"Quarta força" da eleição, Tuma quer Odebrecht e Nike fora do Corinthians

Dassler Marques e Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação

    Romeu Tuma Júnior é um dos cinco candidatos à presidência do Corinthians

    Romeu Tuma Júnior é um dos cinco candidatos à presidência do Corinthians

A trajetória da equipe de Fábio Carille em 2017 é citada como uma espécie de inspiração por Romeu Tuma Jr, um dos cinco candidatos à presidência do Corinthians.

Entre os oposicionistas mais radicais, o conselheiro vitalício, que já passou pelo departamento de futebol nos anos 1990, conta nesta entrevista por quais motivos decidiu concorrer a um cargo depois de 23 anos, período que marca seu desligamento da era Dualib. Tuma ainda diz que foi desacreditado por membros próximos e rejeitou barganhas na vice-presidência de sua chapa, nega que possa desistir da candidatura e se inspira no rótulo de "quarta força". 

Depois de publicar entrevistas exclusivas com Felipe Ezabella, Andrés Sanchez e Roque Citadini (ver links ao fim da matéria), o UOL Esporte falou com Tuma sobre seus projetos, como a criação de um time master, o cartão do Corinthians e ainda rompimentos com a Nike, a Odebrecht e a Omni. Na próxima semana, o UOL publicará entrevista com Paulo Garcia, último candidato a registrar chapa para as eleições.  

Confira os melhores trechos da entrevista com Romeu Tuma Jr:

Não há troca de favores por cargo

Fizemos um projeto que muda completamente a gestão do Corinthians, que considero falida e fracassada. Um presidencialismo de cooptação. A pessoa se lança candidata prometendo cargos, dividir espaço na diretoria e fica refém das pessoas com quem se compromete por voto. Percebemos isso na área de marketing e financeiro: nos últimos dez anos, você vê a incompetência que tivemos, e essas pessoas vivem mudando de lado.

Na área financeira, a mesma pessoa que geriu mal essa área apoia e lança outro candidato. O candidato a vice do Roque contra o Andrés, no dia seguinte, foi participar na gestão da Renovação & Transparência e está sendo anunciado como vice do Paulo Garcia. São loteados os cargos.

NR.: Tuma se refere a Raúl Correia, ex-diretor de finanças por duas gestões e que apoia Felipe Ezabella, e a Emerson Piovesan, último diretor de finanças que foi candidato a vice com Roque Citadini e é candidato a vice de Paulo Garcia. 

Democracia Corintiana Participativa

Criamos um grupo grande de associados, com dirigentes, ex-dirigentes, sócios, atletas e ex-atletas. Queremos mudar o modelo de gestão e apresentamos a vários candidatos que, entendíamos, poderiam representar uma oposição. Não exigimos cargo. Eu falei que não queria ser candidato. Usei uma frase na época: "quero ser faxineiro da chapa". Quero que usem este modelo que chamamos de "Democracia Corintiana Participativa", com um programa de comprometimento a regras, com governança administrativa, com orçamento disponibilizado no site. Um modelo de gestão financeira diferente.

Candidatura foi missão, diz Tuma

Apresentamos a alguns candidatos que tinham afinidade ideológica conosco. Não aceitaram isso, tiraram sarro como se eu fosse a quarta força e não tivesse voto. Passou um tempo, foi concebido um projeto, que está registrado em cartório desde julho e agosto. Esse projeto tem que ser o novo modelo de gestão do Corinthians e esse pessoal me chamou e disse "não dá para você ficar fora disso. São 23 anos na oposição e você nunca ocupou cargo em gestão desde então, está sempre apontando o dedo na ferida e não pode ficar fora do processo, aceite a missão de ser candidato".  

Eu relutei um pouco, conversei com as pessoas de algumas chapas e falei que me sentia honrado. Falei "se eu aceitar a missão e sair candidato, não tem volta". É um projeto ideológico administrativo e não troco por nada. Se eu disputar, é para ganhar. A prioridade é o modelo de gestão do clube. No fim, pagaram a missão, aceitei e saí candidato. Concebemos nossa chapa sem acordo político. 

Vice de Tuma teve candidatura impugnada em 2015

Ilmar foi o melhor diretor social e a única coisa boa que teve o Corinthians administrativamente em dez anos. Ele fez todas as obras do clube na gestão Gobbi. Não gastava recursos que não tinha e devolvia recursos para o clube. O departamento se autofinanciava. O que fazem com ele é outro assassinato de reputação, porque não há nenhuma prova sobre isso. Se tivessem decência e caráter, teriam pedido a expulsão dele no Conselho. Houve um conflito de assinatura em duas chapas e ninguém tem a assinatura dobrada porque levaram ao comitê do Andrés.

