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Da falência ao título nacional: as aventuras do campeão da Série D do BR

Operário Ferroviário, primeiro campeão brasileiro de 2017 - João Vitor Rezende/RBM Assessoria
Operário Ferroviário, primeiro campeão brasileiro de 2017 Imagem: João Vitor Rezende/RBM Assessoria

Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL

12/09/2017 04h00

O primeiro clube a poder dizer que é campeão nacional em 2017 é um belo retrato do futebol brasileiro em tempos de queixa sobre o calendário, desigualdade de cotas e priorização. Com 105 anos de fundação, o Operário Ferroviário EC, de Ponta Grossa, no Paraná, ganhou a Série D com uma folha mensal de aproximadamente R$ 180 mil mensais, quase ¼ do que o Flamengo gasta com o goleiro Diego Alves no mesmo período. Não só isso: apesar do acesso e do título nacional, estará na Série B do Paranaense em 2018 pelo segundo ano seguido.

A ressurreição do Fantasma

O Fantasma, como é conhecido o Operário, ganhou o apelido por “atemorizar” os grandes Atlético e Coritiba no Paranaense. Na Série B de 1990, chegou a disputar diretamente com o Furacão uma vaga na Série A do Brasileirão, mas mesmo ganhando um dos confrontos diretos, ficou para trás no grupo semifinal do campeonato que acabaria em final rubro-negra com o Sport Recife como campeão.

Foi o último suspiro nacional de um clube que ficaria 5 anos licenciado e com falência pré-decretada. Após cair no Paranaense de 1994, o time se licenciou do futebol. Ponta Grossa, uma cidade de 350 mil habitantes e que foi o berço do primeiro jogo de futebol no Paraná, tentaria outro clube, o Ponta Grossa EC. Mas não houve a empatia como com o velho Fantasma, até então 14 vezes vice-campeão estadual. Em 2004, uma década depois, o Operário voltou de licença. E em 2009, voltaria à elite para assombrar os grandes.

Montanha russa e trem fora dos trilhos

Presidente Operário-PR - João Vitor Rezende/RBM Assessoria - João Vitor Rezende/RBM Assessoria
Álvaro Goes, o presidente do Operário
Imagem: João Vitor Rezende/RBM Assessoria

Fundado a partir da iniciativa de funcionários da rede ferroviária no Paraná – daí a origem do nome – o Operário viveu a partir de 2015 uma revolução com altos e baixos. “Foi feito um grupo gestor que toca o futebol”, recorda o diretor de futebol Carlos Alberto Albuquerque, o Carlinhos. Segundo ele, o empresário Álvaro Goes reuniu “40 amigos e pediu R$ 2 mil por pessoa”. O time apostou em Itamar Schurle, técnico conhecido no Sul do Brasil por ser um misto de treinador e gestor de futebol, com uma equipe fixa de trabalho. E surpreendeu no Paranaense daquele ano.

Com um placar agregado de 5 a 0 sobre o Coritiba na decisão, com direito a eliminar o Paraná Clube no caminho da final, o Operário conquistava o seu primeiro título estadual. Porém, como todo bom trem, o percurso incluiria uma baixa. No ano seguinte, quando todos esperavam que o clube decolasse, o susto. “Em 2016 tivemos um planejamento errado, coisas que não deram certo... jogadores, treinador... culminou com o rebaixamento a 2a divisão”, relembra Carlinhos. “Saíram algumas peças importantes, o time não deu a liga que todos esperavam. Falo por mim também, era fazer bons jogos, grandes partidas e não aconteceu. Aí teve uma tristeza muito grande que foi o descenso”, confirma o lateral-direito Danilo Báia, um dos remanescentes do título de 2015, agora campeão brasileiro.

De campeão à Série B local em um ano, o Operário não se rendeu. Ganhou a Copa FPF ainda no segundo semestre de 2016 e com isso garantiu vaga para a Série D nacional. Teria pela frente uma temporada desafiadora, com dois acessos para conquistar.

Com tapetão no Paraná, prioridade virou o Brasileiro D

O Operário começou 2017 tendo que aguardar três meses para entrar oficialmente em campo. Só em 19 de março é que a equipe estrearia na 2ª divisão do Paranaense e venceria o Apucarana por 4 a 0. O time sobrou na primeira fase do Estadual, quando levou apenas um gol e venceu 8 dos 9 jogos, mas aí uma denúncia de escalação irregular paralisou a competição por um mês e meio.

“Foram diversos fatores. Fizemos uma primeira fase muito boa, não perdemos para ninguém. Mas aí parou a segunda divisão e os outros times aproveitaram para contratar e melhorar fisicamente. E para nós começou a gerar um desgaste, jogava quinta e domingo. E eles nos pegavam descansados”, analisou Báia. Na fase final, o Operário teve de se dividir entre o sonho do acesso nacional e a volta para a elite do Paraná. “Acabamos 14 pontos à frente do time que subiu”, conta Carlinhos, “A gente fez mais de 25 mil km só no mata-mata da D”.

O time jogou três partidas decisivas no Paranaense-B em menos de 10 dias e tudo antes da primeira eliminatória nacional contra a Desportiva Capixaba. Empatou as três e caiu fora do Estadual, deixando as vagas para Maringá e União de Francisco Beltrão – ambos, ao final de todos os jogos, acabaram acima do Operário também na soma de pontos. E então restava a Série D.

Sonho é com a Série B

Campeão nacional pela primeira vez, o Operário sonha com os pés no chão. “Podemos chegar numa Série B, a torcida é muito apaixonada. Estamos com 3 mil sócios torcedores”, analisa o diretor Carlinhos. A média de público do Fantasma na Série D nacional foi de 4.517 pagantes por jogo, maior que a do Atlético-GO na A (4.359) e de clubes da B como Guarani, Juventude e Londrina.

Torcida Operário - João Vitor Rezende/RBM Assessoria - João Vitor Rezende/RBM Assessoria
A fanática torcida do Fantasma: média melhor que clubes da A e B
Imagem: João Vitor Rezende/RBM Assessoria

Para chegar à Série C, o Operário contou com seu caldeirão, o Germano Kruger, onde esteve com 100% de aproveitamento até a derrota no jogo de volta da final contra o Globo-RN (1 a 0), num agregado de 5 a 1. Ao longo da D, foram 11 vitórias, 1 empate e 4 derrotas, coroando a melhor campanha entre 68 times. A equipe foi comandada por Gerson Gusmão, que chegara ainda em 2016 com a missão de evitar a queda para a B local, não realizada, mas foi buscar a Copa FPF e a D nacional.

“O estádio é bom, o gramado é bom. Tem uma academia dentro do clube. Não tem CT ainda, nós treinamos em campos na região. Salário em dia, paga rigorosamente em dia, nunca atrasou salário aqui. O clube dá moradia; se tem família, mora em apartamento. Outros em alojamentos”, conta Danilo Báia, que aos 31 anos, já jogou em clubes mais famosos no cenário nacional, como América-RN e Paraná Clube.

O planejamento agora se volta para 2018. O Operário ainda tem jogos em 2017, pela mesma Copa FPF que lhe deu a vaga para a D do Brasileiro e que tem como limite apenas jogadores Sub-23. A Copa da Rússia deve ajudar no planejamento, ainda a ser feito. “A previsão é que o campeonato da B do Paraná volte mais cedo. Não dá para emprestar jogadores, se emprestar, os estaduais de outros times vão bater as datas. Vamos ver quem fica, mantém o contrato, paga, e faz pré-temporada em janeiro e fevereiro”, idealiza Carlinhos.