Emirados gastam milhões há anos, mas ainda não fizeram o futebol 'decolar'

Luiza Oliveira e Vanderlei Lima

Do UOL, em Abu Dhabi (EAU) e São Paulo

  • Amr Abdallah Dalsh/Reuters

    Al-Jazira é um dos principais times do país com grande investimento

    Al-Jazira é um dos principais times do país com grande investimento

Quando falam que um jogador está atuando no 'mundo árabe' logo vem uma imagem à cabeça. Brasileiros que vão para o Oriente Médio e estão fazendo fortuna. Geralmente em times que tem xeiques apaixonados por futebol como donos e não pensam duas vezes em investir quantias milionárias no esporte.

A visão é um pouco idealizada, mas reflete os altos investimentos que os Emirados Árabes fazem no futebol. Ainda assim, o país não conseguiu fazer o esporte decolar e ter resultados expressivos em campo.

Muitos clubes têm estrutura de fazer inveja não só aos brasileiros, como também aos europeus. Um dos mais tradicionais do país, o Al Ain FC tem nada menos que três estádios na cidade de menos nome, um deles foi a sede do Mundial de Clubes. Foi por lá que passaram Valdivia e Emerson Sheik recentemente. A equipe tem uma folha de pagamento alta e cerca de metade do time titular ganha salários acima de 7 dígitos por mês. O Al Jazira e o Al Wahda vivem realidades semelhantes.

REUTERS/Matthew Childs
O estádio Hazza bin Zayed, que pertence ao clube Al Ain, foi palco do último jogo do Grêmio no Mundial deste ano

Um estudo da empresa de pesquisas Repucom, de 2005, mostrou que em 10 anos as empresas dos Emirados Árabes investiram nada menos que US$ 460 milhões no futebol, mais especificamente em patrocínio de camisas de futebol. Ainda que boa parte desse investimento seja feito na Europa, dá para ter ideia da pujança local, já que a maior responsável por isso é a família Al Nahyan que comprou o inglês Manchester City e é dona do Al  Ain e do Al Jazira, ambos dos Emirados.

Ainda assim, é difícil ver o resultado ser revertido para campo. A seleção dos Emirados Árabes, por exemplo, ocupa apenas a 73ª posição do ranking da Fifa e a última vez que se classificou para a Copa do Mundo foi em 1990. Os times locais também ficam longe das conquistas internacionais. O único título do país na Liga dos Campeões da Ásia foi em 2003 com o próprio Al Ain.

É verdade que nos últimos anos, eles vêm tentando ter um destaque maior. O Al Jazira surpreendeu no Mundial de Clubes e deu um sufoco no Real Madrid na semifinal. O Al Ain foi vice-campeão da Liga dos Campeões da Ásia em 2016. No anterior, foi o Al Ahli quem chegou à final.

Mas ainda assim não conseguiram uma ascensão que outras ligas atingiram como a do Japão, que teve um grande desenvolvimento nos anos 90, da Coreia do Sul, semifinalista de Copa do Mundo, e da própria China, que adotou uma meta ambiciosa de se tornar uma potência e hoje conta com estrelas no elenco. Nos últimos 12 anos, apenas dois vencedores da Liga dos Campeões não saíram desses três países.

Divulgação/Grêmio

Mas o que ainda separa o país de seus vizinhos orientais? O técnico Paulo Comelli está na quinta temporada nos Emirados Árabe. Ele comandou por três anos o Emirates Club e está há dois anos no Dibba Fujairah Club. Em sua visão, a profissionalização das comissões técnicas ainda deixa a desejar.

"Eu penso que eles deveriam investir mais em termos de profissionalismo. Aqui só tem dois treinadores locais agora porque saíram os treinadores. O resto é tudo estrangeiro. Falta um profissionalismo neste aspecto. Em relação a hotel e concentração é coisa de primeiro mundo, mas pecam neste aspecto de profissionalizar mais uma comissão técnica completa com fisioterapeuta etc", diz o brasileiro, que já treinou Bahia, Ponte Preta e América-MG.

O jogador Caio Lucas atuou no Japão por quatro anos e hoje defende o Al Ain. Ele vê que a preparação dos atletas é forte nos Emirados, mas ainda há uma diferença de nível. "O Japão tem um jogo mais corrido, aqui é bem cadenciado. Creio que no Japão trabalham mais duro em termos de força física e tática", disse.

 

Falta de intercâmbio

France Presse/AFP

Hoje o futebol é completamente globalizado. E uma das principais medidas de quem quer se desenvolver é aprender com quem está à frente, bebendo em outras fontes e colocando isso em prática. Um caminho é contratar nomes de peso que vão movimentar o futebol local, dar visibilidade e trazer um novo tipo conhecimento. 

