Campeão brasileiro elege Roth como um dos piores técnicos: "destrói coisas"

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

Depois de conquistar o inédito Campeonato Brasileiro pelo Atlético-PR em 2001, Ilan seguiu, três anos mais tarde, para o futebol europeu. Passou pelos franceses Sochaux e Saint-Étienne e pelo inglês West Ham antes de voltar a jogar em seu país de origem – em 2010, acertou com o Internacional, na época comandado por Celso Roth. A relação com o técnico, porém, não foi das melhores. Pelo contrário. Hoje, Ilan aponta Roth como um dos piores treinadores com o qual trabalhou. Não por questões ligadas ao campo, e sim 'humanas'.

Entrevistado pelo UOL Esporte, Ilan – que chegou a defender a seleção brasileira na Copa das Confederações de 2003, com Parreira – alega que Celso Roth 'destrói as coisas por onde passa' e conta histórias da época do Internacional para justificar a sua opinião.

Alexandre Lops/AI Inter
"Para mim, um dos piores treinadores, e não é nem questão técnica ou tática, é uma questão humana. Eu nunca falei de ninguém, pode procurar aí, mas esse treinador só destrói as coisas por onde ele passa. Depois que eu saí do Internacional, o Celso Roth foi para o Coritiba e o pessoal do Coritiba me perguntou, e eu falei para o Tcheco: 'Você quer uma dica? Fala para o pessoal do Coritiba não trazer esse cara, ele vai derrubar o clube, ele vai fazer uma bagunça no vestiário e vai ir aí para ganhar 300 mil', e foi exatamente o que aconteceu, ele ganhou um monte de dinheiro, fez uma bagunça, acabou tirando o Tcheco da comissão e deixou o Coritiba na antepenúltima colocação", disse Ilan, para depois dar detalhes do que passou com Celso Roth na época em que defendeu o Internacional, em 2010.

Os diretores que me contrataram queriam eu no Internacional, mas o Celso Roth não"

"O que aconteceu lá no Internacional foi que os diretores que me contrataram queriam eu no Internacional, mas o Celso Roth não queria. A primeira frase dele para mim quando eu cheguei no Internacional: 'Faz por você que ninguém vai fazer aqui'. Legal né, eu chegando num clube, ou seja, 'faça você porque aqui ninguém vai te ajudar', e eu falei: 'Poxa, bem-vindo né? Eu vou fazer a minha, claro'. Passaram alguns jogos e ele não me colocava, aí eu joguei um jogo contra o Santos e durante o jogo ele me tirou e depois no vestiário ele falou: 'Olha, você foi muito bem no jogo', e eu falei: 'Que bom, legal, pelo menos um ponto positivo', mas depois desse jogo eu não entrei mais nenhum jogo e nem fiquei no banco de reservas", recorda.

Me barraram de entrar no estádio, no centro de treinamento, falaram que era uma ordem da direção"

Reprodução
"Eu pensei: 'deve ter alguma coisa errada, não é possível', e depois eu fiquei sabendo que ele não queria que eu viesse e não contava comigo. Tudo bem, o cara não quer contar com o jogador, não tem problema, fala 'ó, não conto com você e pronto', e aí deu azar que eu machuquei o pé, quebrei um dos dedos do pé, e o Internacional ia para o Mundial de clubes, e eu acabei não indo. Era no final do ano e a comissão técnica dele fez uma lista de quem ficava e que ia para o Mundial, e ele falou para mim: 'Você não está na lista', e eu falei: 'Tudo bem, só que eu machuquei o pé, tenho que me tratar pelo menos', e no dia seguinte eu fui barrado no Internacional: eu, o Edu e mais dois jogadores. Me barraram de entrar no estádio, no centro de treinamento, falaram que era uma ordem da direção. Aí eu liguei para o meu advogado de Curitiba e ele disse: 'Pode fazer a sua mala e vir pra Curitiba, isso aí eles não podem fazer'", diz.

Sobrou também para o Inter, que, segundo ele, tem dirigentes que só pensam em dinheiro e não estão nem um pouco preocupados com o bem do clube.

"Aí o pessoal do Grêmio ficou sabendo que eu estava machucado e estavam interessados em mim, e falaram: 'Você vem aqui, faz o contrato, se trata e pronto', aí eu falei: 'Tá, mas eu tenho que ver o que o Internacional quer'. Fui fazer uma reunião com eles, e o Inter disse: 'Nós então vamos vender você para o Grêmio'. Eu falei: 'Vão me vender para o Grêmio? No final do ano eu estou livre, não estou? Eu vim de graça, vocês não pagaram nada, não me deixam eu entrar no estádio para me tratar e ainda querem ganhar dinheiro nas minhas costas, sabendo que eu estou livre? Me libera e eu vou para o Grêmio'. E falaram: 'Não dá para gente fazer um bem bolado'?

