Museu no Engenhão e rixa com Fla: situação prevê 2018 difícil no Botafogo

Bernardo Gentile

Do UOL, no Rio de Janeiro

  • Satiro Sodre/SSPress

    Ao lado de Carlos Eduardo Pereira, Nelson Mufarrej será candidato da situação

    Ao lado de Carlos Eduardo Pereira, Nelson Mufarrej será candidato da situação

Candidato da situação, Nelson Mufarrej está animado com a eleição presidencial no Botafogo. Aos poucos, porém, o entusiasmo vai diminuindo ao comentar os problemas que terá pela frente caso seja eleito para o triênio 2018, 2019 e 2020. O dinheiro reduzido é o que mais preocupa e novas receitas serão fundamentais para o andamento do clube.

Além disso, algumas propostas despontam. Ele, por exemplo, pretende tornar o Nilton Santos ativo mesmo em dias que não ocorra jogos. Para isso, ele quer criar bares e restaurantes, museu e até uma academia para atender moradores do entorno. No que depender de Muffarrej, a péssima relação com o Flamengo não deverá ser resolvida: "Meu compromisso é com o Botafogo", disse ao UOL Esportes.

Veja a entrevista completa:

UOL Esporte: Como você vê o mandato do Carlos Eduardo Pereira nos últimos três anos?
Nelson Mufarrej: Primeiro lugar que, quando assumimos, olhamos um para a cara do outro e dissemos: "E agora?". No dia seguinte encontramos um Botafogo sem nada. Não tinha um tostão, um talão de cheque, não tinha nada. Estava zerado. Não houve uma transição. Caso percamos na eleição, faremos uma transição para ajudar o vencedor. Não tivemos isso. Sabíamos, porém, que teríamos trabalho pela frente. Não estava mais no Ato Trabalhista, encargos devidos, mandou jogadores embora e ainda torcíamos contra o segundo rebaixamento. Tivemos que pagar o Timemania e conseguimos voltar ao Ato. Se não fosse isso o Botafogo hoje estaria fechado. O dinheiro era todo penhorado. Fomos na Globo e disseram que nada poderiam fazer e então conseguimos voltar ao Ato.

Além disso tinha que montar um elenco que contava apenas com cinco jogadores. Começamos pela diretoria com Antônio Lopes, Carlos Aberto Torres e o técnico René Simões. Foi o ponto de partida até conquistarmos o título, voltar à Série B e disputar novamente a Libertadores. Nosso elenco é pequeno e o Jair fez uma estrutura muito bem feita. Honramos a camisa.

Resumindo, foi uma administração altamente elogiável da qual tenho muito orgulho de fazer parte. O Carlos Eduardo sempre procurou muito que eu participasse. Pra mim não é novidade. São três anos de correria. Ele me chama de copresidente, assim como ele será o meu copresidente. Sempre me deu muito prestígio, muito participativo. Trabalhávamos juntos. Não estou no Botafogo há pouco tempo. Meu pai foi vice-presidente finanças em 1963. E tornei sócio em 1964. Fui diversas vezes conselheiro até chegar ao conselho fiscal e vice-presidência geral. Considero um aprendizado e que estou pronto. Acima de tudo, o último mandato resgatou a identificação com o Botafogo.

UOL Esporte: Você foi presidente do conselho fiscal do primeiro mandato do Maurício Assumpção e, três anos depois, como vice-presidente do Carlos Eduardo, principal oposição na oportunidade. O que motivou essa mudança?
Nelson Mufarrej: Foi bom porque eu queria participar. Fui eleito pelos conselheiros para ser na época presidente do conselho fiscal e foi tido um dos melhores, dito por quem participava. No fim do primeiro mandato, achei que não deveria seguir. Fui convidado, mas achei que não corria da forma que eu achava. Sai sem brigas, mas segui como conselheiro. Fui contra várias propostas e agi como oposição nas reuniões. Foi ali que conheci o Carlos Eduardo e o Mais Botafogo. Dizem que é um grupo fechado, mas não é. Quem quer conhecer o grupo, perceberá que tem um programa e ele vem de 2010, quando surgiu. Seguimos esse programa com objetivo de reconstruir o Botafogo. É normal que o último ano seja analisado pelo novo conselho fiscal. Me acusam de não ver contrato da Guaraviton. Não vi porque estava preocupado com outras coisas como a obra do Mourisco, onde a Fogo de Chão entrou.

UOL Esporte: Quais a principal proposta caso eleito?
Nelson Mufarrej: Temos alguns pilares. A primeira e mais importante é o prosseguimento e consolidação da reconstrução do Botafogo. Isso começou em 2014, com risco do controle orçamentário, com responsabilidade fiscal e gestão transparente. Três itens muito importantes. Controle orçamentário não existia, implementamos em 2015. Era um orçamento aprovado, mas não cumprido. Hoje, não. O orçamento e cumprido. Não pode sair. A responsabilidade fiscal também é rígida. Não podemos deixar nada em atraso. E essa gestão transparente, tem tudo no site e cada responsável responde sobre qualquer dúvida. Temos outros projetos para o esporte olímpico. É muito importante para o Botafogo. Projeto de incentivo olímpico. Conseguimos para o basquete. Com isso poderemos deslocar do orçamento do basquete para outras áreas, como o futebol. Projeto de incentivos para remo, vôlei e waterpolo e categoria sub-20, que também se enquadra.

