Realidade em Portugal, vídeo-árbitro mudou futebol sem ser feito às pressas

Ricardo Viel*

Colaboração para o UOL, de Lisboa (Portugal)

No dia 27 de agosto, os torcedores do Sporting trocaram o ódio pelo amor ao árbitro de vídeo em menos de três minutos. A equipe vencia em casa por 2 a 1 o Estoril, mas era pressionada. Até que numa jogada pelo lado direito do ataque, já no minuto 47 do segundo tempo, Piccini recebeu a bola na linha de fundo e centrou para o holandês Bas Dost fazer de cabeça o terceiro gol. Festa nas arquibancadas do Estádio Alvalade, mas o alívio dos torcedores durou segundos. Foi o tempo do juiz, avisado pelo vídeo-arbitro (VAR, como é chamado em Portugal), anular o lance por impedimento do lateral italiano.

Vaias ao conjunto arbitral, que se transformaram em aplausos logo em seguida. Ao ser reiniciada a partida, o Estoril se lançou à frente e empatou a placar num chute cruzado de Pedro Monteiro. A comemoração do zagueiro foi interrompida a seco após o árbitro ser avisado que a posição do jogador, no momento em que recebeu o passe, era irregular. A partida terminou 2 a 1 para o time do ex-corintiano Bruno Cesar, mas o protagonista do confronto foi um homem que não entrou em campo. Sentado diante de uma televisão, ele impediu dois gols (veja ambos no vídeo acima). 

Implementado no começo do Campeonato Português, o árbitro de vídeo tem sido uma atração à parte nos gramados lusos. Até agora, segundo dados fornecidos pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF), o novo juiz invisível evitou 11 erros garrafais - média de uma correção a cada cinco partidas do torneio. "O balanço que fazemos é claramente positivo. Nenhuma decisão correta de um árbitro foi alterada, mas, pelo contrário, já tivemos 11 situações revertidas por erros grosseiros, que de outra forma passariam em claro. Temos evoluído a cada semana, sabendo que há muito trabalho pela frente, mas que o investimento será pago em verdade desportiva", diz o presidente da federação, Fernando Gomes, ao UOL.

Estima-se em cerca de R$ 3,7 milhões (1 milhão de euros) o custo para que o VAR seja usado nas 306 partidas da principal competição de futebol do país. O uso do recurso vem sendo testado em Portugal há um ano e meio. Nas nove últimas rodadas do campeonato passado ele foi utilizado num modo 'offline', ou seja, o árbitro de vídeo, em sua cabine, trabalhava como se estivesse a se comunicar com o juiz em campo, mas na verdade falava com outro elemento da equipe que assistia ao jogo em outra sala. Assim fizeram testes e afinaram o funcionamento da novidade. O passo seguinte foi usá-lo em jogos de categorias inferiores e algumas partidas de futebol feminino.

A primeira vez que o sistema funcionou 'online' foi no dia 28 de maio, no confronto Benfica x Vitória de Guimarães, pela Taça de Portugal. O jogo vencido pela equipe de Luisão entrou para a história: foi a primeira vez no mundo que uma final de competição nacional contou com o recurso do árbitro de vídeo, diz a FPF. Além de Portugal, em outros três países europeus o sistema já vem sendo usado na primeira divisão dos campeonatos de futebol. Se na Itália a questão parece mais pacificada, na Bélgica houve reação dos clubes com solicitação da retirada do recurso. Na Alemanha, logo na primeira partida em prática o sistema não funcionou bem e, durante metade do jogo, não foi possível verificar a linha de impedimento. EUA, Austrália e Coreia do Sul também já usam o árbitro de vídeo nos jogos de primeiro escalão.

Mínima interferência, máxima eficácia

"Há 18 meses o vídeo-arbitro está a ser estudado e trabalhado aqui. Todos os árbitros fizeram formação de vídeo-arbitro, não tiveram férias para fazerem os testes", conta Luciano Gonçalves, presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (Apaf). A atuação do VAR nas partidas é limitada, só acontece em lances que claramente influenciam o resultado: pênaltis (marcados e deixados de marcar), expulsões, gols anulados ou anotados de forma irregular, e erros do árbitro na atribuição de cartões. Quando vê uma dessas situações o árbitro de vídeo "aconselha", pelo sistema de comunicação, o colega que está em campo a rever sua decisão.

Em Portugal, em 80% dos casos o juiz aceita a sugestão vinda da cabine sem assistir ao lance nas televisões colocadas próximas ao campo. É raro que peça para ver a jogada antes de decidir, e isso acontece sobretudo em lances interpretativos como empurrões, carrinhos que tocam bola e jogador, etc. O lema adotado pela federação portuguesa para o uso do árbitro de vídeo é "mínima interferência, máxima eficácia", e isso explica, em parte, o sucesso até agora do sistema. Há poucas interrupções nos jogos e quando isso acontece é para corrigir situações cruciais em que o trio de arbitragem cometeu um erro.