Se procurar a Dona Cida, secretária do Conselho, e perguntar onde estão as listas com as assinaturas duplicadas, ela vai falar "arrancaram da minha mão". Não há nenhuma prova de que isso aconteceu e eles [oposicionistas] falam, mas se tivesse prova sobre isso teriam a obrigação de denunciar e expulsar do clube. Isso não está registrado na ata de impugnação. Impugnaram o Ilmar porque tinham medo. Lulinha [segundo vice] é o representante dos sócios há 40 anos. Ele pratica esportes e se dá com todo mundo. Além de ser um empresário bem sucedido, é uma forma de sinalizar que estamos abertos a todos para conversar.

NR.: Ilmar Schiavenato, ex-diretor administrativo do Corinthians, era candidato a presidência em 2015, mas por irregularidades na inscrição da chapa foi removido das eleições. 

"Não há hipótese de desistir"

Não há hipótese de desistir no caminho, a não ser que a comissão evidentemente não tome providências que tem que tomar depois do que a gente assistiu dessa compra de votos. Dia 3 de fevereiro vou estar lá, até porque tenho quase absoluta certeza que vou ganhar a eleição. O único que representa mudança efetiva sou eu. Lançam candidaturas para negociar vice-presidências e me procuraram para a mesma coisa. Teve candidato a vice que me procurou para negociar cargo, não aceitei e ele foi ser vice de outro. Falam que vou ser candidato a deputado, é bochicho. 

Assinou duas cartas

Se eu perder a eleição, faço o que eu quiser [concorrer a outros cargos]. Sou delegado aposentado. Fiz uma carta, que o Ezabella disse que iria assinar, creio que vai assinar. Assinei, reconheci firma e vou registrar em cartório. É um compromisso público que coloco bens à disposição para qualquer ato de gestão temerária fraudulenta que seja apontado pelo Conselho. Eu também renuncio a cargo público, não aceito, até 45 dias antes da eleição. Se aceitar durante o mandato, é renúncia. Não sou o José Serra. Quero ver o Andrés e o Citadini assinarem.

Medidas iniciais em administração

Precisamos de uma auditoria geral em contratos com uma das "Big Four". Trabalhar em cima de regras de contabilidade e a hora em que cessarem desvios estaremos economizando e atraindo recursos. Tem que implementar 'compliance', que é um programa de comprometimento com as regras e leis, um programa de governança corporativa. Fazer um trabalho sério em cima de contratos para destratar o que é prejudicial. Buscar recursos desviados e responsabilizar pessoas. Tem que fazer um planejamento de 10 anos da gestão financeira. Botar um gestor financeiro que entenda do ramo. Fazer um orçamento participativo dividindo por área de forma transparente e avaliando o gestor pelo site, pela execução orçamentária.

NR.: Big Four faz menção às empresas auditoras Deloitte, PricewaterhouseCoopers, Ernst & Young e KPMG. 

Chega de intermediários

Tudo que tem lucro hoje no Corinthians tem intermediário. O Fiel Torcedor tem a Omni, que ganha mais que o Corinthians. O licenciamento tem a SPR para entregar no bolo político. Os passes de atletas e da base estão com os empresários e intermediários. Para licenciar um produto, vai na SPR, é R$ 300 mil. É royalty em cima de royalty. Quando vem o orçamento, zero. Como assim? De 140 lojas da Poderoso Timão, sobraram 20. Por que não contrata quatro profissionais e coloca para licenciar produtos, direto no Corinthians e faz a distribuição? Põe clube e esportes olímpicos para funcionar, cria times para encher nossos ginásios. O Corinthians é uma fonte de receitas inestimável.

NR.: No orçamento do Corinthians para 2018, não é previsto nenhum valor de receita com royalties. 

Comissões no marketing

O Corinthians não é um clube de bairro. Precisou pagar para alguém que não falam quem uma comissão de R$ 2,2 milhões para levar a tal da Fox Lux e Alcatel. O Corinthians precisa de intermediário para patrocinador? É ridículo o Corinthians pagar R$ 2 milhões para alguém intermediar um patrocinador. E olha, com todo respeito, não são patrocinadores à altura da nossa camisa. O Corinthians não precisa disso.

Quer Nike fora do Corinthians

Fizeram agora, ao fechar das portas, uma prorrogação com a Nike para 2029, para fechar o caixa. A Nike está sendo investigada pelo FBI e vou usar isso para quebrar o contrato, se precisar. Está investigada no mundo inteiro por propina. No orçamento, teve um apontamento de que gastou R$ 5 milhões e alguns quebrados pagando a Nike. É a nossa fornecedora. Como eu pago para quem fornece? Tem algo errado.

Já fui estudar, buscar informação. A Nike paga 7 dólares na camisa na China e aqui o nosso torcedor paga R$ 400. Você acha que o Corinthians, com diretoria independente, não pode ir no fornecedor na China e comprar diretamente o uniforme? Compra 1 milhão de camisas e dá uniforme para todas modalidades. No Corinthians, se o atleta de tênis disputa competição, o de remo, precisa pagar o uniforme e paga para viajar. Podemos abastecer as lojas, vender por preço acessível e combater pirataria.

