Ex-goleiro do Palmeiras teve ajuda de Milton Neves para curar alcoolismo

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

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    Ex-goleiro João Marcos (esq.) em passagem pelo Palmeiras

    Ex-goleiro João Marcos (esq.) em passagem pelo Palmeiras

Não é raro ver notícias de jogadores de futebol que se entregaram ao alcoolismo depois que penduraram as chuteiras. Em alguns episódios, infelizmente, a recuperação não acontece. Felizmente, não foi o caso de João Marcos, ex-goleiro de Palmeiras, Grêmio (vice da Libertadores em 1984) e seleção brasileira (jogou uma partida).

Depois de dez anos entregues à bebida, o ex-jogador, que está com 64 anos e mora em Botucatu (SP), cidade onde nasceu, hoje pode afirmar com todas as letras que, finalmente, está curado. E esta cura pode ser colocada na conta de duas pessoas em especial: o jornalista Milton Neves, apresentador da TV Bandeirantes, e o empresário Reinaldo Henrique Moreira – a quem Milton se refere da seguinte forma: "um baixinho que tem um coração maior que ele".

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Em entrevista ao UOL Esporte, Milton Neves, direto de Nova Iorque, emocionou-se ao relembrar a história de João Marcos, que através do jornalista e, depois, do empresário, conseguiu receber tratamento em uma clínica de Mogi das Cruzes (SP). "Costumo dizer que jogador 'véio' é comigo mesmo, e esses caras forjaram a minha carreira, ao gostar de futebol nos anos 60 e do Santos. Eu botei na cabeça que eu tinha que trabalhar no rádio em São Paulo, e eu vim e minha vida mudou totalmente. Então eu tenho uma gratidão por esses ex-jogadores. Minimamente eu destino uma parte disso para ajudar ex-jogadores, e as famílias estão aí, todas gratas", iniciou Milton Neves, para depois contar nos mínimos detalhes o que aconteceu durante um programa que apresentava na Rádio Bandeirantes.

"Um dos casos mais emblemáticos foi o do João Marcos. Eu não conhecia o João Marcos, não entrevistava o João Marcos, mas um dia, num domingo o João Marcos telefonou espontaneamente de Botucatu para a Rádio Bandeirantes de São Paulo, e ele começou a falar comigo fora do ar e balbuciava, chorava, e ele falava que queria entrar no ar, e eu falei: 'Você está em condições de falar'? Ele falou: 'estou'. Plugamos e colocamos ele no ar, e ele espontaneamente se emocionou, levou às lágrimas milhares e milhares de ouvintes dizendo: 'eu estou no fundo do poço, eu sou um alcoólatra em último estágio, ou eu paro de beber ou eu morro dentro de alguns poucos dias, eu preciso de ajuda pelo amor de Deus".

Em tom emocionado, João Marcos prosseguiu: "Milton Neves, você que gosta tanto de ex-jogadores me ajude, eu já perdi tudo, mulher, filhos, família, terras, casa, perdi tudo no copo, o copo é a minha desgraça, me ajude', mas isso espontaneamente, e estou resumindo o que ele falou. E o que aconteceu? Um ouvinte meu, que eu conheci e hoje é um grande amigo meu, graças a João Marcos, chamado Reinaldo Henrique Moreira, se comoveu tanto que ele, pessoalmente, foi a Mogi das Cruzes, reservou um lugar numa das melhores clinicas pra recuperar drogados e alcoólatras, foi à cidade de Botucatu, pegou o João Marcos, levou ele, e o João Marcos ficou uns dois, três meses lá e acabou se recuperando; foi candidato a vereador em Botucatu, a cidade não acreditava mais nele, mas ele começou a dar aulas depois de recuperado para meninas e meninos e a sociedade de Botucatu o abraçou de novo", disse.

"Quando eu cheguei na clínica, estava muito mal"

Antes de falar com Milton Neves, a reportagem do UOL Esporte conversou com João Marcos, que contou essa e outras histórias de sua vida e de sua carreira profissional. E, por tudo que fizeram por ele, o jornalista e o empresário não foram esquecidos ao longo da entrevista. Ao ser questionado como conseguiu largar a bebida, o ex-goleiro lembrou imediatamente dos dois.