Robert Pratta/Reuters
Eu sou a pessoa mais honesta do mundo, eu falei: 'Não existe bem bolado, ou vocês me liberam ou vocês se arranjam de outra forma', e o que eles me fizeram? Me barraram, não deixaram eu entrar e eu fui para Curitiba, e não me negociaram com o Grêmio. É uma falta de respeito. O Internacional é uma casca vazia, tem 200 mil sócios, mas quem trabalha dentro do clube não está trabalhando para o clube, está trabalhando para outras pessoas, dirigentes que não querem saber do clube. O problema do Internacional são as pessoas que trabalham no Internacional, que estão de passagem e utilizam o clube para ganhar alguma coisa ou explorar o clube", critica.

As pessoas que trabalham no Internacional estão de passagem e utilizam o clube para ganhar alguma coisa"

RESPOSTA DE CELSO ROTH

Através de sua assessoria de imprensa, o técnico Celso Roth afirmou ser uma inverdade a história relatada por Ilan, disse nunca ter tido qualquer tipo de problema com o jogador e alegou que, na época, apenas não o escalou como titular, fato absolutamente normal no futebol.

PAI DE ILAN LARGOU CARREIRA POR SUCESSO DO FILHO

William, pai de Ilan, foi ex-jogador e técnico do Paraná Clube. Ficou por quase 20 anos trabalhando com as categorias de base do clube paranista e estava prestes a assumir a equipe profissional. Porém, caso isso acontecesse, ele teria o seu próprio filho como um dos comandados, o que fez William largar a carreira de treinador e deixar o futebol com o filho.

Meu pai parou a carreira dele para que eu pudesse continuar"

Arquivo pessoal
"Ele foi jogador - era atacante - e treinador do Paraná durante 20 anos, foi das categorias de base. Ele ia subir para treinar o profissional, só que eu estava no profissional e meu pai falou: 'ó, vai ficar meio complicado porque, se eu subir, estarei com o meu filho junto'. Eu tinha acabado de subir para o profissional do Paraná, tinha feito dois jogos e quatro gols: um na minha estreia e mais três no clássico contra o Coritiba, e meu pai falou o seguinte: 'Deixa ele seguir a carreira dele, a minha está mais para o fim do que para o início', e assim foi. Então, infelizmente, meu pai parou a carreira dele para que eu pudesse continuar", conta Ilan, que encerrou a carreira aos 35 anos e hoje mora em Saint-Étienne e trabalha como observador do time.

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A gente se conhecia muito bem até quando aconteceu esta tragédia. Foi horrível. Um mês antes eu estava jogando futebol com ele e os filhos, no sintético. Ele estava com um projeto de ser treinador fora do Brasil: Portugal, aqui na França também... E ele até falou: 'Ó, se tiver algo aí me avisa', e eu falei: 'ótimo, se tiver oportunidade eu vou falar no seu nome mesmo', mas infelizmente aconteceu isso. Então eu peguei o final da carreira dele e o início da carreira dele como treinador, no Paraná. O meu pai tinha muito contato com ele, ele pedia conselhos ao meu pai, porque o meu pai já estava lá há algum tempo. Era uma pessoa que a gente gostava muito.

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Quem pediu a minha contratação foi o Levir Culpi, que é de Curitiba também. Eu penso que eu fui muito cedo para o São Paulo, eu tinha só 18 anos, mas foi ótimo para mim. Eu não tive uma passagem de muito destaque, mas eu aprendi muito porque eu cheguei numa época onde só tinham feras lá dentro, e eu aprendi muito com esses jogadores: Souza, França, Carlos Miguel, Rogério Ceni, Fabiano, Alexandre, Luis Fabiano, então teve muita gente de qualidade que passou por lá... O Raí estava lá, o Kaká estava subindo, então eu utilizei muito isso para aprender. Não era fácil ser titular num time desse, mas me ajudou muito porque no ano seguinte eu fui para o Atlético PR, em 2001, e nós fomos campeões brasileiros. Então me serviu muito, muito mesmo, a ida ao São Paulo em 2000. Depois o Atlético-PR me comprou.

ATLÉTICO-PR: "ANO QUE DEU TUDO CERTO"

Moacyr Lopes Junior/Folhapress
Foi o ano que deu tudo certo. Deu para encaixar tudo direitinho. Teve também uma ajuda do Souza, que veio do São Paulo... A gente já se conhecia, eu dei uma mão para ele e ele se integrou muito fácil. A gente tinha uma equipe com qualidade, em todos os quesitos, e deu certo a questão do treinador: o Geninho, a maneira de tentar usar a psicologia... Deu muita coisa certa e uma coisa que me marca até hoje foi quando a gente chegou para jogar no primeiro jogo da final, em Curitiba, onde eu marquei o primeiro gol: a gente estava cantando dentro do ônibus, há alguns metros antes de chegar à Arena da Baixada, porque a gente sabia que ia ganhar o jogo, e eu nunca mais na carreira passei por uma situação dessas, com um grupo assim. Eu nunca mais consegui passar, com a convicção de que a gente ia ganhar, convicção 100% de que a gente ia ganhar o jogo. A gente não ostentava isso, mas para gente, dentro do ônibus, onde era a nossa intimidade, a gente sabia que ia ganhar o jogo - como ganhamos, de 4 a 2 [Atlético-PR também ganhou o jogo de volta, em São Caetano, por 1 a 0, e foi campeão brasileiro de 2001].

