Marin é considerado culpado em seis das sete acusações do governo dos EUA

James Cimino

Colaboração para o UOL, em Nova York (EUA)

  • Foto: AFP

Após 26 dias de julgamento e seis dias de deliberação, o júri da Corte do Brooklyn, em Nova York chegou a um veredito parcial nesta sexta-feira (22), e José Maria Marin foi condenado por seis dos sete crimes de que foi acusado. São eles: conspiração para organização criminosa, fraude financeira nas Copas América, Libertadores e do Brasil e lavagem de dinheiro nas Copas América e Libertadores. Sua pena máxima pode chegar a 120 anos de prisão.

A juíza Pamela Chen determinou que Marin seja encaminhado imediatamente para uma prisão federal. A magistrada considerou os argumentos apresentados pela defesa como insuficientes para evitar a ida para a penitenciária.

O veterano dirigente foi inocentado apenas na acusação referente a sua atuação nos bastidores de negócios de direitos de transmissão da Copa do Brasil. Com a recomendação do júri, agora a expectativa fica por conta da sentença por parte da juíza do caso, Pamela Chen, em desdobramento ainda sem previsão de data  a decisão deve sair apenas ao longo de 2018. A magistrada disse que, em seus cálculos, a sentença não deverá ser menor que 10 anos de prisão.

Os advogados de Marin tentaram evitar a prisão usando como justificativa a idade avançada (85 anos) e as condições de saúde do ex-presidente da CBF. De acordo com a defesa, Marin faz tratamento para hipertensão e depressão.

Na visão da juíza, os dois tratamentos são feitos normalmente por qualquer prisioneiro. Além disso, considerou que com a decisão do júri aumenta a chance de Marin e Napout fugirem do país. Para Pamela Chen, o fato de os dois serem ricos e com muitos contatos facilitaria uma possível fuga.

Em sua declaração, a juíza disse não acreditar que os dois se livrarão de passar certo período na prisão. "A prisão deles vai acontecer de um jeito ou de outro. Não acho que o estado de saúde e a idade avançada vão mudar o fato que ele irá pegar pelo menos algum tempo de cadeia".

O advogado Julio Barbosa, que faz parte da equipe de defesa de Marin, disse que a partir de agora serão feitas duas apelações: uma para tirar seu cliente da cadeia e outra para recorrer da decisão do júri. Segundo ele há "algumas evidências que não foram apresentadas e que mudariam a sentença". Ainda de acordo com Barbosa, um debate que deveria ter sido feito era o referente à legislação estrangeira, já que alguns dos crimes cometidos por Marin não têm o mesmo peso perante a legislação brasileira.

Durante o julgamento, a juíza Pamela Chen proibiu que este argumento fosse sequer apresentado ao júri, pois isso iria confundi-los. Além do que, os réus deveriam ser julgados de acordo com a lei americana.

Ex-presidente da Conmebol também considerado culpado

O julgamento de Marin ocorre conjuntamente ao de Juan Ángel Napout, ex-presidente da Conmebol, e Manuel Burga, ex-presidente da Federação Peruana de Futebol, mas diversos outros dirigentes esportivos foram citados – inclusive Ricardo Teixeira, antecessor de Marin no comando da CBF, e Marco Polo Del Nero, atual ocupante do cargo máximo da entidade, que não foi julgado nos Estados Unidos porque o Brasil não extradita seus cidadãos.

Nesta sexta-feira, o júri também recomendou a culpa de Napout em três das cinco acusações em que estava envolvido: conspiração para organização criminosa, fraude financeira nas Copas América e Libertadores. No entanto, o júri ainda não chegou a uma decisão final sobre Burga.

Ao todo, o valor pago em propinas chega a US$ 76,7 milhões (R$ 253,3 milhões, aproximadamente), sendo que Marin, em associação com Del Nero, de acordo com o tribunal americano, embolsou US$ 6,5 milhões ao longo dos últimos anos.

Desde 6 de novembro, a Promotoria dos Estados Unidos ouviu testemunhas, delatores e especialistas técnicos e colheu como principais provas sobre Marin uma conta bancária da empresa Firelli, de sua propriedade, no banco Morgan Stanley de Nova York, o uso do aeroporto La Guardia e do aeroporto de Miami para promover o anúncio da Copa América Centenário, quando Marin encontrou-se com o empresário J. Hawilla, da Traffic, que estava grampeado pelo FBI, e discutiu o esquema de propinas. Outro agravante são as transferências bancárias feitas usando as águas territoriais do distrito de Nova York.

No julgamento, a defesa de Marin tentou desqualificar o papel do então presidente da CBF nas decisões de propina e atribuiu os atos de corrupção a Marco Polo Del Nero – o advogado Charles Stillman chegou a usar a metáfora da monarquia, em que Marin era o rei decorativo e Del Nero o verdadeiro articulador político dentro da entidade.

A trajetória pública de Marin

Nascido em São Paulo em maio de 1932, José Maria Marin foi jogador de futebol que viveu o auge da carreira no São Paulo, pelo qual atuou em 20 partidas. Formado posteriormente em Direito, ele entrou para a política na década de 60 e ocupou diversos cargos: vereador, deputado estadual, vice-governador e governador de São Paulo, entre maio de 1982 e março de 1983, indicado pelo regime militar.

A trajetória como dirigente esportivo teve início na Federação Paulista de Futebol, que comandou entre 1982 e 1988, e como vice-presidente da CBF na região sudeste. Assim, ele assumiu a presidência da entidade máxima do futebol nacional em 12 de março de 2012, quando Ricardo Teixeira renunciou. Também à frente do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014, Marin deixou o cargo no início de 2015, quando assumiu Marco Polo Del Nero.

Marin foi detido pelo FBI em 27 de maio de 2015, junto com outros dirigentes do alto escalão da Fifa durante evento oficial em Zurique, na Suíça, e está preso desde então à espera do julgamento.

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