Benéfico ou desnecessário? Números e legado do Brasileirão de Aspirantes

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

  • Ivan Storti/Divulgação

    Inter venceu o Santos por 3 a 1 no Beira-Rio e foi campeão com 1 a 1 na Vila

    Inter venceu o Santos por 3 a 1 no Beira-Rio e foi campeão com 1 a 1 na Vila

A viagem no tempo anunciada pela CBF com a reedição do Campeonato Brasileiro de Aspirantes não foi completa. Sucesso ao longo das décadas do século passado, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, o torneio que tem o objetivo de realizar a transição de jogadores da base para o profissional terminou no último domingo sob poucos holofotes e muitos debates. O Internacional foi campeão contra o Santos, na Vila Belmiro, e parece ser o time que melhor aproveitou a novidade do calendário nacional em 2017.

A expectativa é que seis jogadores que disputaram o Brasileirão de Aspirantes pelo Colorado sejam promovidos ao elenco profissional na próxima temporada. Um deles é o volante Ramon, que conversou com o UOL Esporte sobre a oportunidade proporcionada pela competição de oito partidas. Para ele, a disputa foi marcante e sinal de bons tempos no futebol brasileiro.

Arquivo pessoal
Ramon deverá passar dos aspirantes ao profissional a partir do próximo ano

"O nível da competição foi muito alto, porque só existia time grande, de camisa, e jogar contra time grande nunca é fácil. A estrutura foi muito boa, passou na televisão, campos sempre muito bons. Acho que o torneio cumpriu a missão dele, porque teve bastante vitrine, foi olhada por torcedores e diretores dos clubes e deu chance aos meninos. Eu dei meu máximo, agora estou esperando a oportunidade e quando ela vier vou estar pronto, só depende do professor do time de cima", diz Ramon, que está no Inter sub-23 há somente duas temporadas e acumula passagens pelo Palmeiras e pelo Desportivo Brasil-SP.

Alguns números do Brasileirão de Aspirantes:

Clubes participantes - 10
Partidas disputadas - 26
Gols marcados - 63 (média de 2,4)
Média de público - 245 pessoas
Média de prejuízo - R$ 6.524,05

O outro lado...

O lado bom da formação e revelação de jogadores é evidente, mas não é o único a ser analisado. Entre os dados disponibilizados pela CBF, duas informações chamam atenção: a média de público dos jogos (mesmo com portões abertos) foi de apenas 245 pessoas, e o prejuízo por partida realizada foi superior a R$ 6 mil para cada clube. 

A CBF fechou acordo de transmissão dos jogos com o canal Esporte Interativo e ainda cobriu despesas de clubes com arbitragem, ambulância, exames, gandulas e gastos operacionais com R$ 10 mil por partida. A questão é que houve jogos que demandaram mais gastos, como o recorde Atlético-PR 1 x 2 Santos da primeira rodada, na Arena da Baixada, que demandou quase R$ 20 mil ao time da casa. Além das finanças, o elemento esportivo também é citado como complicador, porque a competição foi oficializada e realizada a partir de outubro.

"Quando surgiu essa competição algumas equipes não estavam preparadas. E uma era o São Paulo, que foi com os reservas do sub-20, alguns que retornavam de empréstimo, dois que voltavam de cirurgia, sendo sete atletas emprestados pelo profissional, mas três ou quatro vencendo o contrato no fim do ano. Ficou bem complicado. E se for disputar ano que vem não teremos jogadores sub-23, vamos pegar outros do júnior que não estão competindo", reflete Marcos Vizolli, que comandou o São Paulo no torneio e exige mais seriedade por parte da CBF.

Divulgação
Marcos Vizolli, do sub-20, dirigiu o sub-23 no Campeonato Brasileiro de Aspirantes

"Se os clubes e federações quiserem realmente montar torneios competitivos precisam de tempo, recursos e debates, por exemplo: você quer campeão? Ou quer jogadores para lançar? A competição é muito boa, dá garantia de trabalho e observação de jogadores que estão sem jogar. Enfim, o retrato é legal, tudo o que foi proposto é bonito, mas a CBF deveria dar mais atenção. Além disso, a TV colocou repórteres, comentaristas e narradores inteligentes, que entendiam as dificuldades das equipes. Por ser a primeira competição há pontos positivos. Mas há muito a melhorar", conta Vizolli.

Em 2017, a competição teve apenas dez clubes participantes, mas a ideia é ampliar o número em 2018 até chegar à meta de 20 clubes, exatamente como funciona a Série A do Campeonato Brasileiro, até o fim da década. O sonho ainda é distante, porque parte dos clubes da elite nacional não têm intenção de montar uma nova categoria. 

"É uma tendência. Na Europa os grandes clubes têm time B, porque é o que facilita o não desperdício de jogadores da base e a adaptação de quem vem de fora. No Santos isso se refletiu com Diogo Vitor e Diego Cardoso, que já tinham tido espaço no time de cima, sucumbiram, mas agora estão aptos novamente. O torcedor vê isso acontecendo e começa a ver a competição com outros olhos com o passar dos anos, vê como a chance de conhecer os atletas. A cultura do torneio vai sendo criada e é uma tendência do futebol brasileiro para se organizar e melhorar", diz Kleiton Lima, que dirige o Santos B há dois anos e meio e se vê pela primeira vez diante de uma troca de diretoria no clube.

"Não tive nenhum contato com a nova diretoria, mas a tendência é que a categoria permaneça, porque pelo que li estava dentro do programa de governo do José Carlos Peres. O time B matura jogadores, aproveita, dá um desenvolvimento final, completa o que o jogador traz da base. O novo presidente declarou que talvez modifique o modelo, mas deverá manter o trabalho. Tanto é que os finalistas do Aspirantes foram os times que tinham um período maior de time B. Isso mostra que quando tem planejamento, projeto, profissionalismo e seriedade rende frutos".

Ivan Storti/Divulgação
Kleiton Lima dirige projeto por onde passaram Vitor Bueno e Lucas Veríssimo

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