Schmeichel lembra Rivaldo carrasco, cita Taffarel e se encanta com Ederson

Caio Carrieri

Colaboração para o UOL, em Alderley Edge (ING)

  • Caio Carrieri/Colaboração para o UOL

Peter Schmeichel está com fome. Vencedor voraz ao longo da gloriosíssima carreira, o ex-goleiro e ídolo do Manchester United adentra um restaurante em Alderley Edge, vilarejo de alto padrão a 25 km de Manchester, no noroeste da Inglaterra, ávido pelo café da manhã.

O termômetro aponta 2ºC, e a neve cobre as ruas da região nobre de Cheshire, onde diversos jogadores e ex-atletas escolhem morar pela grande oferta de mansões. É o caso de Kasper Schmeichel, filho do entrevistado do UOL Esporte, goleiro do Leicester City campeão inglês em 2016 e que recebe por alguns dias a visita do pai, o maior da posição na história da Premier League, com cinco títulos em nove anos na metade vermelha de Manchester.

Aos 54 anos, Peter ainda transmite com clareza cristalina a mentalidade vencedora que o alçou ao posto de lenda do United pelos grandes feitos na década de 90 – o ápice foi a Tríplice de Coroa em 1999, quando os Diabos Vermelhos conquistaram o Campeonato Inglês, a Copa da Inglaterra e a Liga dos Campeões. O título europeu aconteceu de maneira épica – virada sobre o Bayern de Munique-ALE por 2 a 1, no Camp Nou, com os dois gols marcos pelo time inglês nos acréscimos. No primeiro deles, Schmeichel estava dentro da área dos alemães, como ele relembra no bate-papo abaixo.

Getty Images
Peter Schmeichel, ex-goleiro do Manchester United, com seu filho, Kasper Schmeichel, hoje goleiro do Leicester City

O topo do continente já havia sido alcançado na Eurocopa de 1992 com a seleção da Dinamarca, da qual é recordista com 129 jogos. Uma destas atuações, porém, reserva um gosto bem amargo: a eliminação para o Brasil nas quartas de final da Copa de 1998, com dois gols de Rivaldo e um de Bebeto no revés por 3 a 2, em Nantes.

Entre uma garfada e outra durante o desjejum, o imponente dinamarquês de 1,91m conversou por mais de uma hora com a reportagem, relembrou momentos marcantes da sua trajetória e também falou sobre a nova geração de goleiros. Confira.

A dor com a vitória do City no clássico de Manchester, no domingo

Eu estava em Old Trafford e, como torcedor apaixonado do United desde sempre, foi cruel.  Nossa atuação foi decepcionante, não tinha como somar pontos com a maneira com que jogamos, o que é o mais triste.

Os milagres de Ederson

Não colocamos pressão nele em nenhum momento. O jogo foi em Old Trafford e, por isso, as estatísticas deveriam mostrar 15 defesas dele. Mas tenho de admitir que ele fez duas defesas seguidas incríveis no fim. Fiquei deslumbrado com o lance, foi fantástico. Ali poderia ter sido o 2 a 2, o que seria um lucro gigante para nós.

O início de Ederson na Premier League

Pelo preço que o City pagou (R$ 145 milhões), a Premier League é um desafio para ele. Embora o trabalho seja facilitado pelas excelentes atuações do time, tudo o que teve de mostrar até agora foi muito bom, como participar muito do jogo com os pés. Ele impressionou todo mundo até agora. Ainda não o vimos fazer o trabalho de goleiro completamente. Acredito que muitas pessoas ainda estão esperando para ver se ele vale mesmo o dinheiro que o City investiu, se o Guardiola acertou na contratação. Mas esse momento não será agora, porque o City está jogando muito bem. Só que a temporada se aproxima de uma fase importante, não só para Ederson, mas para todos os novatos da Premier League. Ainda teremos mais seis jogos só até a virada do ano, depois vem a Copa da Inglaterra, mais e mais partidas na sequência, numa época do ano em esses novos jogadores estavam acostumados a ter uma pausa.

Evolução da posição de goleiro

Isso torna o goleiro muito mais importante, o que me deixa feliz. Geralmente o goleiro era algo separado, falava-se dos jogadores de linha e depois do goleiro. Antigamente o escolhido para ir para o gol era sempre o garoto gordo, porque não sabia jogar direito. Além disso, estabeleceram que os goleiros tinham sempre um tipo de personalidade, que era maluco e várias outras coisas. Agora houve uma evolução e é importante o goleiro, quando não está defendendo, atacar. E não é só a função do goleiro que evoluiu, mas a percepção das pessoas sobre a posição também mudou. Ninguém olha mais para o goleiro como o menino gordinho.

