Lucão diz que precisava sair do SP e revela "não" tricolor ao Corinthians

Marcus Alves

Colaboração para o UOL, em Estoril (Portugal)

  • divulgação/Estoril

Em Portugal, Lucão virou Lucas Cavalcante. E não foi apenas isso que mudou: atuando emprestado ao Estoril, clube comandado pelo fundo de investimentos TFM (ex-Traffic), se livrou da pressão que o perseguia no São Paulo, dono de seus direitos federativos, e hoje carrega sorriso no rosto, pode caminhar sem ser incomodado pelas ruas do novo país e se prepara para a chegada de sua primeira filha, Laura, prevista para maio de 2018.

Em fase final de recuperação de lesão, o defensor de 21 anos recebeu o UOL Esporte na última quinta-feira (30), em sua casa em um condomínio fechado e um pouco mais afastado do centro da cidade. Em entrevista exclusiva, ele deixou claro que não havia mais como seguir no Morumbi, revelou conversa frustrada com o Corinthians e pediu melhor tratamento aos garotos da base. Confira:

"Adaptação a Portugal
Cheguei em agosto, no finalzinho da janela, quando tudo se acertou, e, para mim, está sendo excelente. Qualidade de vida excepcional, acho que diferente do que tinha no Brasil, muitos jogos, muitas viagens, muita correria, não tinha muito tempo para ficar em casa, com a família. Aqui, não, consegue ter tempo para tudo, jogar, passear, descansar, passear. Acho que esse é o grande diferencial.

Rodeado por brasileiros no Estoril
Cara é como se eu estivesse no Brasil. Essa é a verdade. Nosso vestiário tem, se eu não me engano, oito brasileiros no time e fora os outros que são portugueses, grande maioria. A gente tem relação com o pessoal (da TFM, ex-Traffic) no dia a dia, cumprimento, conversa de algum assunto que seja do futebol ou fora do futebol, eles dão abertura para isso, e acho que é importante.

Para mim, foi uma surpresa porque não imaginava amanhã ou depois reencontrar e poder jogar com um monte de amigos que eu tinha antes e está sendo bacana demais poder reviver o que a gente tinha antes na seleção, até mesmo no São Paulo. Lucas Evangelista, inclusive, subi com ele no mesmo dia no São Paulo, eu, ele e o Diego Carlos, que está agora no Nantes, da França. O Abner joguei ao lado nas seleções de base e tantos outros.

Começo no Estoril
O time não estava passando por um momento muito bom. Foram dez jogos (com derrotas consecutivas), eu cheguei na metade deles, fiz cinco partidas como titular, estava muito bem individualmente e tive essa lesão na coxa. Acho que agora já passou, estou voltando a treinar e, na próxima semana, estarei em campo de novo.

Teve troca de treinador, a gente comenta que são coisas do futebol. Muita gente que está de fora não entende, mas é um time que tem muita qualidade e a posição que a gente está hoje na tabela a gente não merece, com todo respeito às outras equipes. E a gente chegou a comentar sobre isso porque estava todo mundo concentrado, mas faltava a bola entrar e não estava encaixando. Acredito que agora estamos melhor (após em empate com Marítimo, em 26/11), crescendo e não falta qualidade.

Ronny Santos - 18.mai.2017 / Folhapress
Diferença entre Brasil e Portugal
Senti um pouco nas primeiras semanas, o jogo é mais rápido, essa é a grande diferença. E taticamente também, no Brasil você tem um pouco mais de tempo para pensar em alguns momentos, a gente não joga com a linha tão alta quanto aqui. Às vezes, você está no meio-de-campo. No Brasil, não, você tem... Não mais facilidade, mas você joga um pouco mais recuado, não joga tão exposto e aqui, não, tem que estar o tempo todo ligado, aceso, acho que foi uma das coisas que tive que trabalhar mais, porém, agora a gente já se adaptou após os jogos que eu fiz.

