Depoimentos de sócios à polícia apontam fraude na eleição no Vasco

Bruno Braz, Leo Burlá, Pedro Ivo de Almeida e Rodrigo Mattos

Do UOL, no Rio de Janeiro

  • Reprodução

    Os votos a Eurico Miranda na polêmica urna 7 do Vasco estão sob suspeita

    Os votos a Eurico Miranda na polêmica urna 7 do Vasco estão sob suspeita

Três depoimentos de sócios da Urna 7 à Polícia Civil apontaram fraudes na eleição no Vasco que levaram à reeleição do atual presidente, Eurico Miranda. Entre outros pontos, afirmaram que foram abordados por pessoas ligadas a Eurico para virar sócios, que não pagaram mensalidades e que se associaram em datas diferentes das que constam na lista das urnas e ainda assim votaram. O UOL Esporte obteve a íntegra do documento.

Não serão revelados os nomes dos sócios depoentes para preservar suas identidades. Contatados, dois deles disseram não ter prestado depoimento, e não queriam se manifestar pelo sigilo de Justiça. O terceiro afirmou que não se manifestaria pelo sigilo de Justiça. 

Mas o UOL confirmou a veracidade do documento da Polícia Civil com mais de uma fonte. O registro de ocorrência está no número 218-01422/2017, lavrado pela Delegada Daniela Campos Terra, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática. A investigação é por infringir o artigo 299 do Código Penal, por falsidade ideológica. A assessoria da polícia informou que o caso já foi encaminhado para a Justiça.

Na terça-feira, dia 14 de novembro, os três sócios que estavam na lista dos 691 da urna 7 depuseram no inquérito para apurar fraudes na eleição. Constam nos depoimentos seus nomes, telefones e identidades, que batem com os da lista da Urna 7 conferidos pelo UOL. Dois deles negaram ter prestado depoimento em contato com a reportagem, um deles não quis confirmar o teor. Todos demonstraram medo e receio de falar do assunto.

A Urna 7 foi decisiva para determinar a eleição de Eurico Miranda no Vasco e está sub-judice por conta de suspeitas de fraudes nos cadastros dos eleitores. Sem a contabilização desta urna, o vencedor da votação será Julio Brant, de oposição.

No documento da Polícia Civil, um dos sócios afirmou: "Que em data não precisa, entre os meses de março e maio de 2017, foi procurado por Grilo que perguntou se o declarante gostaria de ser sócio do Vasco. Que para receber o título o declarante não precisaria pagar nada, apenas votar em Eurico Miranda, na data da eleição. Que além do declarante, outros familiares foram abordados por Grilo com a mesma proposta. Que Grilo estava com diversas fichas cadastradas e todas foram preenchidas no ato."

Em seguida, ele contou à polícia ter votado no dia da eleição: "Que Grilo afirmou que as mensalidades continuariam a ser pagas por sua equipe por um grande lapso temporal para não levantar suspeita." E afirmou que outros familiares votaram também, apesar de problemas no registro.

Em outro relato, um segundo sócio conta situação semelhante. Ele afirma ter sido abordado por Nilson Gonçalves, ligado a Eurico Miranda e diretor das divisões de base vascaínas. Seu relato é que isso ocorreu em evento em CT do Vasco.

"Que durante a confraternização Nilson chamou um grupo de participantes próximo a uma bancada e disse que tinha fichas de cadastro disponíveis para quem quisesse ser sócio do Vasco com direito a voto. Que em nenhum momento Nilson mencionou pagamento de mensalidades ou falou para votar em determinado candidato."

E prosseguiu no seu relato: "Que entre agosto e setembro de 2017, não sabendo precisar, o declarante foi até a residência de Nilson para retirar carteira de sócio". E completou: "Que desde o dia que preencheu a ficha cadastral até a data de hoje, o declarante nunca recebeu boleto de cobrança de mensalidade tampouco efetuou pagamento de qualquer quantia ao clube." O sócio afirma que nunca frequentou as dependências do Vasco e que só foi informado que tinha direito a votar. E foi votar.

Há ainda um relato de um terceiro sócio da urna 7. Esse também afirmou que fez sua associação por meio do funcionário Nilson Gonçalves. E relatou que sua data de admissão constou como anterior a verdadeira. Seu relato: "Que entre agosto de setembro de 2017, não sabendo precisar, o declarante foi até a residência de Nilson para retirar a carteira de sócio do clube com sua foto e constando número de matrícula xxx e admissão com data retroativa de 20/11/2015"

Em seguida, ele afirmou nunca ter recebido boleto de cobrança, nem ter frequentado o clube. Também não conseguiu comprar ingresso com desconto porque não constava como sócio, segundo informação da bilheteria. Mesmo assim, foi informado que teria direito a voto. O sócio informou ter ido a São Januário e votado na chapa de oposição de Julio Brant.

Há três ações na Justiça para discutir a validade da eleição do Vasco.

O Vasco soltou uma nota no fim da tarde respondendo as acusações:

"Como já dissemos, tudo tem limite. Passadas 24 horas desde a última manifestação, o Vasco da Gama vem a público novamente para pedir responsabilidade por parte dos meios de comunicação e adversários políticos, sem o que o único prejudicado será o clube.

Nos últimos dias, tem se repetido nos jornais um mesmo padrão: supostos sócios, falando em anonimato (portanto sem o peso da responsabilidade judicial de responderem pelo crime de calúnia) têm feito narrativas sobre supostas tentativas de aliciamento por parte da diretoria.

O próprio Vasco da Gama, o maior interessado na lisura do pleito, não foi procurado e nem tem conhecimento oficial dos fatos, o que revela parcialidade na ação de indivíduos que procuram primeiramente as autoridades sem cuidar de informar o clube, a comissão eleitoral ou o conselho deliberativo. Agora vão à delegacia informar fatos para colher um termo de declaração com o único objetivo de entregar aos jornais para criar uma aura de suspeição. A quem enganam?

Todos sabem que num colégio eleitoral limitado como um clube de futebol, o número de sócios votantes é uma preocupação de todas as chapas. É normal, portanto, que as chapas tentem fazer o maior número de sócios simpatizantes à sua causa. O Vasco da Gama não tem nenhuma responsabilidade nisso.

O Vasco não pode ser responsabilizado por nenhum desses movimentos que ocorrem por parte de todas as chapas. Há crime na obtenção de novos sócios? Não, desde que absolutamente dentro do que manda o Estatuto. Mas há crime na calúnia. Há crime na difamação. Há crime na tentativa torpe de travestir de ações ilegais o que na verdade são procedimentos lícitos, adotados por todos os envolvidos na disputa, dentro dos limites do estatuto do clube.

Tudo nas reportagens é feito para colocar uma capa de desconfiança, desonestidade e perigo onde há apenas uma disputa entre os que pretendem presidir o Vasco, o que é justo e lícito. Mas qual o interesse de jogar sobre a disputa uma aura de crime? A resposta é: querem criar uma onda fictícia na opinião pública com o objetivo de influenciar a Justiça.

Por isso, o Vasco da Gama, em nome de sua gigante tradição, vem a público pedir que cessem tais tentativas torpes e aparentemente orquestradas de difamação. Que se aguarde o resultado da decisão judicial nas ações em tramitação. E que se coloque a instituição acima de tudo e de todos."

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