Por que a piada sobre licença paternidade e Copa do Mundo é machista

Guilherme Costa

Do UOL, em São Paulo

"Se você engravidar sua mulher na próxima semana você terá duas semanas de licença paternidade na próxima Copa. Pense adiante"

Se você participa de grupos de WhatsApp, acompanha posts no Twitter ou segue a linha do tempo do Facebook, é provável que tenha visto nesta segunda-feira (04), em português ou no original em inglês, uma versão desse raciocínio pretensamente lógico e direcionado aos homens apaixonados por futebol. E se viu, é possível que tenha dado risada ou até compartilhado. Se você riu, compartilhou ou apenas contribuiu para a disseminação do conteúdo sem pensar no problema incutido, sentimos muito: seu comportamento foi machista.

Ainda que o comentário seja uma hipérbole e que tente apenas fazer graça, reforça ao menos dois estereótipos que em nada contribuem para a criação de lares mais equânimes: a ideia de que a Copa do Mundo pode ser mais importante do que os cuidados com a família e o conceito de licença paternidade como folga – algo radicalmente diferente do ideal que existe em torno da licença maternidade.

"Atrapalha porque primeiro que as piadas perpetuam distâncias onde moram as violências, sejam elas machistas, racistas ou homofóbicas, não são piadas. São crueldades. Apenas estão contribuindo para a perpetuação dessas mulheres sobrecarregadas e dessas crianças abandonadas, que deveriam ser prioridade absoluta de pai e mãe, bem como as coisas que vêm nesse combo", explicou Anne Rammi, artista plástica de formação, blogueira e ativista da plataforma Mamatraca.

"As pessoas ficam surpresas com as feministas por serem chatas, lá vem o mimimi, não pode mais brincar, mas é bem por aí mesmo. Se a gente deixar nas mãos das pessoas que gostam de piadas com opressão não vai avançar como humanidade. A gente vai continuar criando filhos sem pais e deixando que eles cresçam para virarem adultos infantilizados", completou.

No Brasil, o valor da licença maternidade é igual ao do salário mensal. O afastamento vai de 120 dias corridos a 180 dias corridos (apenas para companhias que participem do Programa Empresa Cidadã), e também têm direito as mulheres que sofrerem abortos espontâneos ou derem à luz um bebê natimorto. Em caso de adoção, o benefício vale para apenas um dos pais.

A situação do homem é radicalmente diferente. Em março de 2016, a então presidente Dilma Rousseff sancionou uma lei que estende de cinco para 20 dias o tempo de licença paternidade, mas apenas para funcionários de companhias que façam parte do Programa Empresa Cidadã – 2,9 milhões de pessoas, segundo a Receita Federal. Ainda assim, o período é quase um terço da média praticada em países desenvolvidos (oito semanas), de acordo com dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Em publicação datada de março deste ano, a OCDE mostrou que apenas Holanda (dois dias), Grécia (dois dias) e Itália (um dia) oferecem licenças inferiores ao praticado no Brasil. Também existe um contingente de países em que os pais não desfrutam de benefícios pagos (Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia, República Tcheca e Suíça, por exemplo).

E por que é tão importante discutir a diferença de tempo entre licença maternidade e licença paternidade? Segundo pesquisa feita pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), 48% das mães saem de seus trabalhos em até 12 meses depois de darem à luz. Feito entre 2009 e 2012, o estudo apontou que existe uma relação inversamente proporcional entre escolaridade e desemprego após a maternidade.

"Eu vi em algumas das páginas que compartilharam isso algumas pessoas questionando se são duas semanas de licença paternidade, mesmo. A galera nem sabe direito qual é a regra, mas é uma discussão que a gente nem tem no Brasil. Não se começou a entender por aqui o quanto a licença maternidade ser tão diferente mostra que 1) a prerrogativa de cuidar é apenas da mulher; e 2) colabora para a desigualdade de gênero no trabalho. Por que você vai contratar uma mulher se ela pode engravidar e ficar meses fora?", questionou Renata Mendonça, jornalista que integra o coletivo Dibradoras.

