando Prass e Jaílson disputam a titularidade do gol palmeirense. E Gilmar tem uma explicação para que a 'escola' tenha parado de formar goleiros que nem antes.

Eu penso que é a falta de confiança nos jogadores da base

"Eu penso que é a falta de confiança nos jogadores da base. Por quê? É mais fácil contratar e, se este jogador não for bem, pegar um cara que já tenha certa experiência do que revelar um jovem valor. No meu caso, eu fui lançado numa emergência e não tive chance de errar, eu tive que ir lá e acertar, então em um jogo eu apostei todas as minhas fichas e as coisas deram certo, e a partir daí eu tive que manter. Eu penso que, a partir do Deola e do próprio Fábio, que é o mais recente dos que eram da base, o Palmeiras começou a ter alguns problemas de performance e aí a diretoria contratou o Fernando Prass e o Jaílson. Há muito tempo eles não contratavam e esses jogadores deram provas que, cortando caminhos, também pode ser bom", opina.

Jaílson ou Fernando Prass? Quem merece ser o titular?

Na visão de Gilmar, o Palmeiras deveria abrir mão de um de seus goleiros, que já vêm há algum tempo disputando a posição de titular. Ele ainda opina sobre quem merece a camisa 1.

O Fernando Prass é um grande goleiro, mas hoje o momento é do Jaílson

Arquivo pessoal
"Eu penso o seguinte: são goleiros titulares. Um não pode ficar na reserva do outro. Ou o Jaílson joga e pega um garoto da base e põe no banco, ou o Fernando Prass joga e empresta o Jaílson para ser titular em outro time. Não tem como você ter dois goleiros titulares no mesmo time, mesmo com vários torneios. É ele e pronto. Com a grandeza dos dois fica difícil você pôr no banco o Prass ou o Jaílson, que já mostrou que tem condições de ser titular. Ofusca um ou o outro. Parece que um está secando o outro", analisa Gilmar, para depois dizer quem é o seu preferido no momento. "O Fernando Prass é um grande goleiro, mas hoje o momento é do Jaílson, por várias partidas que ele fez e foi muito bem. Nas vezes que ele entrou, ou por sorte ou por competência, ele foi bem, então isso tem que ser preservado agora", acrescenta.

De atacante na várzea a goleiro da base do Palmeiras

A ideia inicial de Gilmar não era ser goleiro, e sim atacante. Era essa a posição em que jogava num time de várzea de Osasco. Mas a história começou a mudar no dia em que o arqueiro do seu time não apareceu para o jogo. Gilmar assumiu o posto e chamou a atenção de um olheiro.

"Eu era atacante de um time de várzea, o Monte Negro, e num dia faltou o goleiro e o técnico me colocou no gol. E apareceu um cara lá dizendo que eu joguei bem e me deu um cartão. Mal sabia eu que esse cara era treinador da base do Palmeiras, Hétero Marchetti, e aí eu fui procurado e virei goleiro; aos 14 para 15 anos comecei a treinar só de goleiro e fui campeão na base do Palmeiras, juvenil B, juvenil A, até chegar ao profissional e ter a oportunidade de jogar. Eu cheguei ao Palmeiras em 73 e tive a oportunidade de jogar no profissional em 78", lembra.

Goleiro de apenas 1,82 m: impulsão compensava baixa estatura

Um dos goleiros mais baixos de sua época (1,82 m), Gilmar precisava estar com a impulsão em dia para alcançar algumas bolas mais complicadas. É o que compensava a baixa estatura. Ele admite, porém, que talvez hoje encontrasse dificuldade para ganhar a confiança de algum clube.

Hoje eu teria dificuldade de chegar num clube e mostrar o meu potencial

"Pesava, só que eu equilibrava, eu compensava na impulsão e nas boas atuações, e quando você tem uma boa atuação a estatura é o que menos importa, muito embora eu tenha que reconhecer que hoje em dia eu teria dificuldade de chegar num clube e mostrar o meu potencial. Eu mostrei meu potencial numa decisão de campeonato, que é a prova máxima de que a altura não era de importância, onde eu defendi bolas difíceis, altas, faltas que foram no ângulo, então a minha impulsão me ajudou junto com a minha colocação. Hoje é um pouco diferente: pode ser ruim, mas tem que ser grande [risos]", brinca o ex-goleiro.

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