CBF defende Del Nero e protagoniza saia justa em evento de gestão

Bruno Grossi

Do UOL, em São Paulo (SP)

  • Bruno Grossi/UOL Esporte

    Walter Feldman, à esquerda, em evento do Lide Esporte e da Atletas pelo Brasil

    Walter Feldman, à esquerda, em evento do Lide Esporte e da Atletas pelo Brasil

Na noite da última quarta-feira, enquanto o público do futebol voltava o foco para o mata-mata da Copa Libertadores da América e da Copa Sul-Americana, um dos membros do alto escalão da CBF participava de encontro em São Paulo para discutir parcerias e investimentos para melhorar a gestão esportiva. O secretário-geral da CBF, Walter Feldman, integrou um dos painéis do Seminário Nacional do Esporte e protagonizou 'saia justa' ao se esquivar dos pedidos para que a CBF adote o chamado "rating" do Pacto pelo Esporte, um acordo que estabelece regras de governança, integridade e transparência para entidades ligadas ao esporte. Além disso, discursou a favor do presidente Marco Polo Del Nero.

Quando um tempo foi aberto para perguntas da plateia, o ex-jogador Raí, presidente da Atletas pelo Brasil, uma das organizadoras do evento, questionou o tamanho da participação de Del Nero na apresentada evolução da CBF, citando as investigações do FBI que cercam o mandatário desde 2015 e que o impedem de sair do Brasil.

"São dois anos tenebrosos, mas tudo o que acontece, tudo o que fazemos vem do mando do Marco Polo. Digo com toda sinceridade e coração. Marco Polo é um dirigente novo para o futebol. E, sim, sofre um processo de investigação de uma agência chamada FBI. Mas não temos maiores informações e, logo, possibilidade de defesa. Por isso ele não viaja, por pura orientação dos advogados, para evitar constrangimentos. É apenas uma dificuldade de formular uma defesa por sua inocência sem saber do que ele é julgado. Tem que haver respeito. Acreditamos na inocência do presidente. E não estaríamos onde chegamos se não fosse por ele. Esperamos que até o fim do ano sua inocência seja comprovada", discursou Feldman, que até pediu para falar de pé, com os outros palestrantes sentados ao fundo.

Pacto pelo Esporte

O Pacto pelo Esporte, assinado em 2015, reúne empresas nacionais e multinacionais que investem no esporte brasileiro e tenta tornar a administração e a relação com clubes, federações e confederações mais transparentes e profissionais. O movimento, por exemplo, está elaborando um sistema voluntário de auto-avaliação para que entidades que buscam patrocínios respondam uma espécie de questionário de mais de 400 itens, que serão inspecionados por uma espécie de auditoria, responsável por dar notas a cada entidade. Essa nota serve de parâmetro para que patrocinadores possam medir o investimento a ser aplicado. É o chamado de "rating", que só deve ficar pronto no fim do ano.

A CBF não teve nenhum representante convidado para o seminário organizado em parceria pelo Lide Esporte, pela Atletas pelo Brasil e pelo Instituto Ethos. Walter Feldman, no entanto, insistiu com os organizadores para que a CBF pudesse apresentar sua versão sobre gestão profissional e governança. Paulo Nigro, presidente do Lide Esporte, e o ex-jogador Raí, presidente da Atletas pelo Brasil, aceitaram, mas com a condição da adesão da CBF ao "rating" do Pacto ser discutida.

Quando o painel com participação de Feldman se encaminhava para o final, Nigro pediu a palavra e perguntou se a CBF estava disposta a se aproximar do sistema de notas. Houve certo embaraço entre os presentes, que já haviam mostrado incômodo com a alegação de que a CBF é uma "instituição privada", de "fins lucrativos" e "sem um tostão de dinheiro público". Os empresários entendem o posicionamento, mas acreditam que a seleção brasileira de futebol é um bem público e que deve ter sua administração avaliada e fiscalizada como qualquer outra confederação esportiva. O próprio Feldman concordou e ponderou que a entidade tem "responsabilidades públicas como uma estatal". Em contato com a reportagem, ainda disse que não é possível aderir ou não ao "rating" neste momento porque o produto ainda não foi lançado ou apresentado em detalhes.

"O Paulo (Nigro) está insistindo porque discutimos muito sobre isso antes de vir para cá (risos). A maioria das entidades privadas que nos patrocinam já estão no Pacto pelo Esporte (como Itaú e Gol). Então nossa avaliação já tem um pouco da identidade de vocês, temos os mesmos parâmetros", disse Feldman, mais uma vez gerando murmúrios no auditório da Gocil, na Zona Sul de São Paulo. O secretário-geral da CBF prosseguiu: "Nosso novo modelo de governança é orientado pela Ernst & Young (também membro do Pacto), pelo Profut, pela Lei Pelé, pelas lutas contra a corrupção. Nosso rating é de 80% de evolução. E esse trabalho tem chegado às federações regionais". 

Além do Lide e da Atletas pelo Brasil, os próprios patrocinadores pressionam as entidades esportivas para adequação às normas do Pacto. Afinal, as empresas que assinaram o acordo precisam que, a partir de outubro, todos seus novos contratos estejam adequados às exigências do programa, formuladas pelos próprios participantes. Nos últimos anos, a CBF já apresentou essa resistência também com o Profut e com a criação do artigo 18A da Lei Pelé, que estipulou regras para qualquer entidade esportiva que receba dinheiro publico ou isenção fiscal, como proibição de eleições consecutivas e nepotismo, obrigação de transparência em contratos e publicação de dados financeiros.

A CBF nega que faça oposição a todas essas medidas, embora admita que discorde ou não possa atendê-las 100% por não se tratar de uma instituição pública. Para conter o incômodo das grandes empresas que a patrocinam e já seguem o que chamam de "compliance" - estar em conformidade com leis e regulamentos internos e externos -, a entidade trabalha com seu próprio pacote de regras. O "compliance" da CBF, segundo Feldman, está no nível de grupos globais e, em breve, será apresentado para mais de 200 países como modelo a ser seguido. 

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