Time boliviano faz escola no Brasil e "abre fronteira" em busca de talentos

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

"Tem meninos que chegam de cabeça baixa, porque lá fora acontece muito preconceito com eles. Aqui dentro eles logo se enturmam e interagem com as outras crianças. Aqui, mais do que em qualquer lugar, é todo mundo igual."

O depoimento é de Emerson Torres, treinador de futebol no mercado há mais de 15 anos. Nos últimos dois meses, o profissional está à frente de um projeto do tradicional clube boliviano Jorge Wilstermann - aquele mesmo que venceu o Palmeiras na fase de grupos e eliminou o Atlético-MG nas oitavas de final da Copa Libertadores deste ano. Em iniciativa pioneira, o time da Bolívia abriu uma escolinha de futebol no Brasil e escolheu a cidade de São Paulo para receber os meninos em testes, avaliações, treinos e competições.

Além do óbvio fundamento esportivo de formar jogadores no país para atuarem na Bolívia, o projeto Wilstermann Brasil tem uma missão social: acolher a comunidade boliviana em torno de um ideal nobre e comum. Marginalizada e, em sua maioria, subempregada em São Paulo, a população imigrante ou descendente de imigrantes do país vizinho é atendida pela escolinha de futebol. Além de jovens jogadores das categorias sub-12 a sub-19, o projeto ainda apoia uma instituição que tem fundamento solidário na assistência aos bolivianos carentes.

"Às vezes a comunidade imigrante da Bolívia não tem muito espaço na sociedade. Nós estamos dando", descreve Felipe Prado, funcionário do Jorge Wilstermann responsável pela coordenação do projeto no Brasil, ao UOL Esporte.

Raquel Arriola/UOL Esporte
Lucas é um dos "acolhidos" no projeto

Lucas Jair Soto, meia titular da categoria sub-15, é exemplo da força do projeto. Aos 15 anos, ele já tentou jogar no Nacional, mas foi dispensado depois de pouco tempo. Ele é brasileiro, mas tem pais nascidos na cidade boliviana de Cochabamba que vieram para São Paulo pouco antes de seu nascimento, em 2002. Eles trabalham como costureiros no bairro do Brás, zona central da cidade, enquanto o filho vive o sonho do futebol. E novas experiências de vida também.

"Eu conheci o projeto através de um amigo, mas não me interessei de cara. Na verdade eu tenho medo de não passar, não me acho muito bom, não tenho tanto essa confiança. Mas vim para ver o que daria, passei no teste e o pessoal está gostando. Estou feliz", descreve o garoto, que sorriu e acenou positivamente quando a reportagem questionou: depois de passar pela escolinha você está mais confiante em tentar a carreira no futebol?

Contexto social

Há divergências em relação ao número de imigrantes bolivianos que vivem em São Paulo. De acordo com o último Censo Demográfico do IBGE, disponibilizado em 2010, eram 17.960 pessoas nascidas na Bolívia habitando a capital. A questão é que os dados oficiais não condizem precisamente com a vivência da rotina da cidade e estimativas realizadas por entidades como o Ministério Público, o Consulado da Bolívia, a Pastoral dos Imigrantes ou órgãos não oficiais. Nestes outros cenários, a população imigrante varia entre 80 e 400 mil bolivianos, de forma regular ou não.

Outro número que mostra força é do Observatório de Migrações Internacionais, que aponta apenas 10.440 bolivianos com vínculos formais de trabalho em São Paulo. Segundo o IBGE, ainda, a população imigrante se divide em cerca de 45% trabalhando na confecção de artigos, vestuário e acessórios (a exemplo da família de Lucas, a jovem promessa do Jorge Wilstermann no Brasil), outra parte expressiva sem ocupação ou como ambulantes e apenas 6% em atividades qualificadas.

Gabriel Carneiro/UOL Esporte
Projeto aluga espaço de quadras no bairro do Bom Retiro para seus treinamentos

Além do contexto social e econômico conturbado da Bolívia, as pessoas migram porque o Brasil é um país sinônimo de oportunidades e população hospitaleira.

Mas nem sempre é assim.

A origem indígena de mais de 60% da população boliviana, as condições de trabalho na maioria das vezes rurais e a pouca instrução são fatores que dificultam a inserção no mercado formal de trabalho do Brasil. Em artigo publicado na Revista Florestan em 2015, os efeitos desse processo são explicados: "...se torna evidente a condição de intensa exploração de trabalho que sofrem os imigrantes bolivianos na cidade de São Paulo".

Subempregada e sem garantias sociais, a população imigrante ainda sofre com violência e marginalização social em São Paulo. Neste contexto é que nasce o Wilstermann Brasil, que tem atividades no bairro do Bom Retiro, local de concentração de bolivianos na capital.

Gabriel Carneiro/UOL Esporte
Luiz Fernando Vallentim é auxiliar-técnico no projeto. Na foto, orienta bola parada

"Temos muitos descendentes de bolivianos e também meninos que nasceram na Bolívia treinando com a gente. É um trabalho de alto rendimento, nenhum paga nada e hoje são entre 120 e 150 talentos que estamos formando e dando oportunidade. Ainda tem os meninos do ABCD Nossa Casa, na Rua dos Italianos, que trazemos para treinar como um trabalho social mesmo, sem o viés de formação de jogador", explica Felipe Prado, que antes da coordenação da escolinha atuava como observador do Jorge Wilstermann no Brasil.

