"Li o alcorão para provar a meus pais que posso jogar bola", diz muçulmana

Luiza Oliveira

Do UOL, em Abu Dhabi (Emirados Árabes)

  • Divulgação

    Amal Aal Rabeea teve que lutar para poder ser jogadora de futebol

    Amal Aal Rabeea teve que lutar para poder ser jogadora de futebol

Amal Aaal Rabeea faz um coque com o cabelo no alto da cabeça. Está meio desgrenhado porque ela recém-saiu do banho depois de um treino na noite fria de Abu Dhabi. Usa um tênis e uma calça de moleton com um elástico na canela e um casaco esportivo. Quem a vê assim toda descolada não imagina que ela passa o dia inteiro com o hidjab e só seu rosto aparece.

Ela é uma das mulheres muçulmanas criadas sob a tradição do islã que luta para ter a liberdade de praticar o esporte que ama sem precisar deixar a religião a qual é devota. Amal é a prova de que um pode viver, sim, com o outro. Mas entender isso exigiu um processo. Não era o que havia aprendido em toda a sua vida em uma família muçulmana conservadora. 

Ouviu da mãe que se jogasse futebol nunca arrumaria um marido para casar porque se tornaria masculina. Que conflito interno. Em um misto de culpa e injustiça se debruçou sobre o alcorão. Queria ver em que passagem o profeta a proibia de jogar futebol. Para sua surpresa, a mensagem que encontrou foi justamente a contrária.

"Eu fiquei dias lendo o livro sagrado. Precisava entender porque eu não podia praticar o esporte que eu amo. E o que eu achei é que o profeta quer, sim, que eu faça isso. Ele encoraja as crianças a nadarem, a andarem a cavalos, a serem atletas. O esporte é bom para a alma e para a mente. Isso está lá".

Arquivo pessoal

Ela precisou mostrar isso para seus pais entenderem. Hoje, a aceitam como é. Amal provou que o amor pelo futebol não a impede de largar as tradições, tanto que está com casamento marcado para o ano que vem. A religião continua sendo fundamental em sua vida.

"Eu vou me casar, estou muito feliz. E se eu quisesse ou não um marido era uma escolha minha. Ninguém tem nada com isso. Mas esse empoderamento tem que vir de dentro. Eu gosto de usar roupas esportivas para jogar futebol e gosto de usar hidjab para encontrar minha família, ir ao shopping ou trabalhar. Me dá uma ideia de pertencimento e não preciso me preocupar com a roupa que vou vestir", brinca.

Ela começou a jogar por incentivo de amigos e entrou no time do clube Abu Dhabi Country Club que se prepara para a próxima liga nacional no ano que vem. A atacante de 26 anos voltou a atuar depois de sofrer uma lesão grave no joelho. Foi nesse tempo parada que ela entendeu a importância do futebol na sua vida. O time, que com muita luta conseguiu uma boa estrutura, hoje é a base da seleção nacional dos Emirados. 

Luiza Oliveira/UOL

Mas a realidade de Amal é rara às mulheres árabes que não têm qualquer incentivo para praticarem esportes no país que sedia o Mundial de Clubes e pode consagrar o Grêmio campeão contra o Real Madrid. Nas escolas, a educação física não é uma disciplina obrigatória e quando elas crescem e se casam são ocupadas pelas tarefas domésticas. Aqui, esporte ainda é coisa de homem.

As que fogem a essa regra nas grandes cidades dos Emirados podem frequentar academias de alto padrão que são exclusivamente para mulheres. Lá, elas tiram seus lenços e vestem calças leggings e seus tops, uma exposição do corpo impensável para o país. Na parede, em uma foto promocional, chama a atenção uma modelo árabe com o abdomên a mostra e um piercing no umbigo.

Para manter a privacidade, os estabelecimentos têm um aparato de segurança. Tirar fotos é expressamente proibido e há placas por todas as paredes. Na área da piscina, uma funcionária desconfiada monitora quem entra e quem sai. Nem ficar com o telefone celular na mão é permitido. A pessoa é aconselhada a deixar seus pertences do lado de fora.

Luiza Oliveira/UOL

O que é cercado de mistério, quando revelado, não chama a atenção aos olhos brasileiros. Lá dentro, uma aula de hidroginástica como qualquer outra. A cena é a de uma professora fitness empolgada com o som alto incentivando suas alunas a deixarem a preguiça de lado para gastar calorias.

Nesse contexto, o time do Abu Dhabi Country Club é um oásis de liberdade. Desde quando foi formado em 2004, elas lutaram muito e conquistaram um campo, material esportivo, o direito de usarem shorts para treinar e, principalmente, respeito. Mesmo que ainda sejam obrigadas a ouvir constantemente que lugar de mulher é na cozinha. Na seleção, elas ainda precisam cobrir todo o corpo e usar calças leggings e mangas longas por baixo do uniforme. Mas garantem que são muito confortáveis e não se importam.

O time se tornou um pioneiro na conquista feminina. A maior prova disso é a jovem Nouf Alanzi. A meio campista de 21 anos foi convidada para jogar em um time do campeonato do Egito. Ela será a primeira jogadora a sair do país e ir para uma liga mais desenvolvida. "Estou muito feliz com o desafio e a oportunidade. Quero ir e aprender muito para voltar e ajudar a desenvolver o futebol aqui". Mas ela não vai precisar se mudar. Como os jogos são apenas nos finais de semana, vai continuar morando em Abu Dhabi onde faz faculdade de engenharia da informação.

Arquivo pessoal

Não faltam histórias de uma mulheres corajosas como é a de Alanoud Ghazi Alkhalefeh, que também joga no Abu Dhabi Country Club. Ela nasceu nos Emirados, mas se sente síria de sangue e coração porque seus pais nasceram do outro lado do Golfo Pérsico. Com seu talento, a jovem de 22 anos foi convocada pela primeira para defender a seleção da Síria com o país em guerra.

Seus pais não queriam deixá-la ir. Mas o sentimento de nação falou mais alto. Mesmo com um medo estarrecedor, ela deixou o conforto dos Emirados e partiu para o país em março para disputar as eliminatórias da Copa da Ásia contra o Vietnã, Irã e Cingapura. Era a primeira vez que a seleção se reunia depois de seis anos por causa da guerra. 

Divulgação

"No início eu estava com muito muito muito medo. Eu ouvia que tinham armas e que as pessoas se matavam. Não consegui dormir porque eu ouvia o barulho das bombas. Eu ouvia bombas, vozes, só 'boom'. Passavam 30 minutos e de novo 'booom', só ouvindo. Eu não via nada, só ouvia. De repente 'boom', mas de onde era eu não sei, não vi", relata.

Mas aos poucos, ela foi vendo que era seguro. "Depois eu fui vendo que era bem distante. Nas ruas tinham prédios destruídos, mas é seguro. Não tinha nada, não via nada. E se me chamarem de novo, claro que vou. Quero jogar pelo meu país, quero jogar pela Síria".

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