Eleições no Corinthians: Ezabella quer time B, compliance e trabalho social

Dassler Marques e Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação

    Felipe Ezabella, do grupo Corinthians Grande, é um dos candidatos na eleição alvinegra

    Felipe Ezabella, do grupo Corinthians Grande, é um dos candidatos na eleição alvinegra

Diretor de Esportes Terrestres do Corinthians na gestão Andrés Sanchez, o advogado Felipe Ezabella, 39 anos, é um dos quatro candidatos à presidência do clube e desenhou um plano para concorrer ao cargo: entre as ideias, descritas em uma entrevista exclusiva ao UOL Esporte, estão a criação de uma equipe B, o estabelecimento de normas legais e regulamentares de administração em compliance e ainda trabalhos sociais. Todos os candidatos terão entrevistas publicadas nos próximos dias. 

Nessa conversa, Ezabella curiosamente cita "gente nova" e "transparência" para definir o modelo de gestão que pretende adotar caso seja eleito no começo de fevereiro. O grupo político dele, intitulado Corinthians Grande, é justamente formado em grande parte por membros do grupo Renovação & Transparência, que tem o candidato e ex-presidente Andrés Sanchez como maior liderança e governa o clube desde 2007. Fernando Alba e Fábio Carrenho são os candidatos a vice. 

Confira os principais trechos da entrevista com Ezabella:

Grupo dissidente da situação

Cada um teve um motivo. Não foi uma retirada em bloco. Saí em dezembro de 2009 da diretoria, continuei na Renovação & Transparência e fui eleito conselheiro. Na última eleição, em 2015, nem candidato fui. Onze pessoas saíram nesse outro momento. O grande rompimento foi o fim do chapão, quando [a política] passou a se organizar em pequenos grupos. Deixou de ser obrigado se organizar em dois grupos. A terceira chapa era muito difícil para as pessoas se sentirem livres de seguirem o que acham, e não os líderes de cada movimento. Desde então, começamos a nos organizar, aglutinamos corintianos de sonhos diferentes. Temos nos posicionado como uma terceira via. Nem tudo está errado, fomos campeões brasileiros duas vezes em três anos, mas tem cada vez mais coisas erradas.

Perfil de gestão e o marketing

Gente nova, com muita transparência, com muita governança. Pessoas ativas em questões relacionadas a modernidade, a certificações e a compliance. Vamos tentar implantar no clube o que se pode imaginar de melhor em governança e gestão. Um departamento de marketing bem ativo. Um grupo bem ativo para buscar receitas, porque o grande problema hoje é a falta de caixa. Temos dinheiro a receber de propriedades futuras, mas não temos para pagar coisas agora. São coisas que sufocam o clube e a gente precisa ter muito dinheiro novo. Há muita coisa terceirizada, são sempre agências que vão buscar as coisas. A curva de receitas do clube, salvo direitos de tevê e vendas de jogadores, mas patrocínios, receitas, licenciamentos, está caindo vertiginosamente. 

O que é marketing agressivo?

Thiago Ribeiro/AGIF
Camisa do Corinthians cheia de patrocínios: para candidato, marketing pode mais

Queremos um departamento que vá atrás, ligue, seja agressivo. O clube historicamente tem as pessoas sentadas esperando o telefone tocar, porque "o clube é grande e vão querer nos patrocinar". Podem ligar, mas podemos sair atrás, ir atrás das maiores empresas. Teremos uma diretoria de marketing nova, que é um dos problemas da gestão, com três diretores diferentes em três anos. O cara novo chega, quer entender as pessoas, o que pode ser feito, o que vai se prolongar.

Como aumentar receitas de patrocínio

Tem muita margem de crescimento, esse é um dos problemas que temos visto. As pessoas hoje não estão muito confortáveis. O Corinthians não é somente um outdoor, um espaço de mídia para anunciar e aparecer na Globo. As empresas querem associar a marca. O que o Corinthians agrega além do produto? Qual a imagem dele? As pessoas estão envolvidas em escândalo? O clube é bem visto? Tem ISO? Tem relatório de sustentabilidade? As empresas buscam isso. O clube não tem hoje em dia.

Separação da gestão do futebol

Identificamos no estudo, na consultoria que fizemos, que no organograma atual passa todo pelo presidente. A luz queimada no departamento de tênis passa pelo presidente. Na bocha, no futebol, em tudo. Queremos mais foco na governança, as pessoas rendem mais com foco no que estão fazendo. Tentaremos montar um novo organograma no futebol, para ter mais gente focada para pensar. O presidente, no fim das contas, receberá ainda a reclamação da lâmpada queimada, mas que ele tenha uma equipe e estrutura que tenham mais foco. O presidente vai ser uma eminência parda, vai mudar um diretor, mas não vai responder por tudo.