Poderia ter ido parar no Porto antes
É complicado falar desse assunto porque todo mundo achou no momento de euforia por causa da Libertadores, Maicon vivendo bom momento no São Paulo e aí disseram... Surgiu o boato de que eu não iria aceitar (ir para o Porto) e que o Maicon teria de voltar para o Porto e eu ficar lá. Mentira. Mas, enfim, aconteceu isso tudo, não vou apontar aqui quem foi que fez, quem foi que falou, mas aconteceu e eu não tive tempo para explicar o meu lado, a minha situação e o que realmente aconteceu. Porque quando eu fui tentar falar já tinham falado "ah, você não quer ir", todo mundo queria que o Maicon ficasse por causa da Libertadores, mas a decisão não foi minha. Não fui eu quem disse "não, não vou para o Porto". Aconteceram coisas internas lá com a diretoria do São Paulo e isso resultou em não vir para cá, então, não foi uma decisão minha, mas dos dirigentes do São Paulo com os do Porto. No fim das contas, a culpa caiu para mim. Só que, assim, eu falar isso hoje, quem está de fora vai dizer que "ah, está falando isso hoje é fácil, mas por que não falou naquele momento?" Não tive oportunidade. Quando fui falar, já tinham dito o contrário. O futebol tem dessas coisas infelizmente.

Proposta de Juventus e Roma
Assim que estava terminando meu contrato, em 2013, faltavam quatro meses, e tive propostas da Roma e da Juventus para vir para fora, mas, conversando com minha família e meu empresário, decidi renovar meu contrato e seguir no São Paulo. Tinha 17 anos, perto de fazer 18, era muito novo e não me arrependo de ter permanecido, não. Foi muito bom para mim, em todos os sentidos, aprendi bastante, experiência que tenho hoje relacionada ao que tinha antes é muito grande.

Rubens Chiri/Site São Paulo
Alívio por fim de 'perseguição' no dia a dia
Não digo alívio, mas você poder sair com sua família, poder ir num restaurante... Por aqui, as pessoas às vezes te conhecem, sabem quem é você, mas te respeitam, te tratam como ser humano e isso no Brasil, não tinha. Não era eu, era o São Paulo como conjunto que não estava vivendo um bom momento. Até pouco tempo atrás, não estava (bem). No Brasil, quando não se vive bom momento, a gente não consegue nem sair de casa direito, a gente sabe a pressão que existe, a cobrança, é natural, normal, eu entendo isso. Mas aqui é totalmente diferente.

Período afastado no São Paulo
Foi um mês e meio mais ou menos. Para mim, foi muito complicado, cara. Ninguém quer passar por uma situação dessas, acho que todo jogador quer estar jogando, foi o que eu senti falta, queria estar jogando, vivendo ali o vestiário, o campo, enfim, as viagens e isso para mim fez muita falta. Por isso também, decidi vir para cá. Precisava também esquecer... Não esquecer, mas deixar um pouco o que passou para trás e viver um momento novo.

Faltou ser blindado
O Vitória chegou a me procurar, Grêmio, Santos, Corinthians... Dos meus companheiros e da comissão técnica, sempre tive total apoio, 100%, não tenho do que reclamar. E de parte da torcida também, acho que tive total apoio. Creio que faltou um pouco, sim, ser blindado, acho que o clube tomar um pouco a frente das coisas, tentar fazer diferente, foi algo que eu senti falta, que não aconteceu e, assim, hoje falo isso não querendo jogar na cara do São Paulo, nada disso, mas para que não aconteça com outros que estão lá.

Porque vai continuar subindo garotos da base e não quero que o que eu passei outros passem. E não fui o primeiro a passar por isso, teve Oscar, Casemiro, vários outros aí que, se colocar no papel, viveram o mesmo. Mas não fui o primeiro e torço e espero que eu seja o último, acho que é mais por isso que tenho comentado a respeito.

