Corintianas que já fizeram Nike voltar atrás pedem mais mulheres no futebol

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

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    Movimento de torcedoras do Corinthians busca igualdade de gênero no futebol

    Movimento de torcedoras do Corinthians busca igualdade de gênero no futebol

O Corinthians joga e elas sempre estão por perto. A desigualdade de gênero também joga e elas seguem próximas, numa batalha que vai muito além do cimento da arquibancada e do apoio ao time do coração. Juntas, no estádio ou fora dele, o maior desafio é fazer as vozes das mulheres, enfim, serem ouvidas no futebol.

É nesse contexto que 13 mulheres corintianas criaram, há 20 meses, um grupo cujo objetivo é alcançar mudanças no atual cenário. Com ideais ligados à arquibancada e ao próprio clube, o Movimento "Toda Poderosa Corinthiana" se organizou e já obteve vitórias significativas.

De acordo com Mônica Toledo, uma das líderes do movimento e torcedora assídua aos estádios há mais de 40 anos, a criação do grupo se deu por causa dessa experiência acumulada durante anos por ela e pelas companheiras. E é num ambiente historicamente masculino e de poucas brechas que, segundo a fundadora, o "trabalho de formiguinha" acontece.

"A gente já tinha isso em mente por causa da experiência. O movimento surge dessa vivência e das questões machistas que estão no futebol", explicou Mônica à reportagem.

Em meses de existência, o movimento conseguiu reverter algumas medidas destinadas apenas à ala masculina da torcida. No primeiro semestre, uma campanha do grupo fez a Nike voltar atrás na decisão de vender apenas uniformes para homens, sem a versão feminina. 

"É sinal que nossa voz está sendo ouvida. Seja acompanhada dentro do clube. As mulheres são 52% da torcida do Corinthians. A questão não é só arquibancada. É o futebol no todo. O movimento quer conscientizar", frisou a torcedora, que cita desigualdade até no dia a dia do clube.

"A representatividade da mulher é baixa. Dentro do CT do Corinthians não tem uma médica, uma fisioterapeuta, uma auxiliar. Onde estão essas mulheres que também se formam?", indagou.

Reprodução
O Movimento foi criado em março de 2016

Tocar na ferida é preciso

O movimento surgiu depois que o próprio Corinthians lançou um núcleo de estudos por meio do departamento cultural. Mônica foi convidada para participar de um projeto ligado às mulheres.

"Fizemos um trabalho de pesquisa que não havia. Começamos a perceber que não havia nada escrito, embora a mulher tenha participado da história do Corinthians. Mas ela não estava registrada na história. Começamos a buscar isso por meio depoimentos de torcedoras antigas", explicou.

Depois disso, a ideia de expansão tomou conta das torcedoras. Para elas era preciso, finalmente, tocar na ferida e mostrar que havia diferenças de gênero que há tempos faziam parte do dia a dia.

"Como era uma coisa ligada ao Corinthians, ficamos meio presas. Queríamos bater de frente com isso. Aí surgiu o movimento, da necessidade que surgiu após os estudos. Éramos em seis. As meninas abraçaram muito. Temos um grupo com 600 meninas num grupo fechado no Facebook", disse Mônica - há também uma página na rede social, com mais de 5.400 seguidores.

Uma das premissas é ter representatividade entre as participantes. Por isso, há mulheres de idades distintas, além de torcedoras ligadas às organizadas e também aquelas que nunca fizeram parte delas.

"A gente procurou trazer meninas mais novas. Elas são o futuro e aprendemos muito com elas. Eles vêm com ideias novas, é uma nova geração. Há meninas que não são de organizadas também. Justamente para ter representatividade", disse Mônica.

Organizada, não

Aline Ribeiro
Torcedora do Corinthians levanta faixa: questões vão além da arquibancada

A mentora frisa, no entanto, que elas não querem ser vistas como uma torcida organizada de mulheres, justamente porque esses grupos ficaram conhecidos ao longo do tempo pelo viés machista. Segundo ela, o movimento é livre de qualquer torcida. E o respeito mútuo entre eles é habitual.

"Eles não se manifestam sobre nada. A cúpula das organizadas nos respeita. Temos muitos anos de Corinthians. Existe respeito. Nosso foco é o Corinthians, não a organizada. O Corinthians que é importante para nós. Hoje, para nós, é mais importante uma mulher na presidência do Corinthians do que na presidência de uma organizada. É muito mais importante", ressaltou.

Mônica destaca ainda que existe uma evolução quando o cenário é comparado aos das décadas de 1970 e 1980. O caminho a ser trilhado rumo à igualdade de gênero no futebol, no entanto, ainda é longo e árduo.

"Na arquibancada evoluiu bastante. Eu acompanho o Corinthians na arquibancada há muito tempo, peguei os anos 80. Era complicado para a mulher ir ao estádio sozinha. Até hoje tenho mania de ir com camisa comprida porque tinha de esconder tudo antes. A arquibancada, graças a algumas mulheres, evoluiu bastante. Hoje uma menina vai sozinha ao estádio", disse.

"O movimento, apesar de ser novo ainda, ganhou um respeito dentro da torcida. A gente procura ser muito justas nas pautas", completou

Elas querem mais exemplos

O grupo faz reuniões periódicas para discutir pautas e reunir cada vez mais torcedoras. Isso ajuda também no processo de disseminação das ideias para mulheres que torcem para outras equipes. No último encontro, por exemplo, uma são-paulina acompanhou os debates.

"Nossa ideia é essa: que isso incentive outras torcedoras de outros times. A gente quer abrir para outras torcedoras e criar uma ligação. Não só dentro do Corinthians, mas dentro de outros clubes", finalizou.

Quem faz parte do movimento?

Divulgação
O grupo preza pela representatividade

 

Moderadoras
Analu Tomé
Denise Bonfim
Mônica Toledo
Stefani Costa

 

Colaboradoras
Eliana Frazão
Mariana Cordovani
Marlene Marta
Natália Trindade
Nayara Perrone
Renata Nogueira
Rita de Cássia Lima
Rosiane Siqueira
Thaís Kusuki

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