Por que o goleador da Série A resolveu jogar a Série B? Pottker responde

Marinho Saldanha

Do UOL, em Porto Alegre

  • Ricardo Duarte/Inter

    William Pottker é o artilheiro do Internacional na Série B do Campeonato Brasileiro

    William Pottker é o artilheiro do Internacional na Série B do Campeonato Brasileiro

Se um jogador se valorizou no futebol brasileiro entre o fim de 2016 e o primeiro semestre de 2017, este foi William Pottker. Goleador da Série A, craque e artilheiro do Campeonato Paulista, o atacante da Ponte Preta era desejo de qualquer clube. Mas optou por disputar a Série B no Inter. Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, ele revela porque tomou esta decisão.

Hoje com 23 anos, Pottker atendeu a reportagem antes do treinamento de segunda-feira e falou sobre as mudanças na carreira. Explicou a negociação frustrada com o Corinthians e a saída difícil do Figueirense, entre outros assuntos. 

Confira, a seguir, a entrevista com Pottker:

UOL Esporte: Por que o artilheiro da Série A, craque do Paulista, artilheiro também, resolveu jogar a Série B?
Pottker: É uma boa pergunta. Muitas pessoas me perguntaram isso. Financeiramente foi de suma importância, também, não posso omitir isso. Mas foi por ser o Inter. Um clube grande, que ficaria momentaneamente na Série B. Ficaria seis meses e depois voltaria para Série A, e eu estaria em um time grande, com chances de título. O Inter fez uma proposta para mim antes mesmo de eu ser craque e goleador do Paulistão. Antes de eu conseguir estes objetivos, já tinha um pré-contrato assinado com o Inter. Sendo artilheiro do Brasileirão passado, o Inter acreditou em mim, no campeonato que eu poderia fazer. Se o Inter tivesse esperado, talvez não tivesse me contratado porque outros times entrariam na disputa e seria mais complicado. Mas pelo Inter confiar e mim e acreditar que eu pudesse fazer um bom Paulista, fizeram um pré-contrato. Eu fiquei muito feliz pela confiança e vim para cá para atingir os objetivos

Ricardo Duarte/Inter

UOL: Logo que você chegou ao Inter, de cara encontrou um ambiente bem complicado. O time oscilando na Série B, a torcida protestando, em seguida teve troca de técnico. Como foi na arrancada em um novo clube ter estes problemas?
Pottker: Eu vinha de um bom ano pela Ponte Preta em 2016. Quando cheguei, vi uma diferença enorme de pensamento. Muitos pensamentos negativos que vinham de fora, era 'extra' do Inter. Muitos disseram que o Inter neste ano tinha um dos piores times da história. Pelo contrário, vejo nossa equipe encaixada, diferente do começo da Série B. Por serem jogadores novos, a maioria jamais tinha jogado juntos, o entrosamento leva tempo. Quando conseguimos, mostramos o que mostramos hoje. A maioria dos nossos jogos fizemos mais de dois gols, pela característica do Inter jogar, amassando o adversário. Fico feliz. Fico feliz porque hoje, quando vejo o que eu passo, não se compara ao que passei aqui naquele começo de Série B.

UOL: Antes de acertar com Inter, você teve uma negociação prestes a ser concluída com o Corinthians... O que houve?
Pottker: Eu tive um entendimento que a negociação com o Corinthians estava quase certa. Eu falei que estava tudo certo, mas que estava com a cabeça na Ponte Preta e me esforçaria para dar o máximo ali antes disso. Por problemas de documentação, de um acerto entre meu empresário, a Ponte e o Corinthians, acabou que aos 45 minutos do segundo tempo não se concretizou. É algo que sempre se fica triste pela forma que foi tratado. Fiquei chateado porque me desgastou com a torcida da Ponte e a do Corinthians, que tinha invadido minha rede social dando boas vindas e depois acabou entendendo como se eu fosse o culpado. Mas eu tinha pouca interferência naquilo, era entre as direções e meu empresário. São coisas que acontecem e temos de saber lidar. Acredito que minha não-ida para o Corinthians não ficou marcado em nada. Respeito o Corinthians e as pessoas que trabalham lá. Tenho amigos lá e um respeito imenso.

UOL: Quando você veio para o Inter, um diretor do Corinthians disse que seria uma 'ponte' para atuar na China...
Pottker: Sobre isso, é uma questão simples. Você se destaca na Ponte, no Inter, vai ter proposta... Ele (diretor) viu que eu poderia deslanchar aqui, então seria natural receber uma proposta e, sendo boa para mim e para o Inter, iria embora. Até porque, não posso mentir, tenho de pensar nas pessoas que estão à minha volta também. Isso é uma consequência do trabalho. Hoje, se você é um bom repórter, vai para a melhor rede de comunicação. É uma coisa da vida, uma coisa simples. E acho que foi neste sentido que ele falou.

