Política, audiência, dinheiro. O que move novo torneio de seleções da Uefa

Leandro Miranda

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação

    O logo da Liga das Nações, novo torneio da Uefa

    O logo da Liga das Nações, novo torneio da Uefa

A partir da Copa do Mundo de 2018, jogar um amistoso contra uma seleção europeia vai ficar bem mais difícil. Isso porque a Uefa resolveu substituir grande parte das datas-Fifa reservadas para essas partidas com um novo torneio entre seleções: a Liga das Nações. Será a realização de um projeto antigo da entidade que comanda o futebol do continente, movido principalmente pelo desejo de lucrar mais com os jogos entre equipes nacionais.

Oficialmente, a motivação para criar a Liga das Nações, que reunirá todas as 55 seleções associadas, é "integridade esportiva". A Uefa diz que os vários amistosos são desinteressantes e não fornecem mais competição adequada aos times. Mas também é impossível negar que não apenas critérios esportivos levaram ao novo torneio – dinheiro e política também têm sua considerável parcela de contribuição.

Correndo atrás do futebol de clubes

Na era moderna do futebol, especialmente na Europa, o interesse do público pelo futebol de seleções foi ultrapassado de longe pelo frenesi causado pelos clubes, principalmente pela Liga dos Campeões. O nível técnico mais alto, antes encontrado quando os principais jogadores de cada país se reuniam em suas equipes nacionais, hoje está nos maiores clubes, que reúnem verdadeiras constelações multinacionais em seus elencos. Com isso, o dinheiro também está nos jogos entre os clubes.

David Ramos/Getty Images
Uefa quer levar modelo de sucesso da Liga dos Campeões ao futebol de seleções

Um dos objetivos principais da Uefa com a Liga das Nações é copiar um modelo de sucesso da Liga dos Campeões na venda de direitos de transmissão. Recentemente, a entidade assumiu o controle centralizado da negociação dos direitos de suas seleções associadas, prometendo retornos financeiros graúdos para os principais países. Para cumprir essa meta, criar um novo torneio e obter contratos lucrativos com emissoras de TV era crucial.

Com a competição tomando o lugar de vários amistosos que não despertam o interesse do torcedor, a Uefa espera criar um novo mercado, aumentar a audiência dos jogos – a tabela será pensada justamente para maximizar o número de partidas televisionadas ao vivo – e, assim, fortalecer a "marca" do futebol de seleções novamente, que hoje só desperta grande interesse em um mês a cada dois anos – em épocas de Copa do Mundo e Eurocopa. Na Inglaterra, por exemplo, a Sky Sports já assegurou o direito de transmissão exclusivo da Liga das Nações.

Vagas "políticas" para a Euro (e talvez para a Copa)

A Uefa começou a projetar a ideia da Liga das Nações no segundo semestre de 2013. Um ano depois, anunciou que a Eurocopa de 2016 teria seu tamanho expandido de 16 para 24 seleções. Os dois fatos são ligados intimamente por um desejo político da entidade de agradar a federações de países com menos tradição. Por isso, a Liga das Nações colocará pelo menos um "nanico" na Euro-2020.

Sergei Stepanov/Xinhua
Jogo entre Estônia e Gibraltar: seleções "nanicas" aumentaram chance de ir à Euro

O novo torneio dividirá as 55 seleções em quatro divisões, de acordo com o ranking da própria Uefa. E cada divisão terá pelo menos um representante na Eurocopa. Ou seja, uma das 16 piores equipes do continente, que compõem a Liga D (como é chamada a quarta divisão da Liga das Nações), certamente estará no principal torneio da Europa daqui a três anos.

A primeira edição da Eurocopa com 24 times, no ano passado, não foi unanimidade na imprensa do continente. Houve muitas críticas quanto ao baixo nível técnico do torneio, especialmente na primeira fase, que só eliminou oito seleções – 16 passaram às oitavas de final. Com a Liga das Nações dando pelo menos uma vaga a times de ainda menor qualidade, a preocupação esportiva com a competição faz ainda mais sentido. E ainda existe a possibilidade de o mesmo sistema funcionar para definir classificados à Copa do Mundo de 2022.

Entenda como funciona a Liga das Nações

As 55 equipes serão divididas em quatro divisões, chamadas de ligas pela Uefa: a Liga A terá os 12 melhores times do ranking (em quatro grupos de três), a Liga B terá também 12 times, a Liga C terá 15 equipes (um grupo de três e três grupos de quatro) e a Liga D terá as 16 piores seleções (em quatro grupos de quatro).

Os times jogarão dentro de seus grupos em partidas de ida e volta. Os quatro vencedores de grupos da Liga A decidirão o título em um mata-mata em junho de 2019. Já os piores colocados de cada grupo das Ligas A, B e C serão rebaixados, e os vencedores dos grupos das Ligas B, C e D serão promovidos.

A Liga das Nações também definirá quatro classificados à Euro-2020. Cada uma das divisões terá direito a uma vaga, que será disputada entre os quatro vencedores de grupos daquela divisão. Isso significa, por exemplo, que um time da Liga D, que reúne as 16 piores seleções do continente, certamente estará na Euro-2020.

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