Mas nos Emirados essa troca é mais difícil de acontecer. Ainda que tenham buscado alguns nomes de expressão recentemente como o sueco Marcus Berg, não têm uma estrela para bombar o esporte. Eles ainda adotam medidas protecionistas para desenvolverem os atletas locais.

"Acho que falta os clubes investirem um pouco mais em trazer jogadores com mais nomes. E assim creio que o futebol pode ganhar mais força, mais torcedores, saber trabalha o time. Creio que eles querem formar jogadores daqui, fazer com que os jogadores do país se tornem mais fortes", afirmou Caio.

Por outro lado, os Emirados também não têm a tradição de exportar atletas para outros centros e isso acaba enfraquecendo a seleção nacional porque eles não têm vivência em ligas mais fortes em que possam ganhar mais experiência. "O país deveria mandar mais jogadores locais para atuar fora. É difícil um jogador daqui sair. Muitos não querem ir por terem uma qualidade de vida boa, ganham um bom salário, estão tranquilos. O Japão e a Coreia têm jogadores fora. Então eles voltam e deixam a seleção mais forte", afirmou Mohammed Abdul, diretor do Al Jazira.

A falta de intercâmbio com outros países gera outras dificuldades. A Liga dos Campeões da Ásia, por exemplo, tem as divisões Leste e Oeste e as duas só se cruzam na final. Assim, times dos Emirados só enfrentam equipes do Oriente Médio e da Ásia Central consideradas menos tradicionais e não são testadas diante dos times do Leste do país. O Oeste do continente tem apenas um título nos últimos 11 anos (Al Sadd em 2011).

 

Falta de interesse do povo e clima

Bruno Poletti/Folhapress
Alexandre Gallo, ex-jogador e atualmente técnico, já esteve a frente do clube Al Ain

Mas de todas questões, talvez uma seja a crucial. Nos Emirados, o futebol não é uma paixão nacional. As crianças não sonham em ser jogadores quando crescerem. Não existe aquela tradição do Brasil de terem campos espalhados pela cidade ou improvisar uma quadra com qualquer par de chinelos. A população não respira futebol.

Paulo Comelli vê desinteresse até dos próprios jogadores. "Se eles não mudarem neste aspecto aí eles não conseguem evoluir. Poder trabalhar em dois períodos, se profissionalizar mais. Os jogadores aqui são assim muito acomodados. Então você tem que ter um jogo de cintura violento para trabalhar aqui porque é um país que tem dinheiro. Tem jogador aqui ganhando US$ 15 mil e ele não faz questão. Ele está fazendo faculdade, o governo dá um dinheiro para ele fazer faculdade e ganha também US$ 20 mil no emprego dele. Não é como no Brasil que é por sobrevivência. Aqui não muitos se interessam em jogar futebol, porque com 17, 18 anos eles já têm um carro de R$ 400 mil, então eles têm uma mordomia muito grande".

A população muitas vezes está mais interessada em esportes como mountain bike, corridas de cavalos e até de camelos, que são esportes típicos na região. A torcida até gosta de ir aos jogos, mas raramente lota os estádios a não ser que seja disputado um clássico da cidade.

"Precisa de mais gente vendo futebol. As pessoas deveriam ser mais famintas, ter mais e mais gente jogando futebol. Eles não são 100% focados", disse Mohammed, dirigente do Al Jazira.

O brasileiro Alexandre Matão, que atua na segunda divisão do país, vê da mesma forma. "É da cultura daqui. Os locais não têm aquela ambição aqui de jogar futebol. Veem futebol como um lazer, aos poucos as coisas estão ficando mais sérios e estão mudando. Mas aqui a mentalidade, o futebol não é uma coisa que fascina eles, fazem eles pararem tudo que nem a gente que é brasileiro. Com a mudança de mentalidade, tende a melhorar futuramente", analisa.

Outro fator que prejudica é o clima de deserto que provoca um calor muito intenso em boa parte do ano. Com temperaturas que chegam a quase 50ºC no verão, as pessoas praticamente não saem nas ruas e só buscam locais fechados com ar condicionado. Mas a liga local continua normalmente em um horário ingrato que não atrai muita gente.

Mas a liga vem apresentando crescimento. Alexandre Gallo trabalhou no Al Ain como técnico em 2010 e acredita que o futebol dos Emirados está crescendo. "O Japão demorou tempo, os Emirados estão no meio do caminho e a China está começando. Isso é natural e vai demorar um tempo até este mix de pessoas que estão lá, que os estrangeiros possam auxiliar para que o desenvolvimento maior ainda do futebol aconteça. É um caminho natural, é que a gente é muito imediatista. O dinheiro por si só não faz futebol, há uma demanda de tempo, concentração, erros acertos, então é uma série de coisas", analisou.

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