Ao contrário do que se imagina, em Portugal o árbitro de vídeo não fica numa salinha no estádio da partida, mas sim na Cidade do Futebol (equivalente à Granja Comary portuguesa). "Considerou-se que nem todos os estádios teria capacidade técnica para isso e a opção foi por concentrar todos os árbitros no mesmo lugar. Não interfere em nada, o tempo de comunicação entre o VAR e o árbitro em campo é de 0,2 segundos", esclarece Gonçalves.

Para Ricardo Oliveira Duarte, editor-executivo da rádio TSF, à medida em que o campeonato avança os torcedores e jogadores entendem melhor o funcionamento do sistema e as dúvidas e resistências quanto ao uso do VAR diminuem. "O que já estamos a assistir neste momento é alguns clubes queixarem-se da não ação do vídeo-árbitro: como é que o vídeo-árbitro não viu? E isso, parece-me, é o melhor reconhecimento do papel que o VAR poderá ter. Se um clube reclama da ausência de ação é porque lhe reconhece importância", pontua o jornalista.

Para ele, é inegável o contributo do árbitro de vídeo. "Como tudo o que é novo há alguma contestação, mas me parece que, em geral, dirigentes e clubes avaliam a experiência de modo positivo. É uma questão de justiça. Sendo que a justiça neste caso será 'inimiga' de momentos mágicos como a mano de Dios de Maradona. Ainda que esse momento não deixe de ser mágico para uns e uma profunda injustiça e mentira para outros".

Duarte era um dos presentes no Estádio Alvalade na partida em que o árbitro de vídeo foi a estrela e recorda a montanha-russa de emoções que presenciou. "Quando o Estoril marcou o estádio gelou. Silêncio total. Quando o árbitro anunciou que o gol era nulo o estádio voltou a explodir de alegria. Na condição de observador, conseguindo ter essa distância, foi muito curioso assistir àquilo. E uma coisa sentiu-se no fim desse jogo: tinha sido justo. A vitória do Sporting foi 'verdadeira', pelo menos foi isso que ouvi várias pessoas falarem no fim."

Decisão perigosa

Ex-árbitro e comentarista de arbitragem em jornais e televisões portuguesas, Jorge Faustino vê com preocupação que se coloque em funcionamento agora o sistema de árbitro de vídeo no Brasil. Aponta a falta de treinamento como o maior perigo. "Tomar essa decisão a quente, um pouco nas coxas, pode ser perigoso para o projeto do vídeo-árbitro. Costumo dizer que nós só temos uma chance de deixar uma primeira boa imagem e não haverá tempo para se testar e se adaptar ao sistema. Acho que seria mais benéfico que usassem o modo offline e na próxima temporada, no começo do campeonato, aplicava-se."

Além de já não deixar o juiz tomar sozinho decisões importantes, Faustino aponta outra vantagem na existência do VAR. "O árbitro está hoje mais à vontade porque sabe que se cometer um erro ele pode ser corrigido. É uma ajuda importante, inclusive, porque faz com que os jogadores confiem mais nas decisões. Sabem que ela é revista. Aqui em Portugal, neste começo de campeonato diminui bastante o número de cartões amarelos por protestos de jogadores porque os atletas sabem que se houver um erro claro ele será corrigido."

Tanto a federação, como a associação de árbitros e os profissionais de comunicação são unanimes em afirmar que o uso do árbitro de vídeo não significa que não haverá erros nas partidas nem o fim das polêmicas. "Também não vão terminar sequer as desculpas dos dirigentes e treinadores que procuram esconder as suas próprias falhas atrás das equipes de arbitragem", provoca o presidente da FPF.

No começo deste mês, a federação tomou uma decisão curiosa. Na tentativa de diminuir a polêmica após o vídeo-árbitro ter anulado o gol de empate do Portimonense contra o Benfica, numa jogada que aconteceu aos 42 minutos do segundo tempo, o áudio da comunicação entre o conjunto arbitral foi tornado pública. "A divulgação da conversa tem por objetivo fazer com que as pessoas percebam o funcionamento e as vantagens desse sistema. A avaliação que fazemos até agora é muito positiva. Ainda estamos em aprendizagem, mas é muito positivo", explica o presidente da Apaf.

Naquela partida houve certa demora para a revisão da decisão e os jogadores de ambas equipes já estavam a postos para reiniciar a partida do círculo central quando o gol foi anulado. Nem mesmo os torcedores no estádio entenderam bem a decisão, porque a irregularidade aconteceu ainda perto do meio-campo, no início da jogada - já está em estudo que no próximo ano os torcedores possam ver no telão do estádio o lance anulado, para entenderem melhor a decisão tomada.

Percebe-se que o barulho do estádio dificultava que o juiz escutasse o que lhe era transmitido, o que fez com que o árbitro de vídeo tivesse que gritar algumas vezes que o jogador do Portimonense estava impedido na origem do lance. Foi o que bastou para que na segunda-feira, nos cafés e bares de Lisboa, os anti-benfiquistas acusassem o VAR de "comemorar" a irregularidade do lance. Para a sorte do futebol, as discussões acaloradas e as brincadeiras entre torcedores não serão afetadas pela chegada do juiz invisível.

*Colaborou Rogério Charraz

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