Anjo da guarda de Guardiola: conheça quem é o "líder" do vestiário do City

Caio Carrieri

Colaboração para o UOL, em Manchester (ING)

  • Facebook/Reprodução

    Manel Estiarte (segundo da dir. para esq.) é tido por Guardiola como seu anjo da guarda

    Manel Estiarte (segundo da dir. para esq.) é tido por Guardiola como seu anjo da guarda

O momento era outro. Josep Guardiola estava sob pressão. Era meados de outubro de 2016, e o treinador tentava explicar, na luxuosa sala de imprensa do City Football Academy, por que o Manchester City não vencia há seis partidas, depois de iniciar a temporada, a primeira na Inglaterra do multicampeão, com 11 vitórias consecutivas.

A entrevista coletiva se estendia além do habitual. Pep estava ladeado na bancada por dois assessores de imprensa, um deles responsável por fazer a tradução para o inglês de perguntas e respostas em catalão, dada a presença em Manchester de repórteres da Catalunha desde que Guardiola decidiu trocar o Bayern de Munique pelo estádio Etihad. Ao perceber a conjuntura delicada, com o técnico exposto contra a parede, um homem se levanta, em silêncio, no auditório. A assessoria do City, então, encerra imediatamente a conversa do novato na Premier League com os jornalistas. Apenas com o olhar e sem pronunciar uma palavra sequer, lá estava ele para estender a mão a Pep mais uma vez: Manel Estiarte, seu braço direito desde que o técnico do Barcelona B assumiu a equipe principal em 2008 e empilhou 21 títulos no período.

"Não existiria Pep sem Manel", confidencia um amigo em comum de ambos.

Natural de Manresa, em terras catalãs, Estiarte, 56, é o escudo e a sombra do compatriota. Aonde Guardiola vai, Manel está ao alcance do amigo. "Desconheço se existem os anjos e, se esse for o caso, se servem para algo. Muito menos se há anjos da guarda. Mas se existem, você é um deles", escreveu o discípulo de Johan Cruyff no prefácio da autobiografia do amigo, do qual é 10 anos mais jovem.

Jamie Squire/Allsport/Getty Images
Manel Estiarte é uma lenda no polo aquático da Espanha e foi campeão olímpico

Manel Estiarte nunca jogou futebol, mas virou um "monstro de vestiário", como pessoas próximas se referem à experiência dele no ambiente esportivo, ao ser craque em outra modalidade: o polo aquático. Com 1561 gols em 578 jogos e seis Olimpíadas disputadas pela seleção da Espanha, ele é considerado uma lenda na modalidade. Foi escolhido o melhor do mundo em sete temporadas seguidas, entre 1986 e 1992, ano da sua maior frustração na carreira.

Nos Jogos de Barcelona, enquanto Guardiola conquistou o ouro no futebol, o capitão Estiarte amargou a prata diante da Itália depois de seis prorrogações. O evento que começou com os dois desfilando sorridentes lado a lado na cerimônia de abertura no Estádio de Montjïc terminou em lágrimas de Manel nas piscinas de Bernat Picornell, com amigos e familiares presentes. A redenção pela medalha dourada aconteceu quatro anos depois, em Atlanta, mas o revés na edição anterior ficou marcado – por ser no quintal de casa e pela história de vida dele, cujo caráter e personalidade passam muito por um capítulo trágico na família.

Caçula de três irmãos, Estiarte tomou gosto pelas águas por influência do primogênito Albert, também atleta de polo aquático e com quem compartilhou o quarto na infância. Rosa, a irmã do meio, representou a equipe de natação da Espanha nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976. Em 8 abril de 1985, ela se suicidou na frente de Manel, ao se jogar do quarto andar da casa da família.

Uma foto em preto e branco dos três na adolescência – Albert, Rosa e Manel – decora uma parede do vestiário do Manchester City ao lado de imagens dos astros do elenco com as pessoas amadas (veja imagem no tweet abaixo, postado pelo irmão de Manel).

 

Guardiola raramente entra no vestiário

A tragédia familiar e a vivência de décadas no esporte, entre glórias e fracassos, moldaram a personalidade do homem de confiança do treinador mais badalado da era moderna do futebol. A Manel não cabe debates de sistemas táticos com Pep. Com intuição apurada, o "anjo da guarda" atua fora de campo, na gestão do grupo. Nada – absolutamente nada – chega ao vestiário do City sem o crivo do "Maradona das águas".

Enquanto Guardiola raramente adentra este ambiente sagrado para os atletas, Estiarte transita com liberdade por ali. A longa trajetória no esporte e o traquejo para lidar com os jogadores resultam em confiança. "Respeitamos a história que ele tem e tudo o que conquistou", admite o goleiro Ederson ao UOL Esporte. "Tem nosso carinho e respeito e serve de inspiração para nós". Gabriel Jesus caiu nas graças do assistente pelo comportamento e grande dose de alegria que acrescentou ao dia a dia da equipe.

Pelo auxiliar passam desde pedidos de entrevista até ações de marketing de patrocinadores do Manchester City com os jogadores. Se Estiarte avalia que não é o momento para ativações comerciais, nem os milhões de libras investidos pelos parceiros do clube o demovem da ideia. "O acesso aos atletas nunca foi tão restrito", confidencia uma pessoa do clube.

Nos jogos, Manel é o único dos assistentes da comissão técnica a não vestir o uniforme do Manchester City. Longilíneo e elegante, aparece sempre muito bem vestido na beira do gramado, já no aquecimento. Cumprimenta um por um dos jogadores na volta rápida para o vestiário antes do apito inicial. Após os 90 minutos, lá está ele novamente na boca do túnel, para manter a relação humana, tão valorizada por Guardiola na convivência com o plantel.

 

Quando a bola rola, ele se posiciona nas cadeiras. Com o sangue de atleta correndo pelas veias, torce com muita paixão. "Quem se senta ao lado dele sofre", revela um amigo. "Por não poder atrair a atenção com reações afloradas, muitas vezes ele desconta o desejo pela vitória em quem está ao seu lado, com chutes e beliscões fora do alcance das câmeras".

Assim como Guardiola, Estiarte reside na região central de Manchester. Diferentemente do treinador, no entanto, ele mora sozinho, já que a esposa vive em Pescara, na Itália, onde o casal se conheceu quando ele atuava pelo Pescara Pallanuoto.

Carl Recine/Reuters
Guardiola deixa a função de cuidar do vestiário do clube para seu fiel escudeiro

"A parceria entre os dois é histórica", analisa Daniel Alves, campeão de tudo com a dupla no Barcelona. "Conquistaram muitas coisas não só no futebol como na vida. A lealdade define essa relação de amizade".

É o braço direito quem toma a frente de situações delicadas, para proteger o comandante e os jogadores de conflitos externos. "Em Barcelona se dizia que Manel protege Pep dele mesmo", revela um amigo íntimo da dupla.

Blindado, o Manchester City vive fase impecável, com a melhor campanha da história na liderança isolada da Premier League (37 pontos em 13 rodadas). O anjo da guarda de Guardiola pode permanecer sentado.

Receba notícias pelo Facebook Messenger

Quer receber notícias de esporte de graça pelo Facebook Messenger?
Clique aqui e siga as instruções.

UOL Cursos Online

Todos os cursos