"Foi através do Milton Neves [que largou a dependência do álcool], ele me ajudou, e através do empresário Reinaldo Henrique Moreira. Ele que me acompanhou. O Milton Neves me encaminhou para uma clínica através do Reinaldo, que viu o meu caso e achou que deveria me ajudar. Não fiquei muito tempo, mas quando eu cheguei nessa clinica eu estava muito mal, e o Reinaldo mandou a clínica fazer todos os exames em mim, e a notícia não foi boa. A própria clinica falou que era bom tirar eu de lá porque eu ia morrer lá. Daí o Milton Neves quis me levar para São Paulo e eu falei: 'Não, aguarda um pouco que eu vou para Botucatu que eu tenho alguma coisa para resolver'. São aquelas histórias de balelas que a gente inventa. Aí eu vim para cá, me enfiei dentro de casa e comecei a seguir o tratamento que o médico daqui tinha me dado. Eu não podia sair de casa. A minha situação era muito ruim, eu não tinha coordenação: eu ia subir numa calçada, achava que tinha levantado a perna, mas a perna não respondia, então eu caía", conta.

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Ex-goleiros do Palmeiras: Ivan, Marcos, Sérgio, Velloso, João Marcos e Chicão
João Marcos avalia que os dez anos de bebida fizeram com que o seu corpo ficasse em um estado lastimável. Quase à beira da morte, o ex-goleiro relembra a importância que a leitura da Bíblia teve em sua recuperação e diz que a fé o ajudou a curar os graves problemas pelo qual passava.

"Aí eu comecei a ler a Bíblia e, quando terminei de ler, eu já senti alguma coisa diferente em mim. Eu fui fazer um exame porque eu tinha que fazer uma cirurgia no esôfago, e eu falei: 'Ah, eu nem vou fazer', falei para o médico. 'Eu vou fazer para quê? Eu estou até sabendo que eu vou morrer mesmo, não adianta nada eu sofrer mais aqui'. Eu tinha hemorragia interna por causa da bebida... Aí o enfermeiro deu a anestesia e eu entrei para a sala. Quando acordei estava no quarto e o enfermeiro falou para mim: 'Você não falou que estava com vontade de comer pão de queijo? Desce lá e come e vai embora', e eu falei: 'Como é isso? Desce lá e vai embora? O que aconteceu'? Aí o enfermeiro falou: 'Nada, você não foi operado'. Eu perguntei: 'Não fui operado por quê'?  Ele respondeu: 'Isso eu não sei, é com o médico'. Nisso o médico entrou e eu já estava louco da vida: 'Nossa, eu sofri tanto para chegar até esse ponto aqui de fazer a cirurgia e vocês não fizeram'? O médico disse: 'Não fizemos, João. Fizemos a endoscopia e cadê os lugares que tinham os rompimentos? Está tudo no lugar. Você pode ir embora. Cheguei em casa e no outro dia eu tinha outra consulta com outro médico, e eu estava deitado e comecei a pôr a mão no meu fígado e falei: 'Caramba, cadê o meu fígado'? No outro dia eu fiz o ultrassom e meu fígado tinha voltado para o tamanho normal. A médica minha amiga falou: 'Nossa, como é que pode? Você estava condenado'. São coisas que Deus faz", celebra o ex-goleiro.

O início do drama com o alcoolismo

Ao relembrar o início de seu problema com o álcool, João Marcos diz o fim precoce de sua carreira pode ter contribuído. Ele teve de interromper aos 30 anos após defender o Grêmio. Tudo por conta de dores no braço que não melhoravam. A lesão ocorreu na partida entre Palmeiras e São Bento em um lance com um companheiro de equipe.

"Era um jogo sem importância, com o campeonato já decidido. Cruzaram na área, eu saí para pegar a bola, e peguei, só que eu senti alguém batendo na minha perna; eu estava no alto e, no ato de eu pegar a bola, eu ia soltar para poder cair; e quando eu olhei a camisa era verde, e eu pensei: 'vou ter que cair com a bola', e quando eu caí o meu cotovelo entrou no chão e o meu braço foi parar no meio do meu peito. O lance foi com o Carlão, que era lateral do Palmeiras na época", recorda.

