Em conversa com Hawilla, Marin questionou propina maior a Ricardo Teixeira

James Cimino

Colaboração para o UOL, em Nova York (EUA)

  • Fábio Motta/Estadão Conteúdo

    Teixeira presidiu CBF entre 1989 e 2012 e recebeu propina até após o período, segundo delator

    Teixeira presidiu CBF entre 1989 e 2012 e recebeu propina até após o período, segundo delator

De acordo com uma conversa gravada a mando do FBI e exibida na Suprema Corte do Brooklyn, nos Estados Unidos, nesta terça-feira, o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, questionou J. Hawilla, ex-presidente da Traffic, sobre um acordo em que Ricardo Teixeira, também ex-presidente da CBF, receberia o dobro de propina do que ele e também o atual presidente da CBF, então vice, Marco Polo Del Nero. O diálogo entre Hawilla e Marin foi gravado em 30 de abril de 2014 durante um evento em Miami.

Durante a conversa, Hawilla questiona Marin se "é mesmo necessário dar R$ 1 milhão para o Ricardo (Teixeira)", e o então mandatário máximo da CBF responde: "Eu acho que pelo que já fizemos e estamos fazendo era para chegar pro nosso lado", em referência ao pagamento de propina aos dirigentes no contrato de cessão dos direitos de transmissão da Copa do Brasil entre 2013 e 2022.

O acerto original de pagamento de propina, realizado entre a Traffic e a Klefer, empresa de propriedade de Kleber Leite, ex-presidente do Flamengo, era de R$ 1,5 milhão em três partes iguais para Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero. Porém, o valor foi reajustado. Segundo disse Leite a Hawilla em outra conversa gravada, o acordo de R$ 1,5 milhão era do passado, quando a propina era paga somente a Ricardo Teixeira.

O dono da Klefer, que tinha sociedade com a Traffic na Copa do Brasil, se irrita com as perguntas em determinado momento da gravação: "Hawilla, me desculpa, presta atenção. Com base na nossa amizade, eu passei a vida toda contigo. E eu confio em você completamente, Nunca te questionei nada. Mas você está sendo um tremendo cuzão! Como você desconfia de mim?".

Hawilla nega estar desconfiando dele e questiona: "Klebinho, o Marin e o Marco Polo sabem que você está pagando mais para o Ricardo?" Ele responde "Claro que sim!" Em seguida afirma desconhecer o acordo de partilha dos R$ 2 milhões. "Como eles dividem eu não tenho a menor ideia. Isso foi decidido antes e eles não reclamaram".

Comissão da Nike para pagar propina

Ainda nesta terça-feira, os representantes legais de Manuel Burga, ex-presidente da Federação Peruana e também julgado nos Estados Unidos, ouviram J. Hawilla. Um dos questionamentos foi a respeito de um parágrafo no termo de cooperação que mencionava Coca Cola, Pepsi e Nike. O ex-presidente da Traffic disse que não se lembrava do motivo, mas voltou a ele durante a acareação da promotoria, quando disse que usava dinheiro de comissão que recebia da Nike pelas cotas de patrocínio para pagar propina a Ricardo Teixeira. Ele não especificou valores ou datas dos pagamentos que envolviam a empresa de material esportivo.

Suposto calote de Kleber Leite

Ainda em conversa gravada, o ex-presidente da Traffic questiona Marin se um pagamento de US$ 900 mil relativo à Copa do Brasil já havia sido feito por Kleber Leite, com quem sua empresa dividia os direitos da Copa do Brasil de 2013. Marin responde: "Pelo que eu saiba, não." Hawilla pergunta se Marin quer que ele cheque, e ele responde que sim. "Eu vou ver com o Marco Polo também."

Marin também diz no começo da conversa que "as negociações da Copa da América com os Jinkins e o Alejandro [Burzaco] "estavam muito boas" e que ele "estava acertando tudo" sobre a Copa do Brasil.

As conversas de Hawilla com Marin, Kleber Leite e ainda com seu funcionário Flavio Grecco Guimarães, que foram exibidas na corte, foram gravadas entre 24 de março e 30 de abril de 2014. Em uma delas, Guimarães explica que foi acordado que a Traffic pagasse R$ 1 milhão e a Klefer mais R$ 1 milhão, a serem divididos entre os três dirigentes. Hawilla então pede que Guimarães lhe envie os comprovantes das transações.

Uma delas foi feita em 3 de março de 2014, do Delta Bank, nos Estados Unidos, para o Itaú, no Brasil, no valor R$ 1,035 milhão. Em um e-mail exibido pela promotoria, também são descritos um depósito no valor de US$ 434.783, outro de R$ 800 mil e mais um pagamento de US$ 200 mil "em cash e sem recibo", todos referentes a propinas recebidas pelo trio.

Empresa "derreteu", diz Hawilla

Após ser interrogado pela promotoria, J. Hawilla começou a passar por acareação por parte de um dos advogados de José Maria Marin, que tentava invalidar seu acordo de cooperação, tentando demonstrar que a testemunha mentiu para o júri quando afirmou ter parado de pagar propinas em 2011, quando em junho de 2013 ele efetuou dois pagamentos de US$ 5 milhões em propinas relativas à Copa América.

No entanto, a promotoria aceitou o acordo mesmo sabendo que ele continuara com a conduta criminosa, mesmo depois de já ter sido pego pelos agentes do FBI. Hawilla, no entanto, ainda pode pegar até 80 anos de prisão por quatro crimes: conspiração, lavagem de dinheiro, fraude eletrônica e obstrução de Justiça. 

Além disso, ele deve ao governo americano US$ 151 milhões relativos aos lucros obtidos por suas empresas nos Estados Unidos durante o período em que exercera atividades ilícitas. Até o momento pagou apenas US$ 45 milhões e disse durante o interrogatório que não sabe se poderá pagar o resto até dezembro de 2018, conforme acordado com o governo dos Estados Unidos. 

"Desde que esse caso foi divulgado na mídia, com grande repercussão de escândalo, minha empresa [a Traffic] que tinha grande valor de mercado passou a valer zero. Derreteu. Os bancos fecharam todas as portas e ficamos totalmente fora do sistema financeiro. Estamos tentando vender os ativos, os contratos dos eventos, mas em todos eles temos sócios. E eles estão se aproveitando da situação para dificultar a venda desses ativos. Além disso, a economia brasileira entrou em colapso...", disse Hawilla, que ainda é dono de duas afiliadas da TV Globo no interior de São Paulo .

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