5 Bolas de Ouro e muitos títulos depois, Messi finalmente vira "argentino"

Felipe Pereira

Do UOL, em Rosário (Argentina)

  • Messi comemora gol decisivo pela Argentina

    Messi comemora gol decisivo pela Argentina

Só havia um lugar em que Lionel Messi era contestado: na Argentina. No Barcelona, um leão. Na seleção, um gatinho. Essa era a imagem para uma parte considerável de seus compatriotas. Que importa levar o time à decisão da Copa, se no fim perdeu? Foi a mesma coisa nas brochantes finais de Copa América diante do Chile. A seca do pais segue desde 1993...

Tudo mudou na noite de terça. Se antes havia alguma margem para contestação, agora não há mais (pelo menos até uma próxima crise). Sem Messi, a Argentina não teria passado raspando no título da Copa do Mundo no Brasil. Sem Messi, a Argentina não teria aproveitamento para ir para a Copa da Rússia. O camisa 10 fez três gols no jogo decisivo contra o Equador e todos os gols da Argentina nos últimos 12 meses.

As televisões argentinas se renderam e estampavam a palavra 'consagrado' em letras garrafais, mas o reconhecimento mais legítimo é da torcida. Apito final e os clientes do bar do atacante em Rosário começam a gritar "Messi, Messi, Messi". Jogadores das categorias de base de um time de Córdoba dobravam as costas e faziam reverência ao jogador.

"Se estamos indo ao Mundial é por causa de Messi. Ele jogou mais que todos os outros, é o melhor do mundo. Ganharemos a Copa por causa dele". A frase é de Ignacio Furque, 13 anos, mas o sentimento é o de quase todo argentino que sobreviveu ao drama de quase ficar fora da festa na Rússia. 

Jogando com alma

Os companheiros do garoto viraram uma metralhadora de elogios: "representou", "colocou o time nos ombros", "honrou o país", "pôs a seleção na Copa"... Todo superlativo era pouco para definir Messi. O atacante evitou um vexame histórico decidindo o jogo que a imprensa argentina classificou como o mais importante dos últimos 30 anos.

O confronto com o Equador não entra para a memória do país apenas pela tragédia que não aconteceu. Depois de cinco Bolas de Ouro, um sem fim de títulos pelo Barcelona e a admiração do mundo inteiro, Messi finalmente conseguiu a afirmação como argentino. Não que ele nunca tenha sido decisivo com a seleção, veja bem, mas toda uma vida de críticas e questionamentos foi respondida com a bola no pé e, principalmente, atitude.

Ao marcar o gol de empate, Messi pegou a bola e correu para o meio. Foco na vitória. Jesus Gonzalez, 14 anos, não parava de lembrar que o atacante construiu dois gols sozinho. Ganhou uma dividida e virou a partida. Fechou o placar de 3 a 1 costurando e batendo por cima do goleiro. "É o melhor do mundo", como quem repete um mantra. 

As exibições de luxo de Messi sempre foram associadas ao Barcelona. A carência de títulos com a camisa da seleção fizeram o homem que ameaça o reinado de Pelé ser chamado de 'pecho frio', gíria portenha para quem não cresce em horas decisivas. Antes ele não "sentia" a camisa da Argentina. Agora, os argentinos estão convencidos de que ele ganhou sozinho.

Como todo morador de Rosário, Carlos Macedo, 72 anos, se queixa de que a imprensa de Buenos Aires implica com Messi porque ele não nasceu na capital. O país tem até um jornalista que se vangloria de ser amigo de Cristiano Ronaldo. O fato de o atacante nunca ter jogado por um time do país foi amplamente usado por comentaristas para questionar seu pertencimento à Argentina. Como se Messi ainda tivesse muito a explicar...

Argentino de nascimento e opção

O argumento faz pouco sentido porque Messi tem cidadania espanhola e não faltaram convites para jogar pelo país. Companheiro de Piqué, Fábregas, Iniesta e Xavi desde a adolescência, ele sabia que seleção poderia formar com colegas de Barcelona e rivais de Real Madrid.

Ainda assim, preferiu a Argentina e sua federação de futebol cheia de desmandos que frita técnicos e atrapalha o time. Nesse caminho, nunca foi realmente poupado pelos críticos, que fizeram ele carregar uma pesada "mochila", como dizem os argentinos, pelas falhas de todos os times que não souberam vencer em duas décadas.

Essa pressão, somada à frustração das perdas, fez ele anunciar que não jogaria mais pela seleção após a perda da Copa América para o Chile, no ano passado. Uma decisão tomada com as entranhas, de quem sente a decepção por falhar pela terceira vez numa final por seu país. Não deixa de ser uma declaração torta de amor.

Agora, esse mesmo país que o criticou parece unido por ele. O jornal Olé, conhecido por suas "cornetadas", publicou que o país vai à Copa porque Messi é argentino. Fosse ele espanhol, ficariam em casa. Assim que a partida com o Equador acabou, o narrador da TYC Sports colocou Messi no mesmo patamar que Maradona.

"A Argentina está na Copa porque tem Messi. O Equador saiu na frente, mas apareceu o melhor do mundo. Gênio, gênio, gênio. Tínhamos Maradona, agora temos Messi", dizia o jornalista.

Nos gols e ao fim do jogo contra o Equador, houve buzinaço em Rosário. Os argentinos diziam que era preciso se classificar. Depois pretendiam lamber as feridas, dar confiança ao grupo e reaproximar a torcida. Caso conseguissem cumprir todas essas missões, teriam chance na Rússia. Messi zerou a lista em 90 minutos.

AFP PHOTO / Javier Cazar

 

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