Hoje, o clube conta com três jogadores nascidos no país (Alex Silva, o zagueiro que brilhou pelo São Paulo e já foi da seleção brasileira, além dos pouco conhecidos Carlinhos e Serginho). Os próximos ainda estão sendo preparados.

O filho da secretária

Prado conduz a escolinha há dois meses, mas sua relação com o Jorge Wilstermann é longa e improvável. Hoje aos 35 anos, ele descontou a frustração por não ter conseguido ser jogador profissional e foi trabalhar nos bastidores do futebol. A grande chance da carreira, porém, surgiu quase sem querer: sua mãe trabalhava como secretária de uma empresa administrada pelo cônsul do Brasil na Bolívia, Jaime Pedro Valdivia Almanza. Deste laço é que surgiu a relação.

Em 2014, o governo de La Paz decidiu realizar um torneio de categorias de base para atrair olhares e investimentos ao futebol local. A ideia era promover algo parecido com uma Copa Libertadores sub-17, mas que foi rebatizada de "Copa de Altura" e virou sub-16. A Bolívia se dispôs a pagar somente custos logísticos e queria receber o maior número possível de grandes clubes, principalmente do Brasil e da Argentina. O governador de La Paz pediu ajuda ao consulado brasileiro, que recorreu aos contatos e experiências do filho da secretária no futebol para viabilizar a participação de algum clube.

No fim, Corinthians e Palmeiras disputaram a Copa de Altura, o Corinthians foi campeão com Léo Santos, Léo Jabá e Pedrinho e Felipe Prado ganhou notoriedade com os bolivianos. A princípio, começou a trabalhar informalmente em logísticas de clubes para o Brasil e indicação de jogadores. Mais tarde, como observador técnico do Jorge Wilstermann enviando relatórios de desempenho de clubes brasileiros, como Palmeiras e Atlético-MG. Entre viagens para a Bolívia e períodos de permanência no Brasil conseguiu realizar cursos na CBF e se tornou, em 29 de setembro, oficialmente, funcionário do clube boliviano. No papel, a função é de observador e captador.

Reprodução/Facebook
Felipe Prado, ao centro, é quem conduz a escolinha do Jorge Wilstermann no Brasil

"Libertadores não tem limite de estrangeiros. Então eu posso levar quatro ou cinco moleques bons porque ao vendermos um deles já vale um ano de trabalho. Como foi com o Thomaz, vendido ao São Paulo durante nossa participação na Libertadores. O presidente (Grover Vargas) gostou da ideia, até porque o clube não tem escola de futebol nem na Bolívia, mas criamos as condições de um projeto no Brasil que vai revelar talentos. Os jogadores que temos no Brasil vão arrebentar no futebol da Bolívia", diz Felipe Prado.

Durante um curso de análise de desempenho ministrado pela CBF em São Paulo, Prado conheceu Emerson Torres, que havia trabalhado por dez anos nas categorias de base da Portuguesa e estava sem clube desde 2014. Os dois juntaram forças e estão à frente do projeto de alto rendimento, que ainda administra uma escolinha na Vila Maria - esta, porém, cobra dos alunos e não tem objetivo imediato de formação.

O futuro está em Minas Gerais

A escolinha do Jorge Wilstermann no Brasil participa neste mês de dezembro da Cruzeiro Internacional Cup, um torneio sub-15 organizado pelo Cruzeiro que recebe grandes clubes do país e mais duas forças internacionais (Red Bull Salzburg, da Áustria, e Universidad Católica, do Chile). A competição é acompanhada por times, analistas e dirigentes e é vista como uma vitrine para os jovens que treinam há menos de dois meses de forma regular.

Divulgação/Cruzeiro
"Mistão" participa de torneio do Cruzeiro

O elenco do Wilstermann para essa competição foi formado por dez jogadores da escolinha no Brasil (seis brasileiros e quatro bolivianos) e mais oito que vieram diretamente da Bolívia. Até pelo desentrosamento, até agora foram duas goleadas sofridas diante de Palmeiras e Internacional nas primeiras rodadas.

Além da categoria sub-15, o time sub-19 também tem desafios programados para as próximas semanas, especialmente amistosos com times que se preparam para a disputa da Copa São Paulo de Juniores, como o Ituano. Futuramente, o Wilstermann pleiteará vagas nos principais torneios de base do país.

"Acredito que vamos colher bons frutos. Pretendemos deixar a molecada em alto nível. Formar aqui e mandar para lá. No primeiro momento acho que acontece mais a parte social, de ter um impacto maior, do que o alto rendimento, que vamos atingir depois que participarmos de competições. Mas a parte social já estamos fazendo, e é muito importante", diz Emerson Torres, que comandará todas as categorias neste primeiro momento.

"Falei para o meu presidente que temos uma vitrine de shopping. Aqui no Brasil pode estar o futuro do Jorge Wilstermann", torce Felipe Prado.

No bairro do Bom Retiro o tempo não é mais de cabeças baixas.

Gabriel Carneiro/UOL Esporte
Projeto do clube boliviano no Brasil tem pelo menos três anos garantidos por contrato

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