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Segundo João Marcos, ele jamais foi o mesmo após a contusão. "Fiz um tratamento para fortalecer o braço e depois de dois anos parado fiz a cirurgia em Bauru", explica. O ex-goleiro afirma que um diagnóstico médico pode ter complicado o seu retorno. "Vi que o erro foi médico, não foi erro meu, e daí eu comecei a me castigar depois que eu parei, me culpar por eu não ter procurado um especialista. Tinha cirurgia que eu podia até voltar a jogar, tanto que eu fiz a cirurgia em Bauru depois", disse.

Mesmo sem estar 100%, João Marcos diz ter sido procurado por Atlético-PR e Vasco, mas optou por defender o Novorizontino por razões pessoais. "Resolvi ficar lá, porque eu tinha uma fazenda em Novo Horizonte. Mas no Novorizontino não deu certo; eles pensavam que porque eu era goleiro de seleção, do Grêmio e do Palmeiras eu ia resolver todo o problema do time. Não tem como", relembrou. Depois do clube paulista, ele ainda passou pelo Grêmio em 1986, mas decidiu encerrar a carreira aos 30 anos.

Após isso, ele passou a enfrentar o maior drama da carreira. "Tinha 30 anos, era novo... Isso que me magoou depois. Não que eu tenha entrado na dependência alcoólica por causa disso, não existe desculpa para você se justificar. Cada um tem a sua história. Depois que você consegue sair daquilo você vê que não é questão de desculpa disso ou daquilo: 'ah, ele bebe porque a mulher o largou, ah ele bebe por isso'. O cara bebe porque ele experimentou e o organismo dele pede. Depois que entrou, o organismo não consegue mais eliminar, ele precisa de ajuda, ele tem que pedir ajuda para conseguir sair, sozinho é muito difícil", acrescenta João Marcos, que diz ter perdido muita coisa ao longo dos dez anos em que ficou entregue à bebida.

Um livro para contar a recuperação

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Ciente de sua dificuldade, o ex-goleiro decidiu procurar Milton Neves e, a partir daí, iniciou o seu tratamento para deixar o vício. Desde então, Milton Neves não perdeu contato com João Marcos, e fez parte até do livro "A maior de todas as defesas", escrita por Erick Faciolli para contar a história de vida do ex-goleiro. "Ele foi recuperado por Deus, pela Rádio Bandeirantes e pelo Reinaldo Henrique Moreira, e virou um ícone na luta contra o alcoolismo. Ele escreveu um livro e eu fiz o prefácio. O João Marcos está sempre em contato comigo, é um dos caras mais maravilhosos que conheci na minha vida. Agora, quem realmente ajudou o João Marcos foi o cidadão chamado Reinaldo Henrique Moreira, que não ajudou só ele", afirmou. Segundo o jornalista, o empresário costuma ajudar outros ex-jogadores com até R$ 2.000 através de Milton Neves.

Mas o caso do ex-goleiro ainda é um dos mais marcantes para o jornalista. "O João Marcos é um exemplo de recuperação. Ele nunca mais bebeu e a frase principal dele é: 'o alcoólatra é um mentiroso, eu era um bêbado mentiroso, falava que bebia só uma dose e tinha tomado três garrafas; eu menti para meus filhos, menti para meus amigos, menti para minha ex-mulher, porque o alcoólatra é um mentiroso'. Então, falar na época com o João Marcos na Rádio Bandeirantes e falar agora com você de Nova Iorque, e falando de João Marcos, é uma coisa emocionante".

Hoje, o ex-goleiro é técnico das equipes da Associação Atlética Botucatuense do sub-11 ao sub-15. Para ele, simplicidade é o mais importante depois de tudo o que passou. "Eu sou treinador e depois de você passar tanta coisa na vida, se tem uma coisa que não me preocupa é dinheiro, porque a gente tem aquilo que necessita, eu tenho o meu carro, casa, dinheiro pra sobreviver, então o que eu mais vou querer? Ah eu aceito doação de chuteiras, shorts, camisetas eu aqui aceito tudo para a criançada, pode procurar eu direto no Facebook como João Marcos Marques Coelho da Silva, eu agradeço muito, assim eu ajudo as crianças. "

"Fiquei uns dez anos [entregue ao alcoolismo] e por causa disso eu perdi um casamento, os filhos, mudei de cidade...Financeiramente eu não perdi nada, não, vivo com a minha segunda esposa há 10 anos", completa o ex-goleiro, ciente que venceu um de seus maiores adversários fora dos campos.

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