Meio homem, meio máquina. Kaká foi ao topo e sucumbiu após queda física

Dassler Marques

Do UOL, em São Paulo

  • Russell Cheyne/Reuters

Kaká, dentro de campo, era um jogador inconfundível.

Se não bastasse a qualidade técnica, notada em finalizações que lhe renderam mais de 200 gols na carreira, o meia-atacante que anunciou aposentadoria aos 35 anos, no domingo (17), também tinha inúmeros atributos especiais. A leitura para atacar espaços em arrancadas, o biotipo perfeito para romper marcação com força e velocidade e, se não fora o bastante, uma conduta irreparável ao longo de 15 anos dentro de campo.

Os atributos que fizeram dele uma das principais figuras do futebol mundial no início desse século, espera Kaká, devem ser levados para um novo estágio da carreira que projeta para 2019. A previsão do craque é descansar por um ano e se tornar dirigente (ver mais abaixo). 

Ao topo, em franca velocidade

AP

Último a superar Messi e Cristiano Ronaldo no Melhor do Mundo da Fifa, há exatos 10 anos, ele também se tornou uma das principais referências em um período de transição sobre os conceitos da preparação física no futebol. Com atletas cada vez mais fortes fisicamente a partir do fim dos anos 90, o brasileiro chegou à Itália como um trator. No sentido literal e também no sentido prático.

Em um Milan que tinha craques como Maldini, Nesta, Pirlo e Shevchenko, Kaká se tornou em pouco tempo o principal jogador da equipe. Era um garoto de 20 anos em 2003 quando ganhou a concorrência de Rivaldo, logo depois de uma Copa do Mundo espetacular em 2002, e não deu margem para o "rival".

Em seis temporadas por lá, chegou três vezes à final da Liga dos Campeões e ganhou uma, sempre com dribles em velocidade, para os dois lados, como marca registrada. Fez os fãs apaixonados irem à sua sacada para implorar que rejeitasse o Manchester City. E ele recusou.

Outra marca importante de Kaká dentro do futebol foi sua lealdade às camisas. Defendeu apenas quatro clubes, de quatro ligas diferentes, e ainda encontrou tempo para voltar a dois deles na fase final da carreira, pelo Milan e pelo São Paulo.

O reconhecimento foi expresso pelas mesmas equipes aos 35 anos: convites para atuar com a camisa são-paulina em 2018, para ser dirigente na Itália ou mesmo nos Estados Unidos, pelo Orlando City, a última casa a presenciar as arrancadas do craque.

Quando as lesões falaram mais alto

Reuters
O único gol de Kaká em Mundiais: em 2006, contra a Croácia

Na altura em que elegeu a Major League Soccer, porém, já não estava mais tão fácil de atropelar os adversários com a mesma vitalidade dos outros tempos. Quando deu o maior salto de sua carreira, aos 27 anos, Kaká chegou ao Real Madrid por quase 70 milhões de euros, na companhia de Cristiano Ronaldo, e nunca mais conseguiu ser o mesmo de antes.

Em entrevista concedida ao UOL Esporte, em outubro de 2010, o fisiologista Turíbio Leite de Barros, que cuidou de Kaká na ocasião, chegou a afirmar que o último ano em que o meia atuou sem dores, sem problemas, no ápice, foi 2008. Problemas de quadril e de joelho, segundo o próprio atleta, foram os maiores vilões. Outras complicações no púbis, em determinados momentos, também geraram limitações. 

"Um dia você acorda super bem, fala 'vai dar certo, vou voltar a jogar daqui um tempo'. No dia seguinte, você sente dor e fala assim 'não quero mais isso'. Essa batalha que vai travando todos os dias, de fisioterapia (...), é muito chato", disse Kaká, recentemente, em entrevista à Band.

A trajetória na seleção brasileira, com quase uma década como titular, também foi afetada por problemas físicos. Kaká jogou três Copas do Mundo, mas depois de ser campeão como reserva, em 2002, acabou limitado nos dois Mundiais seguintes, quando o protagonismo estava sobre seus ombros.

Por infelizes coincidências, não chegou à Alemanha e à África do Sul em boas condições e precisou de infiltrações para ir a campo em alguns momentos. Aos 32 anos, ainda sonhou com a presença no Mundial do Brasil, mas não foi escolhido por Felipão. 

O queridinho das marcas e das fãs

Divulgação/Reprodução

Quando surpreendeu com um gol contra o Santos e dois gols sobre o Botafogo, no Torneio Rio-São Paulo de 2001, Kaká apresentou ao Brasil uma personalidade que não se encontrava nas maiores referências do futebol. Depois dos anos 90 marcados pelos chamados "bad boys", em especial Romário, o público se deparou com uma estrela de sorriso fácil, alto nível pessoal, profissional e atenciosa com fãs histéricas. Zeloso com a imagem, raramente esteve em polêmicas. 

Essa imagem foi fortalecida pela relação com a namorada Carol Celico, ao lado de quem fez votos de que se casaria virgem, e pelo lado religioso forte. Desde os 12 anos, tornou-se frequentador da igreja evangélica Renascer. Por lá, casou-se com Carol e chegou a expor o troféu de melhor jogador do mundo. O casal anunciou o divórcio em 2015.

Ele, que deixou de ser Cacá para ser Kaká porque usava chuteiras da Kelme, em 2001, tornou-se assim um queridinho das marcas. Estrela da Adidas durante quase toda a carreira, anunciou a aposentadoria na TV Globo, justamente, com um agasalho da marca alemã. Passou a ser um dos rostos preferidos da Gilette e figurou em inúmeras capas de revista de moda na Itália, quase sempre com roupas Armani, outra patrocinadora pessoal importante. 

Ele quer descanso, os filhos e trabalho só no exterior

Reprodução/Instagram

Amadurecida durante a atual temporada, a decisão de Kaká em abandonar chuteiras teve relação direta com o desgaste físico a que se submeteu nos últimos anos da carreira. Com proposta para atuar na primeira divisão da China, no São Paulo e no Orlando City, ele optou por pendurar as chuteiras e quer ficar próximo dos filhos ao longo de 2018. Por isso, terá uma residência na capital paulista e outra na Flórida. 
 
Entre as cidades preferidas do craque, Milão é um destino muito provável para o estágio seguinte previsto para a carreira, provavelmente em 2019. Ele recebeu convite para ser diretor do Milan, onde viveu muitos dos melhores momentos da vida, e quer ser um elo entre os jogadores e a direção de um clube. Outra possibilidade seria executar função semelhante no Orlando City ou mesmo atuar como embaixador. 
 
O que Kaká já confidenciou a amigos é que, dificilmente, irá trabalhar no futebol brasileiro, pois considera o ambiente de modo geral menos profissional e organizado do que ele gostaria de participar.

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