Cartão do Corinthians

O Fiel Torcedor um contrato prejudicial ao clube, feito para beneficiar a Omni e quem está por trás. Temos muita informação e está sendo apurado. Pedi um inquérito e foi arquivado. O programa Fiel Torcedor é elitizado, seletivo e o sócio não consegue comprar ingresso. Ela tem um ganho muito maior no clube para gerenciar um programa que você pode fazer internamente ou através de uma parceria por valor muito menor.

Quero criar um cartão de nome Corinthians, com um marqueteiro, que tem empresa interessada e estou conversando. Sem custos para o torcedor e associado. Independente do dia em que a Omni vai sair. Assim que entrar, vou fazer eles colocarem todo associado do clube ao Fiel Torcedor automaticamente inscrito e sem pagar adesão. O cartão é pré-pago, você põe o valor que quiser e compra o ingresso quem comprar primeiro. Você pode fazer parcerias com supermercado, shopping, o Corinthians atrai uma gama inesgotável de possibilidades. 

NR.: A Omni é a empresa que gere o programa Fiel Torcedor e recebe críticas de dirigentes e do Conselho Deliberativo por receber uma fatia de até 50% dos rendimentos. 

Superintendência de futebol

Não vou mexer no futebol. Acho injusto. Os caras estão indo bem, a comissão faz um bom trabalho e eles foram os responsáveis por ganhar esses títulos. Conheço o clube, conheço o futebol. O clube está um desastre, mas o futebol foi bem. Ninguém apostava nesse time e os caras foram bem, fizeram um bom trabalho, são estudiosos. O Carille está há 10 anos e é estudioso, mas nem a diretoria apostou nele. Contatou quatro caras antes. Vamos mudar o modelo, criar uma superintendência de futebol, que vai ter um profissional e o feminino.

Equipe de veteranos com salário e futebol feminino

Vou criar o time master e profissionalizar para ser outra fonte de renda. O master hoje é entregue politicamente. Levam um cara que jogou no Palmeiras e no São Paulo para fazer festa em cidades e ganhar dinheiro. Vou fazer um contrato com os ex-jogadores, pagar plano de saúde e quem quiser contratar, vai contratar o Corinthians. Vai ter uniforme igual. Vai ter salário. Ex-atleta...vou colocar na base e contratar como olheiro. No profissional, não vamos mexer.

Vamos montar um time feminino da base ao profissional. Barriga de aluguel dos outros não vai ser mais. Como vai arrecadar recursos se joga de barriga de aluguel? Outra vergonha no orçamento: gastaram R$ 1,2 milhão com futebol feminino e a taça da Libertadores está na casa do presidente deles. A previsão para o ano que vem, você imagina vai ser maior porque fizemos barriga de aluguel, mas é o mesmo valor.

NR.: Tuma se refere à parceria recentemente encerrada entre Corinthians e Audax no futebol feminino. Os clubes dividiam despesas, mas para 2018 ficará tudo a cargo dos corintianos. Mesmo assim, a previsão de despesas é a mesma. 

Propostas para a base

Vou botar dentro do guarda chuva da superintendência de futebol. Quando fui vice, tomei a base do Nesi Curi [ex-dirigente] e foi uma guerra porque era vinculada aos esportes terrestres. Eu trouxe o Pupo Gimenes, dei estrutura, montei dormitório e trouxe psicóloga. Ganhamos a Copa São Paulo [1995] e fiz contratos de três anos, revelei sete jogadores. Silvinho, Zé Elias, Marques, André Santos...foi comigo. Vou acabar com esse modelo para empresários. Vou voltar a peneira que fazia na minha época. Todo jogador que começar no clube vai ser 100% nosso do passe. Se amanhã encontrarmos um valor em outro clube que a gente queira trazer, só vem se for 80% direito econômico nosso. 

Disputa na justiça com a Odebrecht

No contrato, puseram uma Comissão de Arbitragem e eu sou contra. Quem fez isso foi a Odebrecht. É uma comissão demorada, cara e temos inúmeras notícias de corrupção sobre ela, sendo muitas envolvendo a Odebrecht. O Corinthians não tem dinheiro para pagar um processo na arbitral. Temos que deixar com eles a ida à justiça.

O relatório [auditoria do estádio] fala em R$ 250 milhões de dívidas, obras não feitas e que precisam ser feitas. A Odebrecht entende que o Corinthians deve R$ 400 milhões para ela. Temos uma divergência de R$ 150 milhões. Há danos materiais e morais, porque o Corinthians foi envolvido na Lava Jato e foi a Odebrecht que fez a denúncia. Quem disse que ia custar R$ 400 milhões e custou R$ 2 bi foi o dono da Odebrecht. Ele que precisa explicar. Se tem dirigentes do clube no meio, eles paguem. O clube não tem culpa.

Faz uma negociação. (...) Quero cinco anos de carência, depois pago a diferença. Pago 8 milhões por ano em 10 anos de um novo contrato. Sai agora, me homologa na Lava Jato, me dá o contrato finalizado e sai da Arena. O que eu arrecadar é meu, aí vou negociar naming rights e espaços.

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