Argentina de Messi joga para ir à Copa e não entrar para história

Felipe Pereira

Do UOL, em Buenos Aires

  • Victor R. Caivano/AP

    Lionel Messi corre risco de não jogar a Copa da Rússia

    Lionel Messi corre risco de não jogar a Copa da Rússia

A Argentina entra em campo nesta quinta para não fazer história. Ameaçada de ficar sem vaga na Copa do Mundo, a seleção bicampeã mundial se espreme na Bombonera para encarar o Peru em seu último jogo em casa, às 20h30 (horário de Brasília). Enquanto o fiasco ronda a equipe - hoje Messi e companhia disputariam a repescagem, o torcedor reage à situação com descrédito.

 
É como se uma relação de décadas estivesse abalada e sob risco de acabar. Erros do passado são remoídos e existe distanciamento. "Não temos fé nos jogadores. Eles jogam sem alma. A AFA (Associação de Futebol Argentina) mudou o presidente, mas a política é a mesma. Os resultados também", analisa Willy Patt, 50 anos.
 
Como remédio, a cartolagem argentina marcou um encontro num lugar especial e investiu na decoração. Levou o jogo para a Bombonera e abarrotou as ruas próximas com faixas azuis e brancas onde está escrito 'es la hora de alentar' (é hora de apoiar, em uma tradução livre do espanhol).
 
A Bombonera estará cheia, mas a imprensa especula que um começo ruim pode mudar sentimentos. Em vez de apoio, a arquibancada pode vaiar e se tornar fonte de pressão. Ter empatado com a Venezuela no Monumental de Nuñez na última rodada não colabora, diga-se. "Os jogadores não sentem mais a camisa da Argentina", avalia Matias Gonzalez, 21 anos.
 
A imprensa do país que tem uma veia #dramaqueen muito forte adota o tom alarmista. Argentina e Peru, nesta quinta-feira, tem status de final nos programas de TV. Há entradas ao vivo nas mesas redondas desde terça e cada detalhe vira assunto para longos debates, mesmo que seja "só" Batistuta falando que a casa do Boca, escolhida para a decisão sob fortes protestos, cheira mal.

Marcio Komesu

Falta alma

Na Argentina, está acontecendo o inverso do ditado popular. Não é a vitória, mas o fracasso que tem muitos pais. Sobra para Sampaoli, acusado de ser uma espécie de professor Pardal, a falta de tempo para treinar, a bagunça da AFA, os milhões de euros no bolso dos jogadores, os atletas gostarem mais de likes que gols, e até para a Sony -  por ter inventado o PlayStation que teria feito as crianças trocarem o futebol do mundo real pelo Fifa.

Mas a queixa mais citada é a falta de entrega dos atletas em campo. Se o argentino valoriza a pegada, a expressão 'deixar tudo em campo' resume a obrigação do atleta quando veste a camisa da seleção. Para Pato Alargo, 55 anos, ir embora cedo para Europa diminuiu a identificação com o país.

Daniel Avigo, 33 anos, afirma que os jogadores não se incomodam em perder quando atuam pela Argentina. "Pegam o avião e no dia seguinte estão em suas mansões da Europa". Para piorar, existe a comparação com Maradona.

A Copa de 1986 santificou o craque. O torcedor só lembra que ele jogava com o joelho zoado, apanhava e continuava indo para cima do marcador - e que era melhor com a camisa da seleção que pelos clubes europeus. Diante da perfeição, não há como fazer frente.

Enrique Krepzcie, 75 anos, afirma que nem em 1969 a pressão era tão grande. A seleção enfrentou o mesmo Peru na Bombonera num jogo decisivo. E não foi para Copa do México, no ano seguinte, na última edição do torneio mais importante do planeta sem a Argentina.

"Foi triste e eu nem quis saber do Mundial, quem estava ganhando ou perdendo. Como naquela época não havia transmissões foi fácil não prestar atenção", relata. O aposentado conta que foi ruim não classificar para Copa, mas não uma catástrofe ou motivo de rompimento entre torcida e seleção, algo que ameaça ocorrer agora.

REUTERS/Andres Stapff

O Peru quer fazer história

Wilber Quispe, 28 anos, vestia com orgulho a camisa peruana de Guerrero em frente à Bombonera. Ele aposta no atacante para marcar os gols da vitória que considera possível nesta quinta. O rapaz lembra que estão fora da Copa há 36 anos e está é a melhor geração para retornar ao Mundial.

E Wilber era um dos vários torcedores que gritou pelo Peru enquanto Fernando Llanos, 31 anos, fazia uma entrada ao vivo para a America Television, de Lima. O jornalista endossa a tese de que o time pode competir com os donos de casa.

Não significa que o adversário seja fraco, mas Fernando ressalta que o ponto forte da Argentina é a qualidade individual dos jogadores, principalmente Messi. Sobre o conjunto, não crê que sejam melhores. Diz que o Peru está no pico de rendimento e os rivais sem saber como jogar. "Nunca vi meu país jogar uma partida de Copa do Mundo. Está a maior oportunidade da minha vida".

Nas palavras dos torcedores, o Peru vai sem medo para a partida que os argentinos encaram como final. Se para os donos de casa estar na Copa é obrigação, o país entra em campo para, aí sim, fazer história. Fernando ressalta que a vontade de ganhar é melhor que o medo de perder. Os argentinos concordam, e veem nisso mais um motivo de preocupação.
 

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