Como Orkut ajudou a popularizar maior acervo de camisas de futebol do mundo

Caio Carrieri

Colaboração para o UOL, em Manchester (ING)

Região industrial, com fábricas e representantes da classe operária, o leste de Manchester concentra alguns dos bairros mais pobres da Inglaterra. Na mesma região, fica o paraíso para os amantes de futebol – particularmente aqueles admiradores de camisas históricas. A pouco mais de 600 metros do Estádio Etihad, casa do Manchester City, pode-se encontrar, em uma rua estreita, o maior acervo de peças relacionadas ao esporte mais popular do planeta: são 1 milhão de itens, entre 200 mil camisas, shorts, meiões, jaquetas, bonés...

O ponto forte do Classic Football Shirts, como sugere o próprio nome da loja virtual, são uniformes históricos e originais usados por jogadores em temporadas passadas. Fundado há 11 anos pelos amigos Douglas Bierton e Matthew Dale, ambos de 32 anos, o negócio, hoje milionário, surgiu como tentativa dos então estudantes de administração de escaparem de um emprego padrão no mercado de trabalho.

"Estávamos terminando a faculdade e queríamos um jeito de não ter um trabalho de verdade", conta Bierton em visita do UOL Esporte ao armazém de 25 mil metros quadrados. "Eu queria uma camisa da Alemanha da Copa de 1990, mas só conseguia encontrar imitação ou versão pirata, e não a original. Então pensamos que se nós queríamos esse tipo de camisa, muitas pessoas ao redor do mundo deveriam buscar o mesmo".

O faturamento de 7 milhões de libras (R$ 28,5 milhões) em 2016 não impede o torcedor do Manchester United de lembrar, com bom humor, o amadorismo no início da aventura, quando, ao invés de um depósito gigantesco, o quarto de estudante servia como escritório – não por opção, mas por necessidade. "As camisas ficavam espalhadas pelo quarto, pelo banheiro, por todas as partes da casa. Era um negócio no meio do caos", lembra numa mistura de orgulho e saudosismo.

A primeira venda foi a camisa do Liverpool de 1990, ano do último título dos Reds na Liga Inglesa, para a Noruega. Atualmente, são milhares de clientes cadastrados em mais de 200 países diferentes, com média de mil produtos comercializados por dia, a maioria para fora do Reino Unido. Estados Unidos, China e Coréia do Sul registram a maior parte dos consumidores. Na América Latina, destaque para México, Argentina e Brasil.

O mercado brasileiro reserva um fato curioso. O Orkut, rede social mais popular no país nos anos 2000, serviu como meio de campo para fidelização da freguesia. "Alguém criou uma comunidade para nós e aproveitamos a deixa para atrair público. Criamos um código de 10% de desconto e compartilhamos no grupo. O melhor era o nome do código: Bebeto (risos). Até hoje temos colecionadores dessa época."

Investimento alto

Com o progresso nas vendas, os sócios passaram a expandir a rede contatos. Hoje, negociam diretamente com os maiores clubes do mundo e as principais fornecedoras de material esportivo por modelos de camisas de temporadas passadas. Em busca dos itens raros usados em competições oficiais, as conversas chegaram a grandes ex-jogadores cujos nomes estão sob cláusula de confidencialidade. E quanto maior a importância da peça, mais alto o investimento.

"Já gastamos mais de 5 mil libras em camisas de finais de Champions League e de Copa do Mundo", revela o anfitrião. "Como parte do negócio, provavelmente venderemos no futuro, mas antes disso queremos oferecer a oportunidade para as outras pessoas também verem essas peças raras". Por isso, planejam abrir um museu em Manchester em 2018 para expor as peças mais valiosas.

A camisa mais cara à venda, no dia da visita do UOL Esporte, era a do timaço da Holanda campeã da Eurocopa em 1988. Original, mas não de jogo. O preço: 500 libras. "Óbvio que o design da camisa é importante, mas também conta bastante o que o time conquistou e se algum jogador especial a vestiu. Por isso que essa camisa é a melhor que temos no momento. O design é sensacional, foi o uniforme do título da Euro, e o Van Basten fez aquele golaço de voleio", refere-se à pintura do atacante da equipe de Ruud Gullit, Ronald Koeman e cia. que bateu a União Soviética por 2 a 0, em Munique.

Os clubes brasileiros também fazem parte do catálogo, e três modelos em especial chamam a atenção de Douglas Bierton: da volta do Zico ao Flamengo, na década de 1980, a do São Paulo de Raí bicampeão da Libertadores com Telê Santana, e a de Ronaldinho Gaúcho no Grêmio.

Patrocinador do clube mais antigo do mundo

 Além do vasto acervo de camisas e do projeto do museu em andamento, os fundadores do Classic Football Shirts também se orgulham de patrocinar o primeiro clube da história do futebol, o Shefield FC, fundado em 1857 e na Oitava Divisão do futebol inglês. Pelo contrato de três anos, o CFS estampa sua marca na tradicional camisa e, como contrapartida, repassa parte do lucro da venda de uniformes e administra loja do time do norte da Inglaterra.

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