A VIDA NA FRANÇA E OS ATENTADOS

A França se tornou a minha primeira casa. Hoje eu sou casado com uma francesa há quase dez anos, as minhas filhas são francesas. Sempre que eu posso eu vou para o Brasil, adoro o Brasil, mas moro e trabalho aqui hoje, então o meu primeiro domicilio é a França.

Arquivo pessoal
Isso [atendados] é muito ruim, é uma coisa constante aqui e que pode acontecer em qualquer lugar. A gente mora num lugar mais tranquilo, eu estou a 30 minutos de Lyon, mas a gente evita. E mudou muito o comportamento da gente, de ir para shopping, a gente acaba diminuindo... Então a gente tem que se adaptar, mas é uma coisa mais pontual. Se fizer uma comparação dos atentados com a violência que existe infelizmente no Brasil, no cotidiano, não chega a meio por cento da questão de pessoas que morrem... Mas no Brasil dá para evitar, você sabe onde vai, sabe o horário que vai; já aqui tem que saber evitar, mas é difícil porque é surpresa, você está no centro da cidade tomando um café e de repente acontece. Mas é difícil eu mudar a minha vida toda, pegar a minha família e ir para o Brasil, então é uma questão complicada.

POR POUCO NÃO ENCERROU A CARREIRA NO ATLÉTICO-PR

AFP PHOTO/BORIS HORVAT ORG
Eu saí do Bastiá... Ele estava caindo pela tabela no fim do campeonato e acabou descendo para a segunda divisão. Fica na ilha da Costa, é muita linda, mas não tem perspectiva de trabalho depois do futebol naquela ilha, e eu tive uma proposta do Atlético-PR; era muito boa, e eu falei: "legal, vou voltar pra Curitiba, vou encerrar no clube em que fui campeão brasileiro"... Seria ótimo, mas eu tenho a minha família e, quando eu tive uma passagem pelo Internacional, não deu certo. Eu trouxe a minha família toda, mas a gente sabe que no Brasil, em dois meses muda treinador, é muito instável. e eu pensei: "Poxa, vou acabar perdendo um ano de não ficar junto com as minhas filhas", foi o que aconteceu com a Bianca, a minha primeira filha; eu estava na Inglaterra, no West Ham, então eu não via muito ela. Eu falei com a minha esposa, a proposta do Atlético-PR era muito boa, mas eu optei pela família, optei por aquela coisa de pai. Eu gostaria de ter terminado a carreira no Atlético-PR, mas agora isso é passado, bola para frente.

NEYMAR X CAVANI E O PAPEL DA IMPRENSA

Penso que é a imprensa que deu uma aumentada. Isso ia acontecer, é ego. Dos 11 do PSG, nove são grandes jogadores. Agora vamos ver quem é o mais forte. Agora é que tem que ter um treinador e um capitão - que é hoje o Tiago Silva - para falar assim: 'Vamos acalmar aqui porque precisamos de vocês. Você recua aqui, você recua ali e bola para frente porque a Champions League está aí.

FÊNOMENO NEYMAR MUDOU O FUTEBOL FRANCÊS

CHRISTOPHE SIMON/AFP
Mudou muita coisa. Tem coisa que mudou para bom e tem coisa que mudou para ruim. A questão técnica e a questão de espetáculo todo mundo ganha, e não só o PSG, que pagou 280 milhões e vai ganhar mais que isso. O imposto francês vai ganhar, a França ganha em know-how, trouxe uma estrela do futebol mundial, e o campeonato todo ganha também, todo mundo quer jogar. O que não é legal é que o PSG está fazendo um time fortíssimo, certamente vai chegar à Liga dos Campeões, mas a gente não sabe até quando vai durar essa vontade dos árabes de injetar dinheiro. A França fala muito da questão social e isso perturba um pouco, valores, a questão como ele [Neymar] veio e outros jogadores também... Acabaram de comprar outro jogador francês aqui, o Mbappé, então é uma questão que deixa uma nuvem. Até onde vai? Porque se um dia o sheik falar assim: 'Não quero mais', porque é um brinquedo para eles, e 'com esse brinquedinho eu não vou mais jogar, então vocês fiquem com as dívidas'. Então, quando é que vai terminar isso aí? Porque fizeram muitas regalias para os árabes também, e o PSG é totalmente diferente, e os árabes gastam mesmo. Então é uma contradição.

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