Agressão: o que levou o Paraná a demitir Lisca na véspera de uma decisão

Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL

  • Geraldo Bubniak/AGB/Estadão Conteúdo

    Lisca: saída conturbada do Paraná Clube

    Lisca: saída conturbada do Paraná Clube

A notícia pegou a todos de surpresa na manhã de sábado (2): Lisca era demitido do Paraná Clube na manhã da semifinal contra o Atlético-MG pela Primeira Liga, em Belo Horizonte. Um técnico que pegou a equipe na 10ª posição e colocou na porta do G4 da segunda divisão do Brasileiro, com quatro vitórias, três empates e apenas uma derrota, seria demitido por qual razão, justamente no dia da semifinal de uma competição que dava projeção e, principalmente, a chance de o Paraná levantar R$ 3 milhões?

O UOL Esporte conversou com Lisca na semana após o fato. Conversou também com pessoas ligadas ao Paraná Clube e teve acesso a conversas do agora ex-técnico com o gerente de futebol Rodrigo Pastana e o preparador Rodrigo Rezende, e de Pastana com o presidente paranista, Leonardo Oliveira. Conheça o quebra-cabeça da demissão de Lisca:

Um dia de fúria

Lisca começou a sexta-feira (1) esbravejando com o assessor de imprensa do clube, Irapitan Costa, por conta da publicação de um vídeo nas redes sociais do Paraná. Depois, reclamou com o presidente Leonardo Oliveira de que não conseguiria dar um treinamento antes do jogo com o Galo. Foi aí que recebeu a mensagem de Rodrigo Pastana, gerente de futebol: "O Léo me disse que você está chateado pq (sic) não terá treino. O que está acontecendo? Lhe avisei que não poderíamos treinar pela dificuldade de logística". Lisca contestou, mas demonstrou, nas mensagens, um certo conformismo.

Depois, a pedido do meia-atacante Alemão, o preparador físico Rodrigo Rezende marcou uma atividade para a piscina do hotel, dividindo o grupo de jogadores. Foi a gota d'água para Lisca, que lhe mandou a seguinte mensagem: "Isso é brincadeira, não é sério. (...) O que? Tu acertou com o Daniel (Kaminski, supervisor), vocês trocaram meu treino por recuperação na piscina, tu é um... Vai te f*, seu traíra. Não fala comigo." Rezende o respondeu por áudio, mas esse conteúdo não vazou.

Reprodução

Então o técnico se revoltou. Foi até o Quarto Andar do Hotel Mercure Lourdes, em que estava o auxiliar técnico Matheus Costa. Lisca bateu à porta do quarto, segundo relatos, e ao entrar empurrou Costa com gritos e lhe deu um soco na barriga. O tumulto se formou. Jogadores viram e separaram ambos. O presidente Leonardo Oliveira foi chamado com urgência. Rodrigo Pastana ainda não estava em BH. Lisca foi para o seu quarto e passou o resto do dia isolado, dormindo no mesmo hotel. Chegou a procurar Costa para pedir desculpas e quis tratar do esquema do jogo, de acordo com o que apurou a reportagem. Enquanto isso, a diretoria do Paraná definia o que fazer.

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O presidente já havia acionado Pastana por mensagens para decidir a saída, enquanto o gerente, ainda sem saber o que viria, buscava colocar panos quentes. Depois, na manhã do dia seguinte, quando todo o clube já estava informado, decidiu-se pela demissão. Lisca então o enviou uma mensagem demonstrado arrependimento e tentando se manter no cargo. "Pedi mil desculpas (...) jamais iria dar um soco, dei um empurrão (...). Eu não merecia isso meu velho! Te tirei do buraco mais uma vez."

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A versão de Lisca

O UOL Esporte procurou Lisca, que foi solícito e trocou algumas mensagens com a reportagem. O técnico divulgou um comunicado ainda no sábado, mas evitava dar entrevistas. "Fui comunicado da minha demissão pela diretoria do Paraná (...) Infelizmente, nos últimos dias à frente da equipe, meu trabalho vinha sofrendo algumas ingerências, como sugestões para escalação e/ou mudança em programação de treinos e trabalhos, sem nem mesmo ser questionado. (...) as pessoas que comandam o clube falaram em agressão física, o que é uma inverdade. Jamais agredi o auxiliar Mateus Costa. O que ocorreu, como adiantei acima foi um desrespeito profissional do mesmo, que ministrou um treinamento com os atletas, na véspera de uma decisão, sem o meu conhecimento", dizia o comunicado.

Porém, após declarações públicas da diretoria do Paraná de que Lisca realmente teria agredido Costa, ele aceitou falar. "Mais grave que agressão, serão todos interpelados judicialmente (...) eles falam o que querem estão acusando terão que provar, envolveram até os jogadores (...) é muita baixaria para justificar para torcida", disse, questionando também por que Matheus Oliveira não fala em público e se o clube tem alguma prova das supostas agressões. Procurado, o clube disse que solicitou ao hotel as imagens dos movimentos de Lisca nos corredores do hotel, que foram vistas pelo presidente Leonardo Oliveira.

Lisca foi demitido por justa causa, mas ainda não assinou o destrato. O Paraná cogita um acordo, avaliando que o técnico, a despeito da saída tumultuada, deixou uma boa impressão pelo desempenho em campo. A reportagem ainda questionou Lisca sobre os áudios e imagens que vazaram via WhatsApp, incluindo um relato feito supostamente em um grupo familiar por um funcionário do clube, em que ele contava sobre o transtorno do técnico no "dia de fúria" e também "prints" sobre aspectos comportamentais dele e dos jogadores. "Ridículo, recebi, é montagem, não é ninguém da Comissão e não houve essa cena descrita", afirmou o ex-técnico, "Não houve agressão, quais jogadores viram? (Tem) Nomes, boletim de ocorrência?", rebateu.

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