Como cumprir a ideia de se desenvolver a Zona Leste

Historicamente, na Europa, as torcidas das equipes se desenvolvem em torno da sede do clube. O estádio e a sede são áreas de grande foco. O Corinthians é diferente por ser uma entidade dentro do estado. Mas há o estádio em Itaquera, região populosa e de muitos corintianos, e temos obrigação moral e social de ajudar o desenvolvimento daquela área. Não fazemos nada para aquela região. Até começar o tour da Arena, a maioria da população nem conhecia o estádio. Uma das ações a serem facilmente feitas é pegar um raio de 5 quilômetros do estádio e do centro de treinamento, porque tem 90 áreas públicas de campo ou quadra e o clube não faz nada hoje em dia nisso.

As ações sociais

Nosso projeto novo é uma Oscip (Organização da sociedade civil com interesse público), uma Fundação Corinthians, para promover ações nessas áreas e envolver uma ação sistêmica, para canalizar projetos sociais, que não sejam tão pontuais quanto as ações que estão sendo feitas. Você cria uma Oscip 100% integral do clube, muda o CNPJ do clube, se enquadra dentro de regras que há para receber verbas incentivadas de empresas que investem em responsabilidade social com doações e cria uma política de inovação social.

Abrir a Arena

Bruno Teixeira/Corinthians
Torcida frequenta treino do Corinthians: se eleito, Ezabella quer tornar rotina

Dentro de ações sociais, fazer promoções para que os melhores alunos tenham acesso, um estímulo. O futebol feminino eventualmente pode fazer jogos no estádio com um ticket simbólico ou a doação de alimentos para que o estádio funcione mais vezes ao longo do ano e atraia as pessoas. Pensamos ações de forma sistêmica, ligadas. (...) Queremos abrir mais vezes o estádio em treinamentos. 

Corinthians B

O Corinthians precisa ter um time B e não emprestar jogadores para o Oeste, o Bragantino, a Ponte Preta. Um time B para a fase final de maturação de atletas que ainda não tenham tempo suficiente e desovar esses atletas depois da Copa São Paulo. Se tiver uma equipe competitiva na Copa, três ou quatro no máximo vão subir. E os demais? Tem que ter contrato com os caras, caso se destaquem na taça, para não correr o risco de perder. Coloca em time B, joga a Copa Paulista, joga a Copa do Brasil Sub-23, a Série D, Série C ou até a B. Não vai poder subir, mas já pode ir jogando em Itaquera.

Como ter receitas para isso?

Pega quantos jogadores adultos o Corinthians tem e não vamos emprestar mais, salvo um caso pontual. É uma forma também de receita. Hoje acontece no clube, "esse cara é bonzinho, mas não vai ser titular". Você dá a liberação, ele vai jogar na Série B, joga um Paulista e vai para um clube do Leste Europeu, dos Emirados Árabes.

Você fala em retirar poder dos agentes. Como?

Uma negociação dura e transparente que coloque o clube em primeiro lugar. Hoje em dia o clube fica refém de qualquer empresário. O empresário do Pablo falou cobras e lagartos, o clube fez certo, falou "tchau, vamos embora". Não tem problema ter empresário, não tem que evitar, mas ficar refém do mesmo empresário não é bom. 

Caso Caio Emerson

Não conheço o caso específico, o que o clube fez nesse período e o Fernando (Alba) tem vários casos. O clube não contratava com dinheiro da base de outros clubes. Sempre foi em parcerias, o jogador vem e você fica com 20%, fixava uma opção de compra do restante. Se não tem dinheiro, põe o cara para dentro e fixa os direitos. Deve ter trazido o jogador de graça. Se o menino não vira jogador, o clube não gastou nada. Se vira, tem opção de compra para executar.

NR.: Destaque da categoria sub-17 em 2016, o atacante Caio foi contratado na gestão de Fernando Alba, candidato a vice-presidente com Ezabella. Pelo acordo fechado, o Corinthians precisaria pagar R$ 1 milhão aos agentes dele no ano passado para adquirir direitos. Sem acordo, ele foi jogar no futebol espanhol. 

O que não pode mudar?

O que temos de diferença é o Centro de Treinamento. Virou uma blindagem, no sentido de que ninguém vai lá atrapalhar. É um centro de excelência, com Tite, Mano, Tite, depois Carille...uma sequência de trabalho extracampo interessante, com centro de inteligência, fisioterapia, uma semente que faz diferença grande. O São Paulo tinha nos anos 1990. O nosso está bem isoladinho lá, com todas as condições.

