Quem é o desconhecido zagueiro brasileiro que deve defender Polônia na Copa

Fábio Piperno

Colaboração para o UOL

  • Kacper Pempel/REUTERS

Um dos brasileiros que deverão disputar a Copa do Mundo da Rússia é praticamente desconhecido no Brasil. Há três anos e meio, o curitibano Thiago Cionek defende a seleção da Polônia, pátria de seus bisavós e país para onde migrou em 2008 após jogar nos modestos Cuiabá e CRB. Desde então, sempre atuou em clubes da Europa. Começou no polonês Jagiellonia Bialystok, teve meteórica passagem por Portugal e desde 2012 se fixou no futebol italiano, em equipes das Séries A e B.

Em 2014, em um jogo contra a poderosa Alemanha realizado um mês antes do início da Copa, estreou na seleção que iniciava trabalho de renovação e começou a pavimentar o sonho de disputar o Mundial que se aproxima. E de lá para cá, os resultados favoráveis o deixam mais perto de alcançar esse objetivo.

Para começar, o retrospecto contra os campeões mundiais é bem aceitável. O amistoso de estreia ficou no 0x0. Nas eliminatórias para a Eurocopa, cada seleção venceu um jogo. E na Euro, outro 0x0. Com isso, a Alemanha se tornou a adversária mais constante nos 15 jogos em que vestiu a camisa da seleção que tem como principal referência o craque Lewandowski. Mas até chegar lá, o caminho foi longo.

PZPN/Divulgação

Antes de ter a chance de se tornar um profissional da bola, Thiago jogava no Vila Hauer, clube de futebol amador de Curitiba. Disputou pela equipe campeonatos das categorias infantil e juvenil até ser observado em 2005 pelo ex-atacante Gaúcho, falecido ano passado. Na época, o ex-jogador de Flamengo e Palmeiras, entre outros, era dono do Cuiabá e acabou convidando o zagueiro para jogar no Mato Grosso. Thiago ficou no clube do Centro-Oeste até Gaúcho apresentá-lo a Ricardo Rocha, campeão do mundo em 1994, que então era executivo de futebol do CRB. Em 2008, após o estadual alagoano, um empresário italiano lhe apresentou oferta para jogar no Jagiellonia Bialystok, equipe intermediária na Polônia. O zagueiro aceitou sem titubear.

No novo país, o brasileiro encontrou uma equipe em ascensão e com bons jogadores. Um deles era o rápido atacante Kamil Grosicki, hoje no inglês Hull City e de quem é companheiro na seleção. Com eles, o Jagiellonia venceu a Copa do Polônia, façanha inédita na história do clube. Com o prestígio em alta, Thiago teve importante ajuda da torcida para fortalecer os vínculos com o país. "Os torcedores fizeram abaixo-assinado para que eu conseguisse o passaporte polonês de forma mais rápida. Lá, isso é complicado, mas deu certo".

Foi como cidadão polonês que Thiago seguiu para o futebol italiano na temporada 2012-13 para defender o Padova, que estava na Série B. Em seguida se transferiu para o Modena, da mesma divisão. No fim de 2013, o técnico Adam Nawalka  recebeu da federação local a missão de recuperar o status de outros tempos dos poloneses. Se nas décadas de 70 e 80 era comum ver a Polônia de Tomaszewski, Lato, Deyna e Boniek entre as melhores da Europa e até mesmo no pódio da Copa do Mundo, como nos terceiros lugares em 1974 e 1982, no momento da ascensão de Nawalka a seleção nacional não estava nem entre os 50 primeiros do ranking da Fifa. E com o novo técnico, a sorte de Cionek começava a mudar.

"Ele me conhecia do Campeonato Polonês e veio até a Itália observar jogos em que eu estava. Acabei sendo convocado. Estreei em Hamburgo contra a Alemanha. Eles não jogaram com toda a equipe titular. Era um time misto, mas com vários jogadores que participariam da conquista da Copa", lembra o zagueiro.

A convocação de um brasileiro à seleção não foi de início uma opção de aceitação consensual na Polônia, embora não fosse algo inédito. Na década anterior, o lateral esquerdo Roger Guerreiro havia defendido a Polônia. Mas aquele era um momento de reconstrução de uma equipe nacional que em outros tempos dava muito orgulho aos poloneses. "Eu era o único convocado nascido fora da Polônia. O público não queria estrangeiros, mas o fato de ser descendente de poloneses me ajudou".

No grupo atual, que levou a Polônia ao sexto lugar do ranking Fifa, o que garante ao país o direito de ser cabeça de chave na Copa do Mundo da Rússia, o destaque óbvio é para o atacante Robert Lewandowski, goleador do Bayern de Munique e agora recordista absoluto da história das eliminatórias europeias, com 16 gols em 10 jogos. "Ele é nosso ponto de referência e líder natural. Mas temos uma defesa sólida e um ataque rápido". Thiago tem razão. Na Euro-16, a Polônia se mostrou competitiva e caiu apenas nas quartas, quando perdeu nos pênaltis para Portugal, que uma semana depois arrebataria o título. Entre as caras mais conhecidas da atual safra, além de Lewandowski, estão o goleiro Fabianski (Swansea), o zagueiro Piszczek (Dortmund), o meio-campista Krychowiak (West Bromwich) e os atacantes Kuba (Wolfsburg) e Milik (Napoli).

Na Itália, Thiago está novamente na Série B. O Palermo foi rebaixado na temporada passada. Na luta para retornar à elite, está entre os primeiros da divisão de acesso. No país, ele vive com a noiva, uma polonesa chamada Justyna que é engenheira ambiental. Se deixar o país, prefere continuar na Europa. "Tenho vontade de jogar a Série A no Brasil, mas teria de acontecer uma proposta muito boa".

Torcedor do Paraná Clube, o zagueiro diz não ter planos de voltar no Brasil quando encerrar a carreira. "Ainda mais porque o (Jair) Bolsonaro dificilmente será eleito", afirma Cionek, fã declarado do deputado, sem partido, que pretende disputar a presidência.

Na Copa do Mundo, admite que gostaria de enfrentar a seleção de Tite na decisão. "Seria maravilhoso um Polônia x Brasil. Como torcedor, sempre fui daqueles de pintar a rua em época de Copa, fazer festa e torcer com bandeira. Mas agora daria meu melhor pela Polônia".

Se concretizar o sonho de decidir o mundial, Thiago Cionek terá ido mais longe que seu técnico. Na Copa do Mundo de 1978, o meio-campista Adam Nawalka estava em campo contra o Brasil de Zico, Cerezo, Rivellino e Leão na última rodada da segunda fase. Os brasileiros venceram por 3x1, mas acabaram tendo de se contentar com a disputa do terceiro lugar. Derrotada, a Polônia voltou para a casa como uma das oito melhores seleções daquela Copa do Mundo. Exatamente como está agora no ranking da Fifa.

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