Alisson, titular do Brasil

Não consigo analisar o trabalho dele, porque não assisti a tantos jogos quanto vi do Ederson. Sei que é o titular do Brasil, e Ederson a segunda opção. Isso é um bom exemplo de como a posição evoluiu. Taffarel foi o primeiro brasileiro que o mundo reconheceu como ótimo goleiro. Antes disso, as pessoas diziam que o Brasil jogava de maneira ofensiva porque não tinha bons defensores e goleiros. Então veio Taffarel, o primeiro grande ídolo da posição. Atualmente o Brasil tem grandes goleiros, e Ederson ser o número 2 é a comprovação de como a posição de goleiro evoluiu. Para chegar à qualidade tem de existir quantidade, e é importante que as crianças queiram se tornar goleiros e que exista competição entre eles até o nível profissional. O Brasil é um exemplo, mas se olharmos para os outros países, há diversos bons goleiros em todos os lugares. Isso é fruto da competição e me deixa orgulhoso, porque na minha geração éramos seis ou sete grandes goleiros, como (o alemão) Oliver Kahn e (o inglês) David Seaman, que jogavam por times importantes e que tinha espaço na mídia. Estávamos sempre na TV por aquilo que as nossas equipes faziam.

A influência do handebol no seu estilo de jogo

AFP PHOTO/PAUL FAITH
Schmeichel levanta a taça da Liga dos Campeões em 99 pelo Manchester United

No handebol, o goleiro é totalmente impotente se não fizer alguma coisa para sair do gol. Tem de tentar enganar o adversário que está com a bola, procurar uma alternativa para fechar o ângulo, porque tudo pode mudar até o último segundo antes do chute devido à capacidade de manejo e de força que temos nas mãos. Na minha infância e juventude, não havia estrutura para jogar futebol no inverno rigoroso, então passei a minha vida, até virar jogador profissional, jogando handebol.

Como existia um excelente goleiro no meu time de handebol, muitas vezes eu na linha, o que me permitiu desenvolver diferentes habilidades não só com a bola na mão, mas também em relação à postura corporal, de como parecer maior para enfrentar o adversário. Depois, quando me tornei jogador profissional de futebol, o meu treinador tinha a filosofia do goleiro nunca cair na bola. A instrução era para ficar em pé e esperar pelo atacante. Então junto com o meu passado no handebol, desenvolvi a capacidade de posicionamento, de saber exatamente onde eu estava em relação ao gol e me apresentar para o adversário: "Estou aqui agora. E você, vai fazer o quê?", o que criava dúvida para o rival.

Valia até uniforme alguns tamanhos mais largo para impressionar os rivais

A verdade é que sempre quis parecer grande, porque o meu porte vai mexer com o adversário a ponto de assustá-lo no momento em que ele ficar cara a cara comigo.

Emoção de defesas x sensação ao marcar gols

Era tudo relacionado ao grande objetivo de vencer. Marquei gols há 20 anos e deveria estar feliz por isso, o que talvez aconteça lá no fundo de mim, mas o único motivo de eu marcar esses gols era porque o time estava perdendo, então não era um bom momento para mim. Por isso alguns gols significam nada para mim, porque nunca salvei minha equipe com eles. Só que houve momentos que ajudei indo ao ataque, como na final da Liga dos Campeões, e isso me dá uma grande felicidade. Em determinada fase da minha carreira eu era o cobrador de pênaltis da Dinamarca. Teve um jogo contra o País de Gales, em Anfield, em que sofremos um pênalti, com 0 a 0 no placar, e precisávamos vencer. Como capitão, pedi para outro jogador cobrar, porque se eu fosse lá bater e perdesse, correria o risco de expor meu time a levar o gol no contra-ataque. O risco é muito grande, e o meu lema é segurança antes de qualquer coisa.

Defendeu pênaltis de craques como Van Basten e Bergkamp

Relembro esses lances com muita alegria, porque eles foram fundamentais para o que alcançamos posteriormente. Em relação ao Van Basten, era a semifinal da Euro-92 contra a Holanda e, como goleiro, sempre pensei que se se eu defendesse uma das cobranças da decisão, meu time teria chance de se classificar. A defesa contra o Van Basten foi em um dos primeiros chutes, o que deu muita confiança para os nossos batedores. E o que aconteceu contra o Bergkamp, na semifinal da Copa da Inglaterra de 1999, diante do Arsenal, foi uma das coisas mais importantes que fiz na minha vida. Sei que naquele ano a Copa da Inglaterra foi o torneio menos relevante entre os que conquistamos, mas terminamos a temporada campeões de tudo.

