Depoente do caso Fifa reconhece Marin e confirma propina a ele e a Del Nero

Eduardo Graça

Colaboração para o UOL, em Nova York (EUA)

  • Eduardo Graça/UOL

    José Maria Marin chega a tribunal em Nova York para seu julgamento

    José Maria Marin chega a tribunal em Nova York para seu julgamento

Considerada testemunha-chave do julgamento que investiga casos de corrupção da Fifa, Jose Eladio Rodriguez reconheceu José Maria Marin e confirmou o pagamento de propina ao ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O argentino, de 71 anos de idade, é apontado como um dos responsáveis pela coordenação dos pagamentos de gratificações da Torneos y Competencias (TyC) para os acusados.

Durante o julgamento, realizado na Suprema Corte do Brooklyn, em Nova York (EUA), Rodriguez reconheceu os três réus do processo, entre eles Marin, que se levantou para ser identificado pela testemunha. O argentino apontou o ex-presidente da CBF como beneficiário de esquema de propina.

Segundo Rodriguez, foram pagos US$ 600 mil (cerca de R$ 1,9 milhão) a Marin pelos direitos de transmissão da Copa América e da Copa Libertadores da América. Depois, foram pagos US$ 900 mil (cerca de R$ 2,9 milhões) a Marco Polo Del Nero, atual presidente da CBF, pelas competições.

Direitos de TV

De acordo com contratos apresentados pela promotoria, a T&T, uma offshore holandesa da TyC, pagou US$ 2,4 milhões à Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) pelos direitos de transmissão da Libertadores em 2011. Em 2013, este valor subiu para US$ 3,6 milhões, e ainda houve um adendo, de US$ 1,4 milhão, por conta, de acordo com Eladio, do incremento de pagamentos de propinas. Em determinado momento, o argentino responsável pela administração e tesouraria da T&T, em Buenos Aires, afirmou não saber quem era de fato presidente da CBF, se Marin ou Del Nero. "Sabia que um deles havia substituído o Ricardo Teixeira, mas nunca qual dos dois, pois eles sempre andavam juntos".

No Brasil, os direitos eram depois negociados pela TyC com a Rede Globo. De acordo com Eladio, a TyC criou uma offshore na Holanda (a T&T), exclusivamente para negociar os direitos com a Globo, que os comprava a preços muito mais altos - não revelados na Corte - do que os adquiridos pela TyC. Era possível pagar a propina aos dirigentes brasileiros, afirmou Eladio, justamente por meio da diferença dos valores.

Iluminados

A procuradoria apresentou ainda uma troca de e-mails entre o diretor da Torneos, e depois da T&T, Alejandro Burzaco, com Eladio, em que a testemunha falava da pressão feita pelos "brasileiros" (na Corte, Eladio diz que os "brasileiros", no caso, eram Del Nero e Marin) para receber a propina. Eladio escreve no e-mail que os bancos estavam se recusando a receber os depósitos da propina e que estava tentando falar há dias por telefone com um "Alejandro", ligado aos "brasileiros". A pedido da Procuradoria, ele identificou a foto de Alexandre da Silveira, que, segundo Eladio "é o assessor pessoal de Del Nero, que sempre andava com ele e Marin". Eladio também identificou foto do dono da Traffic, J. Hawilla, a pedido da procuradoria.

Os envios de e-mails para si mesmo e registros de movimentação bancária guardados por Rodriguez incluem referências a pagamentos anuais a "brasileiros", em 2013 e 2014, no valor de US$ 900 mil cada.

"Brasileiros, neste caso, é uma referência ao ex-presidente da CBF, Jose Maria Marin, e ao atual, Marco Polo del Nero", afirmou Eladio. Os registros aparecem nos e-mails enviados de duas contas diferentes do próprio Eladio, para "prestar contas aos diretores da T&T" e nos registros feitos pelo próprio de movimentação bancária da empresa.

A testemunha disse que, inicialmente, registrava as saídas em uma planilha de Excel, mas com "o aumento de fluxo" adquiriu um software especialmente para guardar as informações. A parte referente às propinas foi batizada de "Iluminados" e os montantes saíam de duas contas de bancos sediados na Suíça, inicialmente o Credit Suisse e depois o Julius Baer.

Os envios destacados pela procuradoria aos "brasileiros" se deram, respectivamente, nos dias 7/6/2013 e 28/5/2014, referentes ao suborno cobrado para a garantia de assinatura de contrato de cessão de direitos de transmissão da Copa America, da Copa Libertadores da América e da Copa Sul-Americana. 

Na parte da manhã, Rodriguez contou também detalhadamente casos de suborno a dirigentes sul-americanos para garantia dos direitos de cessão de transmissão de jogos de seleções do continente. 

Segundo Rodriguez, o esquema de pagamento incluía a empresa argentina Full Play, casas de câmbio argentinas em contas dos bancos Hapoalim e Chase em Nova York e na Suíça. A procuradoria mostrou documentos que mostravam ordens de depósitos que, segundo o argentino, seriam transferidas para os beneficiários. 

Del Nero responde

No início da noite, Marco Polo del Nero rebateu em nota as declarações de Rodriguez:

"Com referência à citação feita pelo delator premiado José Eladio Rodriguez na Corte de Justiça do Brooklin, New York, EUA, o presidente da CBF, Marco Polo del Nero, vem a público esclarecer que nega, com indignação, que tivesse conhecimento de qualquer esquema de corrupção supostamente existente no âmbito das entidades do futebol mencionadas. As investigações levadas a efeito naquele país não apontaram qualquer prova de recebimento de vantagens de qualquer natureza por parte do atual presidente da CBF. Igualmente, o que fica claro é que os contratos sob suspeita não foram por ele assinados nem correspondem ao período de sua gestão na presidência da CBF. Esclarece, ainda, que jamais foi membro do Comitê Executivo da Conmebol, mostrando-se também falsa essa informação.

Cumpre assinalar, ainda, que o depoimento do Sr. José Eladio Rodriguez se mostra contraditório, confuso e inverossímil, eis que afirma sequer saber quem foi o presidente da CBF que substituiu Ricardo Teixeira à época dos fatos, certo que não foi Marco Polo Del Nero que o sucedeu, como o mundo sabe.
Por fim, reafirma que nunca participou, direta ou indiretamente, de qualquer irregularidade ao longo de todas atividades de representação que exerce ou tenha exercido".

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