"Reconciliação" de Coutinho no Liverpool passa por fator Suárez e Champions

Caio Carrieri

Colaboração para o UOL, em Liverpool (Inglaterra)

  • Caio Carrieri/Colaboração para o UOL

    Camisa 10 de Coutinho à venda na nova loja oficial do Liverpool, em Anfield

    Camisa 10 de Coutinho à venda na nova loja oficial do Liverpool, em Anfield

"Se Coutinho entrasse por aquela porta, eu não pularia de felicidade". A menos de 100 passos de Anfield, um dos endereços mais icônicos do futebol mundial, o assunto é o iminente retorno de Philippe Coutinho à casa do Liverpool, de onde o meia tentou forçar saída na última janela de transferências e enfureceu a metade vermelha da cidade dos Beatles.

No tradicional pub The Twelfth Man ("O Décimo Segundo Jogador", em tradução livre), Robbie Rogers, torcedor de longa data dos Reds, tem a palavra. Debruçado no clássico balcão de madeira e com uma pequena réplica da taça da Liga dos Campeões ao fundo, ele prossegue o raciocínio recheado de sentimentos. "Quando um clube como o Barcelona bate na sua porta, é difícil dizer não. O que machucou a torcida não foi a vontade dele de realizar um sonho, mas a maneira como tudo foi conduzido", pondera o proprietário do pub, de 53 anos, sendo mais de 40 deles como frequentador assíduo do Kop, o setor histórico de Anfield.

"Não acredito que Coutinho será vaiado", interrompe Collin Prior, 57, torcedor do rival Everton, entre um gole e outro em um pint de cidra - não a imitação barata de champanhe, mas algo de aspecto semelhante à cerveja, extremamente popular no Reino Unido. "Eu queria que ele saísse, porque já sofri muito nos clássicos", admite Prior. "Não é da cultura da torcida deles vaiar jogadores, ainda mais Coutinho, o melhor no elenco de Jürgen Klopp".

Caio Carrieri/Colaboração para o UOL
Tradicional pub The Twelfth Man, em Liverpool

O técnico alemão pode contar com o retorno do "Pequeno Mágico", alcunha recebida em Liverpool, neste sábado (9), contra o Manchester City, fora de casa, pela quarta rodada da Premier League. Seria a estreia do camisa 10 pelo clube na temporada, já que antes de defender a seleção brasileira pelas Eliminatórias, o meia tinha formalizado o pedido de transferência para o Barça, além de ter alegado dores nas costas – o suposto problema não o impediu de atravessar o Atlântico para defender o Brasil e até marcar um gol na vitória por 2 a 0 sobre o Equador, em Porto Alegre, na última quinta-feira.

O reencontro com Anfield lotado, o verdadeiro termômetro do sentimento dos aficionados, deve acontecer na próxima quarta-feira (13), data da estreia na Liga dos Campeões diante do Sevilla (ESP), contra quem o Liverpool defenderá o histórico de maior vencedor inglês da competição, com cinco títulos – o último na inesquecível noite de Istambul, em 2005, com a lenda Steven Gerrard como capitão e líder de virada épica sobre o Milan de Maldini, Kaká e cia.

"É difícil prever qual vai ser a reação da torcida", acrescenta Rogers. "Mas tudo dependerá da atitude dele em campo, do nível de dedicação que vai mostrar".

Na calçada oposta ao The Twelfth Man, o jovem Charlie Savigar, 18, vizinho de Anfield, fuma um cigarro sob a garoa que molha a estátua de Bill Shankly, ex-técnico escocês e um dos maiores ídolos do clube pelo trabalho entre as décadas de 60 e 70. O personal trainer, já de outra geração, analisa o caso com mais otimismo. "A recepção ao Coutinho será boa. Embora o nosso início de temporada tenha sido ótimo, ele ainda é o nosso craque. Já sinto saudades da classe que ele demonstra com a bola nos pés".

Neste começo de campanha, os Reds estão invictos depois de cinco partidas. Ocupam a vice-liderança da Premier League, com duas vitórias e um empate, dois pontos atrás do primeiro colocado Manchester United, único com 100% de aproveitamento. Além disso, eliminaram o Hoffenheim (ALE) nos playoffs da Liga dos Campeões com dois triunfos.

O exemplo de Suárez

Enquanto o Liverpool iniciou a temporada voando ao estilo de Jürgen Klopp, Coutinho tentou convencer o presidente Mike Gordon do Grupo Fenway Sports, que controla o clube, a liberá-lo de um contrato sem cláusula de rescisão – a renovação, de cinco anos, foi assinada em janeiro. Já na pré-temporada em Munique, Coutinho e seu estafe foram avisados da posição – irredutível – da diretoria. Nem mesmo a última oferta do Barça, de 160 milhões de euros (R$ 590 milhões), liberou o brasileiro, que agora vive situação parecida a de um ídolo recente do Liverpool.

Em 2013, Luis Suárez também tentou forçar a porta de saída. O atacante, agora no time dos sonhos de Coutinho, queria ser negociado com o Arsenal (ING), então classificado para a Liga dos Campeões. Diferentemente de Philippe, Suárez concedeu entrevistas e criticou publicamente o Liverpool. Tudo para criar um ambiente favorável à sua partida. Resultado: Luisito passou um tempo afastado do elenco pelo treinador Brendan Rodgers.

Mas, quando finalmente digeriu a sua permanência em Liverpool, o centroavante deixou as rusgas de lado e empenhou-se como sempre em campo. Com 31 gols, foi o artilheiro da Premier League e ficou muito perto de levar os Reds à conquista da elite do futebol inglês, o que não acontece desde 1990 – o Manchester City ficou com a taça, e toda vez que Suárez volta ao Noroeste da Inglaterra, é tratado como herói.

Caio Carrieri/Colaboração para o UOL
Coutinho é um dos principais destaques na fachada de Anfield

"Coutinho deveria saber desde o início que o Liverpool não voltaria atrás, assim como aconteceu com Suárez, na decisão de não vendê-lo", analisa James Pearce, repórter que acompanha o dia a dia do clube pelo jornal Liverpool Echo, principal publicação local. "Vai ser interessante acompanhar a reação da torcida", continua. "Não haverá vaias. Penso até que vai ter uma indiferença no começo à espera do que acontecerá em campo. Mas se ele fizer gol ou criar jogadas do jeito que ele sabe fazer, ele será perdoado rapidamente".

A opinião é compartilhada por Chris Bascombe, repórter do The Daily Telegraph, e na cola do Liverpool há quase 20 anos. "Não vejo a torcida cantando o nome dele logo de cara. O comportamento dele será crucial", avalia. "Apesar dessa última negociação, o histórico dele é de comprometimento, assim como foi o de Suárez depois de voltar ao time. O Liverpool só está na Liga dos Campeões porque teve no Coutinho um atleta brilhante, dedicado e decisivo na última temporada".

Não só a vaga, mas o ambiente de uma noite de competição europeia em Anfield pode jogar a favor de Coutinho. "É muito especial", conta Gareth Roberts, torcedor de 41 anos e editor do The Anfield Wrap, publicação independente de torcedores do clube. "Se você está ali, é para apoiar. Assim que a bola rolar, tudo ficará para trás. Quem veste a camisa vermelha não merece vaias".

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