A (não) preparação de acordo com cada adversário

Vou parecer totalmente estúpido: nunca me preparei para enfrentar um time ou atacante especificamente. Nunca. Poderia ser qualquer um. Não poderia passar o ano inteiro me preocupando com os adversários antes dos 65 jogos da temporada. Eu tinha a ideia que não era eu que estava enfrentando os atacantes, mas eles que tinham de se preocupar comigo. Usava essa arrogância, de maneira intencional, a meu favor. Nunca senti medo de nenhum adversário, e eu tive o privilégio de enfrentar Diego Maradona em 1995 num torneio que hoje se equivale à Copa das Confederações.

As quartas de final contra o Brasil em 1998 e o pesadelo chamado Rivaldo

Ainda hoje penso que deveríamos ter vencido aquele jogo por termos um time melhor. Seria bom se o Rivaldo tivesse ficado doente naquele ano, porque ele marcou quatro gols em mim: dois na Copa do Mundo e dois na Champions League, no Camp Nou, pelo Barcelona. Também acertou a trave. Ele era brilhante! Na Dinamarca, nós consideramos o jogo contra o Brasil como um dos melhores da nossa história, mesmo com a derrota. Só que o nosso time era inexperiente para enfrentar uma seleção do tamanho do Brasil. Respeitamos demais os brasileiros e demoramos muito para perceber que poderíamos vencer.

Relacionamento com Alex Ferguson

Absolutamente fantástico. Sem ele, acredito que a maioria dos jogadores do meu tempo, inclusive eu, seríamos comuns. E o ponto principal é que ele gostava e queria ter no elenco personalidades fortes. Nos tempos do Ferguson não aconteceria o que se passou no clássico de domingo, com os jogadores do City gastando tempo, e os do United apenas observando. Se fosse na minha época, todo mundo estaria em volta do árbitro pelo comportamento de cada um. E Ferguson lidava com os grandes egos como ninguém, porque ele sabia que eram esses caras que fariam a diferença nos momentos decisivos. Por isso que Eric Cantona, depois de passar por diversos clubes sem muito sucesso, se tornou o melhor jogador da história do Manchester United.

A excentricidade de Eric Cantona

É um grande amigo e sempre fomos muito próximos. Éramos companheiros de quarto quando ele chegou ao United. É um cara normal que estava no mundo futebol, do qual ele gostava de fazer parte, mas se pudesse faria outra coisa, como se dedicar a atividades culturais, ao teatro. Ele é divertido, muito bem informado, e as pessoas veem isso como algo diferente. O que importava era o nosso trabalho, e se precisássemos de um gol, de uma única chance apenas, ele criava para nós. É o melhor e mais eficiente jogador com quem joguei.

O título da Champions em 1999

Aquela noite foi meu auge pelo Manchester United e nos colocou na história. Nós vencemos a Tríplice Coroa, algo que ninguém tinha conseguido até então e o que acho muito difícil de acontecer novamente. Tivemos uma temporada maravilhosa, mas chegamos à final desfalcados de Roy Keane e Paul Scholes, o que nos obrigou a fazer mudanças inesperadas contra um Bayern de Munique muito organizado. Quando surgiu o escanteio nos acréscimos e estávamos com 1 a 0 contra no placar, fui para a área para criar confusão, o que deu certo.

A temporada 2002/03 no Manchester City

O Manchester City pelo qual joguei não é o mesmo que existe hoje. O meu ano foi o primeiro do clube na Premier League depois de subir desde a Terceira Divisão, então não existia competição entre os clubes na época. Antes de tomar qualquer decisão, conversei com Ferguson, e eu nunca quis permanecer após um ano. Também não pretendia jogar por outro clube. Por isso, me aposentei.

Futebol não é o foco da relação com o filho

Nós falamos sobre a posição de goleiro, mas a frequência do tema futebol é pequena. Ele sabe que pode pedir qualquer tipo de ajuda ou conselho sobre e que sempre estarei disposto a ajudá-lo, mas isso não vai partir de mim. E talvez essa ausência do futebol nas nossas conversas tenha nos feito melhores amigos. Até por isso, quando sou convidado como comentarista em programas de TV e me perguntam sobre as atuações dele, simplesmente ignoro e mudo de assunto.

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