UOL Esporte: Como se deu a compra do centro de treinamento e o relacionamento com os irmãos Moreira Salles?
Nelson Mufarrej: Agpra temos nosso centro de treinamento que fará a integração da base com os profissionais. O CT foi algo muito bom para o Botafogo. Agradecemos à família Moreira Salles. Eles só nos concederam esse privilégio porque o trabalho feito pelo Manoel Renha, diretor da base, é algo muito bem feito. E também, claro, a seriedade do Carlos Eduardo, que se mostrou confiável, com credibilidade tremenda. Não temos um convício diário com eles, mas perceberam que aqui tem pessoas sérias e que poderiam dar esse passo para ajudar o Botafogo. Isso mostra nossa credibilidade. Os campos do CT estão sendo nivelados. Os irmãos, além da compra do terreno, também deram mais R$ 5 milhões para obras necessárias. Está em andamento.

UOL Esporte: O que será feito com a sede social?
Nelson Mufarrej: Temos que dar mais atenção à sede social. Já foi dado, mas podemos melhorar. Encontramos a sede com piscina em reforma, com mesas sem barracas. Hoje está tudo certinho, com barracas, piscina funcionando. Restaurante já funciona bem melhor que antes. Mas é claro que podemos melhorar. O sócio precisa dessas melhorias. Todos estão ansiosos com o que será feito da sede com compra do CT. A melhor maneira para se saber o que fazer é realizar uma pesquisa junto aos sócios assim que formos eleitos. Sabemos de antemão que a academia que era utilizada pelos jogadores, assim que ficar totalmente desativada, será destinada para os sócios. Eles querem isso. Querem também um espaço de beleza. Corte de cabelo, manicure, enfim. São coisas que vão incrementar a sede.

UOL Esporte: E o campo?
Nelson Mufarrej: O campo entrará também nessa pesquisa. Saber o que o sócio deseja. Não adianta, por exemplo, eu fazer a academia se ninguém quer. Não vou acabar com o campo por desejo próprio. Quero ver o que os sócios querem. Uma enquete séria que todos que queriam possam participar. Precisa ser feito de maneira correta. Tudo vai depender dos sócios.

Vitor Silva/SSPress/Botafogo
Mufarrej era considerado co presidente por Carlos Eduardo Pereira no Botafogo

UOL Esporte: Com anda a busca por novas receitas?
Nelson Mufarrej: É um ponto muito importante. Precisamos de novos parceiros e isso já está sendo feito. Há um mês fizemos um meeting de negócios para tomar mais contato com a marca Botafogo. Foi um sucesso e já estamos tendo o retorno disso tudo. Esperamos que em 2018 tenhamos novos parceiros. Estamos buscando também um banco para parceria com relação ao fundo de investimento. Isso já existe. E cria-se um "fundo Botafogo". O torcedor que quer investir vai lá e aplica o dinheiro. A taxa de manutenção é revertida para o clube. Está sendo negociado. Pode ser com a Caixa, vamos ver.

UOL Esporte: Os esportes olímpicos são autossustentáveis?
Nelson Mufarrej: Não. Ainda não. O projeto do basquete vai se tornar quase autossustentável. O Remo também. Depende também do projeto ser aprovado e como será aprovado. O objetivo é que seja tudo autossustentável. Isso aliviaria essa quantia para investir no futebol, o que vemos como fundamental. Nosso orçamento é muito rígido e 2018 será mais ainda. Precisamos aliviar as contas com esses projetos incentivados. Alivia e canaliza para o futebol.

UOL Esporte: Você e o Carlos Eduardo se orgulham de serem amadores. Isso tem sido atacado pela oposição...
Nelson Mufarrej: O candidato da oposição [Marcelo Guimarães] esqueceu de uma coisa. Aqui tem um estatuto e que tem que ser respeitado. Não adianta querer trazer pessoas remuneradas, dando a entender que não temos esses funcionários. Temos. São diretores que são remunerados. Os vice-presidentes, que ele chama de voluntários, esses não são remunerados. Para tirar essas pessoas, precisa de uma reforma estatutária. Então fica claro que isso é meramente por conta do momento político. Ele entrou no Botafogo em 2010, quando era empregado remunerado do clube. E vem falar de tradição alvinegra? Nunca participou de um Conselho Deliberativo. Nem das reuniões. São reuniões abertas aos sócios, mas ele nunca se interessou. Não vi nenhum conteúdo nas propostas dele. Eu também sinto orgulho de ser amador. Amador, mas cercado de excelentes profissionais remunerados. Profissionais do melhor naipe possível. O Anderson [Simões, vice-presidente de estádios], por exemplo, é um voluntário. E que trabalho ele fez no Nilton Santos. Tornou o estádio na nossa casa. Nas mãos do candidato era azul, com vermelho, parecia um arco-íris. Hoje o botafoguense tem casa.