Conversa com Corinthians
Teve o interesse (do Corinthians), mas o São Paulo também disse que não iria liberar, aquela coisa toda, não teve prosseguimento em nada, era empréstimo e depois com opção de compra. Já com Carille agora, grande referência como treinador, foi zagueiro e entende muito bem da posição. Resultado foi o título brasileiro agora.

Multa de 20% no salário por dizer que iria embora
Na verdade, até falei isso, mas poderia ter recorrido (da multa), mas acho que era uma coisa que não valeria a pena, queria esquecer, mas foi sem cabimento aquela multa, todo mundo sabe disso. É complicado.

Novo Casemiro?
Teve o mesmo com o Casemiro, também outros jogadores como o Oscar e viraram grandes atletas. É como falei, não sou o primeiro a passar por isso no São Paulo, não sei como é nos outros clubes porque não convivi, não sei como é. Porque é complicado, cara, vai um pouco da cultura de às vezes não ter tanta paciência, não saber esperar, querer resultado imediato e, em muitos casos, acontece o que aconteceu com Oscar, Casemiro, comigo. Sei que tenho qualidade, não estava ali à toa, não joguei 100 partidas pelo profissional do São Paulo com 20 anos por acaso. Tenho tudo para amanhã ou depois estar como Oscar e Casemiro.

Fama de Cotia
Eles falam em outro mundo, mas em vez de as pessoas entenderem como outro mundo em relação à estrutura, qualidade, essas coisas, acham que tem que subir para o profissional, pronto, dar resultado. Craques como Neymar vão dar resultado com certeza, mas não são todos iguais ao Neymar, então, falta um pouco disso dentro do futebol brasileiro, principalmente dentro da cultura do São Paulo. Mas torço para que não aconteça com outros lá.

Muricy Ramalho e Osorio
Muricy foi o cara que, no momento em que a torcida dizia que eu era muito novo, para ir devagar, esperar, ele me colocou para jogar, joguei a temporada inteira e acho que isso surpreendeu muita gente porque ele acreditou e apostou em mim. Com certeza, vou ser sempre muito grato a ele pelos conselhos, tudo que falou. (A fama de que não gosta de trabalhar com garotos) Não corresponde. Muito pelo contrário, porque diziam que pegava no pé, cobrava jogador, isso é normal, ele me cobrava também quando tinha de fazer. Acho que essa fama dele

Osorio queria transformá-lo em novo Busquets
Sou grato ao Osorio também, que é um cara que entende de futebol, ele gosta, vive e entende muito. É um técnico muito diferenciado de todos que trabalhei. Joguei algumas partidas, bem poucas, três, quatro como volante, acreditava muito no meu potencial, via que tinha qualidade para jogar no meio. Ele dizia (risos)... Até brincou que, se ele tivesse permanecido no São Paulo, ele ia me fazer ser um novo Busquets, jogar naquela posição até pela altura, maior, mas que tinha técnica para jogar ali. Me sentia à vontade, foi o que eu sempre falei com ele, estarei sempre à sua disposição, não sei se vai dar certo, mas faço o que mandar, acho que ali na frente da zaga foi algo que deu certo. Foram poucos jogos porque ele saiu, entraram outros treinadores, mas, enfim, ele me deu total confiança. Talvez se ele não tivesse saído, estaria hoje como volante.

Voltaria para o São Paulo?
Cara, não sei se voltaria. O meu pensamento hoje é de que querer permanecer aqui. Pelo que tenho vivido nos últimos meses, tenho gostado muito, estou muito feliz aqui e não sei... Mas tenho contrato com o São Paulo, amanhã ou depois não sei o que pode se passar (risos), vai acontecer, mas a ideia, meu pensamento é permanecer aqui.

Família crescendo
Família vai crescer por aqui, minha esposa está grávida, quatro meses, barriga não cresceu muito ainda (risos). Provavelmente, vai nascer em maio, estarei por aqui ainda, vai ser uma portuguesinha, né? É menina, Laura.

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