Por que fazer piada sobre o tema não ajuda na discussão

Num país em que pelo menos 57,3 milhões de lares (segundo o IBGE) têm mães solo e que o mercado de trabalho admite tratamento absolutamente distinto de acordo com o gênero, qualquer discussão sobre o o tema licença maternidade pode ajudar a mudar a cabeça de algumas pessoas e derrubar muros construídos pela sociedade há décadas. Essa é uma das principais razões para piadas sobre não oferecerem qualquer substância ao debate.

"Vi alguns amigos que gostam de futebol mandando isso em grupos, e depois os pais responderam que é um sonho achar que você vai ter semanas de descanso. Teve um que falou que tirou um mês de férias quando teve filho e depois voltou ao trabalho para descansar", relatou Renata Mendonça.

"Quando você ri de piada com mulher que não gosta de futebol ou piada homofóbica, ou até com uma piada sobre um assunto que as pessoas nem sabem falar direito, como a licença paternidade, você desvia o foco. E quanto menos você falar de machismo na sociedade e do que as mulheres sofrem, menos vai resolver. Para resolver um problema é preciso identificar, e rir não é identificar. É tratar como piada, assim como a coisa de assédio na rua. É uma coisa que a gente não pode mais aceitar. É como a piada de WhatsApp de 'feliz dia da mulher' com um homem levando uma bandeja com produtos de limpeza para a mulher na cama. É um problema", finalizou.

Licença aumenta barreira para mulheres no mercado de trabalho

A questão da licença maternidade é um dos pilares de um mercado de trabalho extremamente opressivo às mulheres. No Brasil, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os homens recebem R$ 490 mensais a mais, em média, para executar as mesmas funções – os dados são de 2015, levantamento mais recente sobre o tema.

Além disso, existe um enorme bloqueio para as mulheres em cargos mais altos. Entre trabalhadores com 25 anos ou mais, de acordo com o mesmo estudo, apenas 4,7% do público feminino ocupa posições de chefia.

Em 2013, o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) chamou atenção por uma afirmação tão elucidativa quanto preocupante sobre o assunto. Ao dar parecer contrário à licença paternidade de 30 dias, disse que "por questões fisiológicas a relação entre mãe e filho é totalmente diferenciada da que ocorre em relação ao pai".

A própria divisão entre licença maternidade e licença paternidade reforça a ideia de que existem dois papeis distintos na concepção de um núcleo familiar, o que em nada contribui para que as tarefas sejam efetivamente divididas. "Tudo que a gente tem de discussão de licença paternidade é aquém da necessidade real da chegada de um bebê na vida de uma família. As pessoas estão discutindo dez dias, 15 dias ou um mês, enquanto o modelo de sociedade em que a gente se inspira chega até a dois anos e não fala de licença paternidade, mas licença parental", ponderou Anne Rammi.

A lógica da "piada", portanto, vai contra a mudança de paradigma no papel que o homem tem. A simples ideia de "ver a Copa do Mundo durante a licença" pressupõe uma ausência – física ou apenas de atenção. É a mesma lógica de uma reportagem publicada neste ano pela revista "São Paulo", encartada no jornal "Folha de S.Paulo". O material falava sobre um novo perfil de pai que mantém hobbies como fazer longas caminhadas no Nepal ou escalar o Himalaia, mas chamou atenção, especialmente na capa, por reduzir o espaço à função primordial da paternidade: a criação do filho, afinal.

"Mais de 40% das mulheres no Brasil criam seus filhos sem o pai da criança, e quando a gente vê uma piada dessas fica bem fácil de assumir que 40% das mulheres criam os filhos sem o pai em casa e 55% criam o filho sozinhas, mas com o pai em casa. O papel da paternidade é um lugar vago na nossa sociedade. Não tem uma construção para o que é o papel do pai. É uma coisa que está sendo pensada agora, no meio dessa turbulência., nos últimos dez anos", disse Anne Rammi.

Você pode até ter feito as contas de quanto tempo falta até a próxima Copa do Mundo, mas ainda dá tempo de repensar: os números que importam, nesse caso, são bem diferentes.

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