UOL Esporte: Quais os projetos para o Nilton Santos [Engenhão]?
Nelson Mufarrej: Já estamos em contato com a Prefeitura para abrir o estádio às 10h já no Carioca. Queremos levar a família ao estádio. Até mesmo no dia que não tiver jogos, queremos o Nilton Santos ativo. Vão ter brinquedos, lugares para fazer um lanche, almoçar. Está sendo providenciado. Além disso um museu sensacional, que contará a história do Botafogo e do Brasil, que se misturam. Isso tudo será muito importante, mas depende de uma autorização do prefeito. Será na estação, que precisará passar por reforma e fará parte do terreno do estádio. Queremos fazer uma academia para atender a comunidade do entorno. Nilton Santos está se tornando uma referência muito grande. Precisa de ideias práticas, objetivas.

UOL Esporte: O dinheiro da Globo é fundamental para o Botafogo?
Nelson Mufarrej: É fundamental para todos os clubes do Brasil. 

UOL Esporte: O atual mandato se beneficiou das luvas da renovação com a Globo. Como será o próximo triênio, sem o dinheiro extra?
Nelson Mufarrej: Esse ano de 2018 será muito difícil. Não só para o Botafogo, mas todos os clubes, que também receberam esse adiantamento. Todos foram remunerados dessa maneira para assinar contrato a partir de 2019. Então próximo ano será muito difícil. Os clubes vão cortar gastos. As barcas, como dizem, deixarão os clubes cheias. Além do mais, é ano de eleição no Brasil. Terá dificuldade em vários sentidos. Está todo mundo olhando, não terá mais Lava-Jato, nada disso não. É preciso entrar na trilha direitinho. Esperamos com ajuda de Deus que vamos conseguir superar e fazer um time. Vamos manter espinha dorsal e fazer contratações pontuais.

UOL Esporte: Vai tentar uma nova renovação com a Globo para ter novas luvas?
Nelson Mufarrej: Contrato vai até 2024 e não podemos antecipar dinheiro de 2027. O contrato foi feito e com muito cuidado, passando pelo Conselho Deliberativo.

UOL Esporte: O Carlos Eduardo Pereira manteve uma relação difícil com o Flamengo. Isso poderá ser ajustado na sua gestão?
Nelson Mufarrej: Minha resposta é a seguinte: minha relação é com o Botafogo. Ponto. Não vamos viver de hipóteses. Minha relação é com o Botafogo.

UOL Esporte: Qual será a participação do Carlos Eduardo Pereira no próximo mandato?
Nelson Mufarrej: Ele queria descansar, né? [risos] Mas já falei para ele que não terá descanso. Eu fui copresidente dele e ele será o meu. Nos damos muito bem. Só vai mudar a caneta. Evidentemente o diálogo que temos é franco e honesto. Isso aconteceu na dele e vai acontecer na minha. Ninguém acredita, mas um é conselheiro do outro. Alguns momentos eu via que não era para caminhar para tal lado eu chegava e falava. Vivemos para o bem do Botafogo. Está junto com ele. Ele pode não aceitar algumas coisas, mas me posicionei. Essa intimidade a gente tem.

UOL Esporte: Como vai ser a estrutura do futebol?
Nelson Mufarrej: A última palavra é sempre do presidente. Evidentemente que essa estrutura da comissão técnica funciona com muita conversa. As vezes tem alguma situação mais delicada. No caso do Bruno Silva fizeram algumas gozações comigo por estar ao lado do presidente e não ter falado nada. Isso é óbvio. Vou chegar para o presidente e dizer que quem vai falar sou eu? Existe uma hierarquia e ela deve ser respeitada. Pretendo manter toda a comissão técnica. Jair [Ventura] tem contrato até fim de 2018, mas pretendo que tenha até 2020. Quero renovar. O técnico é importante para manter a estrutura do futebol. Ter uma sequência. Agora, precisa ver se ele quer ficar com a gente também. As vezes tem uma proposta melhor e não há nada que possamos fazer. Futebol com os pés no chão.

UOL Esporte: Clube sem dinheiro e com 2018 ainda mais difícil. Como serão as contratações?
Nelson Mufarrej: Tiro certo e pontuais. Acreditamos muito na base, no trabalho do Manoel Renha. Ainda mais agora com o centro de treinamento que integrará tudo.

UOL Esporte: Presidente é um cargo não remunerado. Como você se sustentará caso eleito?
Nelson Mufarrej: Eu sou funcionário aposentado do Tribunal de Contas do Estado. Além disso, tenho um escritório de perícia judicial. Sou advogado, economista e curso especializado em várias áreas. Assistente técnico de vários escritórios de renome na área trabalhista e civil. Tenho uma equipe montada e que está ciente de tudo isso. Hoje com o celular é possível fazer de tudo um pouco. Se deu nesses últimos três anos, dará nos próximos. E tenho a ajuda do meu copresidente Carlos Eduardo também.

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