UOL: Hoje você é artilheiro do Inter na Série B, vice-líder em assistências no time. É seu melhor momento?
Pottker: Eu acredito que um dos meus melhores momentos foi quando conseguimos a melhor campanha da história da Ponte Preta na Série A. Aqui não vai ser diferente. Primeiramente quero atingir os objetivos coletivos, o do clube que é voltar à Série A sendo campeão. Depois vamos nos objetivos pessoais. Não posso dizer que é meu melhor momento. Não acabou a temporada. Mais para frente poderei dizer, sim, que foi meu melhor momento.

UOL: Você acha que ainda dá para pegar a artilharia da Série B neste ano?
Pottker: Ano passado nesta época eu estava assim, com Grafite e o Fred na frente. Eu acabei encostando neles na reta final, fiz alguns gols e empatei. Hoje o Henan, do Figueirense, que está em primeiro, é um grande jogador, um ótimo finalizador, já joguei com ele. É um concorrente muito forte. O mais forte de todos na concorrência, porque o menino do Juventude (Tiago Marques) está machucado. Mas vamos pensar primeiro no objetivo coletivo, que é o acesso, e depois no objetivo individual.

Ricardo Duarte/Inter

UOL: Um dos maiores debates desde sua chegada é: Pottker deve jogar pelo lado ou centralizado. Onde você prefere jogar?
Pottker: É uma coisa muito de jogo. Sempre joguei pelos lados, a base toda, no Linense-SP, onde me destaquei bastante, foi pelos lados. Na Ponte Preta, tenho perto de 50 jogos, sendo 23 pelos lados e 27 centralizado. É uma questão de jogo. Me sinto bem aberto ou centralizado. Para mim o importante é estar perto do gol. Quando jogo aberto e consigo chegar no gol adversário, fico feliz. Estou acostumado a fazer gols, dar assistências. Então, quando fico longe do gol, me sinto mal. Particularmente eu vejo muita importância em ajudar na marcação, e quanto mais próximo do gol eu puder chegar, melhor. Independentemente do posicionamento, aberto ou centralizado, o importante é chegar na frente e poder concluir.

UOL: Talvez sua principal característica seja a força. É algo que vem contido ou trabalhaste para ter?
Pottker: Eu era muito magrinho no Figueirense. E naquela época se falava muito que futuramente os jogadores fortes teriam uma vantagem. Me apeguei ao que falavam. Na base eu procurava muito algumas coisas que fossem me ajudar nisso. Academia, suplementação... O Figueirense me proporcionava isso e eu usufruía. Na base eu fazia muita academia, mas no profissional já cheguei formado, com o corpo definido, era só manter. Hoje em dia não fico muito na academia. Mas lá na base, com 15, 16 anos, eu montei minha estrutura muscular e ganhei a transferência de velocidade para hoje fazer a função que faço. Meu recorde foi duas horas de treino direto. Umas três ou quatro vezes na semana. Não poderia ser mais, senão viraria um robô.

UOL: O Brasil te conheceu mesmo na Ponte Preta... Como foi sua carreira antes disso, a estrutura familiar...
Comecei minha carreira no Figueirense, subi da categoria de base para o principal, fiz poucos jogos. Depois fui emprestado ao Linense, fiz um 2015 bom, joguei no Braga, de Portugal, voltei e acabei indo para Ponte Preta. Na época o Botafogo e o Santos também queriam minha contratação. Optei pela Ponte. Não foi má escolha, a vida é feita de escolhas, foi uma escolha certa e deslanchei lá... Eu saí de casa muito cedo para fazer testes no Figueirense. Tive chance de passar e logo cedo comecei minha carreira. Minha estrutura familiar é a mesma de muitos jogadores de futebol. Família humilde, mas que sempre foi dependente apenas dela mesmo. Meu pai trabalhava, me sustentava, tínhamos o que precisávamos para viver naquele momento. Éramos muito felizes assim. Fico feliz hoje de dar algo mais para eles. Vivemos para isso, para dar isso aos nossos familiares. Meu pai ainda trabalha, minha mãe é dona de casa (moram em Florianópolis), cuida de meus irmãos (Pottker é o segundo de sete irmãos)...

UOL: A saída do Figueirense foi complicada, certo? Você falou isso depois do jogo contra eles pela Série B...
Passei momentos bons e ruins no Figueirense. Quando assumiu o Wilfredo (Brillinger, ex-presidente), tive dificuldades. Eles me colocavam para treinar separado, e mesmo muito novo, com 18 anos, me deixavam sem salário. Acabei passando dificuldades. Continuei trabalhando nas condições que me proporcionavam. Não reclamava de nada, só pedia para me arrumarem clube. Eu e meu empresário é que sempre acabávamos arrumando. São estas coisas que aconteceram... Daí, quando fui bem no Linense, me reconheceram. Queriam que eu ficasse, mas bati o pé para ir para Ponte Preta. Não queria ficar porque não tinham reconhecido o que eu tinha feito até aquele momento, depois queriam que eu ficasse. O clima lá não estava bom entre nós e era melhor eu sair. Saí pela porta de trás, como se diz, muitos me viram como um cara que não olhava para o prato que comeu. E pelo contrário. Eu tenho um respeito imenso pelo Figueirense. Não fosse ele, não estaria aqui hoje. Um carinho imenso pela instituição, pela torcida, mas como eu falei, não posso admirar as pessoas, só a instituição.

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