Comissão técnica

Daniel Vorley/AGIF
Sequência de Carille, que tem contrato por dois anos, é premissa

Alessandro e Carille seguem [em caso de vitória na eleição], não tem porque mudar. Carille é a figura que a gente imagina, de pessoa com bagagem prática e acadêmica. Um cara novo, que jogou, que está há oito anos no clube, que tem identidade com a nossa cultura de jogo, que tem as licenças da CBF. Não abrimos mão que seja uma pessoa antenada do que acontece no mundo.

"Resolver rápido a dívida do estádio". Como?

São dois problemas no estádio. De gerenciamento, de ter mais coisas acontecendo, de abrir o estacionamento, vender camarotes, abrir para shows menores. A gestão está aquém. Mesmo se o estádio estivesse quitado, seria deficitário. O problema do financiamento temos que encarar com firmeza e transparência. Mudar a mesa de negociação para São Paulo, se for o caso na Câmara Arbitral, com pessoas neutras conduzindo a conversa. O que vamos fazer é tirar a Odebrecht do negócio, não os queremos como parceiros. É uma empresa com 80 réus confessos na Lava Jato, não temos nada a ver com isso. Com a Caixa, é um financiamento, é se sentar sem alongar e com a Odebrecht ter uma conversa franca e dura. "Legal, obrigado", sabemos  quanto não se construiu, vamos ver nosso número e o deles. Temos as CIDs (certificados de incentivo ao desenvolvimento) que são nosso principal ativo e vamos resolver. Se fosse fácil já teria sido resolvido, mas vamos encarar de cabeça para resolver. 

O problema Omni

A Omni tem contrato até o fim de 2019, então ela tem data para acabar independente do esforço para se tirar ou não. Da mesma forma que ela já estava em 2007, já cuidava de catracas, e foi ampliando [a participação] através de novos contratos. Se ela já fez quatro ou cinco aditivos, não é possível não mudar a balança que é desfavorável ao clube. Se fala em rescisão, mas para isso há multas, há perdas e danos, tem que arrumar outra empresa que entre. O sistema funciona bem hoje. Estacionamento ela não opera e tem todos motivos para que não continue nisso.

NR.: Parceira do clube em bilheteria, estacionamento e operação da Arena, além do programa Fiel Torcedor, a Omni é criticada por conselheiros em razão de contratos que seriam desfavoráveis ao Corinthians. O atual presidente tentou, sem sucesso, renegociar esses termos. O acordo que acaba em 2019 é referente ao Fiel Torcedor. 

O problema SPR

Nosso departamento de marketing e comercial mais ativo precisa de formas de escoar produtos em lojas ou de maneira online. Uma loja online mais eficiente a gente precisa. Os lojistas reclamam que o site vende antes os lançamentos. Precisamos dar uma preferência aos lojistas. Eu não conheço o contrato da SPR, não sei o prazo e os valores, mas é fundamental tudo isso para a operação que queremos construir. Tem que repensar, ter outra coisa, precisamos dos lojistas para ter capilaridade. Eu já me reuni com alguns lojistas e eles reclamam da falta de produtos. 

Base foi território de escândalos na gestão atual

O que vai melhorar é mudar para o CT do Parque Ecológico e isso não vai dar acesso a mais ninguém, como é no clube. O segundo é muita transparência: o que vai fazer? Não posso dar garantias, mas vamos ter os profissionais mais qualificados possíveis, vamos colocar métricas na avaliação dos atletas para evitar contratações de jogadores vetados, vamos ter relatórios e acompanhar bem de perto. 

Dívida do clube cresceu com diretor do grupo de Ezabella

A redução da dívida entra em um contexto geral de um departamento com mais receitas. Se ver o gráfico de despesas do clube, o número aumentou, só alguns segmentos diminuíram. Tivemos uma equipe muito cara após o Mundial, com contratações caras, e isso teve impacto na folha de pagamento e nas despesas do clube. As receitas não acompanharam, em 2012 foi um recorde de receitas e o clube achou que seguiria aquela linha, aí foi a grande diferença. 

Vamos atacar com austeridade no clube e buscando receitas novas. A dívida infelizmente é essa e não tenho como falar que vou pagar toda a dívida, R$ 400 a R$ 500 milhões em três anos, para diminuir esse valor em três anos. Grande parte desse valor foi incluído no Profut, já tem um cronograma de pagamentos a se seguir obrigatoriamente. A tendência da dívida fiscal é diminuir e o restante são reclamações trabalhistas e empréstimos em bancos lançados no passivo. 

NR.: Raúl Correa da Silva, diretor financeiro entre 2008 e 2015, hoje integra o grupo de Ezabella. 

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