Sem Jô, campeão Corinthians perde maior referência dentro e fora de campo

Dassler Marques

Do UOL, em São Paulo

  • Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians

    Gols em clássicos foram apenas uma das marcas de Jô na volta ao Corinthians

    Gols em clássicos foram apenas uma das marcas de Jô na volta ao Corinthians

A perda de Jô era motivo de preocupação no Corinthians há pelo menos três semanas, quando o presidente Roberto de Andrade foi avisado pelos representantes sobre a iminência de uma proposta. Na última semana, pouco antes de se desligar, o diretor de futebol Flávio Adauto e o próprio Roberto selaram a venda de R$ 38 milhões para o Nagoya Grampus-JAP. A perda para o atual campeão paulista e brasileiro é maior do que se pode imaginar. 

Jô foi responsável por 29% dos gols marcados pelo Corinthians em 2017 e líder de participação direta em gols, com um índice de 36%. Aos 30 anos, o centroavante teve importância maior até do que mostram os números dentro da construção de jogo da equipe de Fábio Carille, que agora analisa os próximos passos para seguir.  

Desde a perda de Paolo Guerrero, no meio de 2015, as comissões técnicas do clube procuraram um jogador capaz de exercer o papel tático de Jô. Vagner Love teve seus momentos positivos na reta final daquele ano, mas os erros no mercado em busca de um centroavante foram vários. Desde o pouco expressivo Lincom ao decepcionante Gustagol. No meio do caminho teve André, que não conquistou a torcida e saiu pelos fundos, ou o turco Kazim, que mostrou mais carisma que qualidade. 

Jô, com técnica acima dos padrões atuais do futebol brasileiro com sua perna esquerda, ainda ajudou muito na bola aérea. As saudades deixadas por Guerrero, que era capaz de vencer boa parte das disputas por cima, foram preenchidas pelo novo centroavante, que também deixa Fábio Carille sem o jogador líder nos testes de velocidade. 

Mais do que gols, Jô foi o homem a anotar nos jogos importantes. Ele, por exemplo, marcou duas vezes contra o Santos, duas diante do Palmeiras e outras três sobre o São Paulo apenas nesta temporada. No momento crucial do ano, o título do Campeonato Brasileiro veio em duelo contra o Fluminense. E quem brilhou? O homem gol, que fez duas vezes em três minutos e permitiu a festa em Itaquera. 

Exemplo para os colegas. Espelho para as arquibancadas

Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians
Jô faz a festa com Arana: pupilo do centroavante

Falar sobre o estádio, sediado no bairro onde Jô cresceu e atuou na base do clube, é importante. Afinal, o atacante mostrou identificação de sobra com os torcedores desde que saiu do banco de reservas para anotar um inesquecível gol da vitória, em clássico com 10 contra 11, diante do rival Palmeiras em fevereiro. A narração de Oscar Ulisses, da Rádio Globo, que o batizou de "filho de Itaquera", se tornou simbólica para torcedores. 

Se na primeira passagem pelos profissionais um precoce Jô arrancava reclamações das arquibancadas, o retorno mostrou um jogador muito mais maduro. Com o treinador em particular, ganhou prestígio quando, às vésperas do já mencionado clássico com o Palmeiras, aceitou com tranquilidade a reserva para o turco Kazim. "Só estou aqui para ajudar", disse a Carille. Em 5 minutos em campo, marcou o gol da vitória que mudaria tudo depois.   

Os colegas, rapidamente, também se cativaram pelo espírito de Jô. Entre os mais experientes da equipe, se aproximou dos garotos para dar exemplos. Pediu paciência ao centroavante Carlinhos pela falta de oportunidades - o jovem era chamado de sósia dele, pelo porte físico. Também deu bons conselhos a Guilherme Arana, que surfou ascensão fulminante em 2017 e que normalmente celebrou gols com a marca ZL, em homenagem à Zona Leste, com o próprio Jô. O xodó Pedrinho foi outro muitas vezes aconselhado. 

Entre os capitães mais vezes escalados por Carille no ano, Jô também foi um dos homens buscados pelo treinador na hora de passar mensagens ao grupo, como de pedir tranquilidade na janela de transferências e nos momentos de muito destaque ou muita pressão durante o Brasileiro. O passado como alcoólatra permitiu a ele dar exemplos positivos. Seu comprometimento nos trabalhos, desde que se apresentou em novembro de 2016 sem poder estrear, foi várias vezes exaltado. O rigor com a alimentação, que promoveu perda de peso significativa, também era algo sempre ressaltado por funcionários.   

A conduta de Jô fez dele a maior referência do Corinthians de Carille pelas entrevistas tranquilas em vitórias e também em derrotas, como na eliminação da Copa do Brasil, em que pediu paciência, ou na queda no returno do Brasileiro, quando reforçou a distância da equipe na liderança. Sempre por perto com a  esposa Cláudia e o pai Dário, presentes à maioria das partidas em Itaquera.

Com um histórico tão positivo dentro da temporada, e conduta irreparável, era natural que Jô recebesse apoio incondicional dos colegas quando virou vilão nacional. O gol feito com o braço, em 17 de setembro contra o Vasco, fez com muitos questionassem sua falta de fair play. Presente na semifinal do Paulista porque o rival Rodrigo Caio evitou um cartão amarelo dele, não acusou o gol irregular meses depois. Parentes, funcionários, dirigentes e membros do elenco não hesitaram em reerguer o centroavante, que viajou cabisbaixo para o jogo seguinte na Argentina, frustrado pelas acusações. 

Contratado em troca de luvas que renderam críticas no Corinthians, mas de valores nunca ditos pelo clube, Jô deixará mais de R$ 30 milhões à vista no caixa do clube. O valor bruto do negócio é de R$ 38 milhões, mas serão abatidos impostos e comissões. Nada mal para o Filho de Itaquera, que já ajudou a encher a sala de troféus e os cofres em uma transferência para a Rússia, em 2006, além de várias outras mudanças internacionais que agraciaram o clube onde ele foi formado e de onde parte novamente.  

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