Hoje na Austrália, ele deixou Corinthians cedo para virar ídolo na Turquia

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

  • Mark Kolbe/Getty Images

    Técnico do Sydney FC, Graham Arnold cumprimenta atacante Bobô, ex-Grêmio

    Técnico do Sydney FC, Graham Arnold cumprimenta atacante Bobô, ex-Grêmio

Aos 32 anos, Deyvison Rogério da Silva, o Bobô, acumula passagens por apenas três clubes no Brasil: Corinthians, por onde mais atuou e foi revelado, Cruzeiro e Grêmio. Mas foi fora do país, mais especificamente na Turquia, que o atacante conseguiu brilhar e teve os momentos mais marcantes de sua carreira, ao menos até aqui – hoje ele defende o Sidney, da Austrália.

Com a camisa do Besiktas, clube o qual defendeu por cinco anos (2006 a 2011), Bobô balançou as redes 97 vezes em 222 jogos – quase um gol a cada duas partidas. Alcançou, desta forma, uma marca que ainda lhe pertence: a de maior artilheiro estrangeiro da história do tradicional clube turco.

Reprodução/Facebook
"Quando eu cheguei lá na Turquia, um país totalmente diferente, saindo de um clube como o Corinthians, foi difícil nos primeiros dois, três meses, mas depois consegui me adaptar muito bem com o país. É um povo bem parecido com o brasileiro, os caras são loucos por futebol também e a paixão é muito grande", recorda Bobô em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Um gol logo em seu primeiro jogo, porém, ajudou a deixar as coisas mais fáceis. "Na minha estreia eu consegui fazer um gol, e isso me ajudou muito. Fui campeão da Copa [2006/07, 2008/09 e 2010/11], da Liga [2009] e, no decorrer dos anos, me tornei o maior artilheiro estrangeiro da história do clube, e é um marco que até hoje está lá, ninguém conseguiu tirar, e eu sou lembrado por isso até hoje. O pessoal de lá sempre me manda mensagem, relembram os meus gols feitos contra os rivais, é bem legal. Me mandam mensagens até hoje", celebra.

Dois gols, em especial, ainda estão mais do que vivos na memória de Bobô. Um pela Liga dos Campeões e outro em clássico contra o ex-time de Alex e Roberto Carlos: "Tem vários [especiais], mas tem um contra o Liverpool, na Champions League [2007/08], jogando em Istambul, que eu fiz o segundo gol e a gente ganhou de 2 a 1; o estádio estava uma loucura, lotado, e a torcida veio abaixo. Foi uma gritaria que você não conseguia falar com ninguém. E tem jogos contra o Fenerbahce que nós ganhamos duas finais da Copa da Turquia [2009], e quem jogou na Turquia sabe como é essa rivalidade, e em uma delas nós ganhamos de 4 a 2 e eu fiz dois gols. Tem vários outros marcantes, mas estes dois são os que se destacam mais".

Saída do Besiktas se deu por conta do próprio empresário

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A ideia de Bobô era permanecer por mais anos defendendo as cores do Besiktas. Porém, um atrito entre seu empresário na época,Juan Figer, e dirigentes do clube anteciparam a sua saída, em 2011. "Isso aí foi uma confusão que deu no clube. Eu tinha uma boa relação com o presidente, ele me tratava como se eu fosse do Besiktas, porque eu fui muito novo para lá, com 21 anos, e foi uma aposta dele, então ele gostava muito de mim. Só que entraram outros diretores que estavam investindo no clube e os caras queriam contratar jogadores, e o meu empresário Juan Figer acabou se desentendendo com esses outros dirigentes", recorda.

"O presidente queria que eu ficasse, só que esses diretores estavam colocando dinheiro no clube, estavam com moral, e acabaram não acertando com o meu empresário. Foi uma coisa que eu me arrependo muito. Eu poderia ter ficado não só cinco anos e meio lá, mas uns dez anos. Sobrou para mim essa desavença entre o meu empresário e os diretores", conta.

Da Paraíba ao Corinthians e os títulos da Copinha

Natural de Gravatá, cidade do interior de Pernambuco, Bobô chegou às categorias de base do Corinthians aos 15 anos depois de se destacar em um campeonato sub-15 com a seleção da Paraíba, disputado em Sorocaba (SP). Na época, o ainda futuro atacante profissional já morava em João Pessoa (PB) com o irmão, mas se mudou de mala e cuia para a capital paulista para realizar o sonho que tinha desde criança. Foram mais quatro anos até subir para o profissional.

"Eu subi para o profissional do Corinthians em 2004 e, na época, os meninos como eu, Jô, Abuda e Elton, quando a gente não jogava no profissional ou era aproveitado para ficar no banco de reservas, a gente descia para jogar nos campeonatos de juniores, e nós fomos campeões da Copa São Paulo de 2004 e 2005, e subiu bastante gente naquela época", recorda.

A concorrência com astros da MSI e a saída antes do planejado

O que Bobô não contava era a forte concorrência que encontraria no time que passou a ser recheado de estrelas com a chegada da MSI. Com as presenças dos badalados Nilmar e Tévez no ataque corintiano, o atacante da base não permaneceu por muito tempo no clube.

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"Na verdade, eu penso que eu saí cedo do Corinthians, porque na época que a gente subiu em 2004, antes de a MSI entrar, o time foi mal pra caramba no Brasileiro, e depois era uma pressão grande e não eram os garotos que subiram da base que iam segurar um Brasileiro com um clube como o Corinthians. Mas em 2005, quando chegou a MSI e trouxe todos os grandes jogadores - Tévez, Nilmar, Carlos Alberto -, os moleques que subiram da base ficaram sem espaço, o que até é uma coisa normal, dá para se entender: a MSI investiu muito dinheiro nestes jogadores e eu acredito que eu e o Jô fomos os que mais entramos naquele Brasileiro de 2005; eu acabei fazendo três gols e depois, já em 2006, apareceu essa oportunidade [Besiktas]", conta.

"Mas penso que saí cedo do Corinthians, poderia ter esperado um pouco mais, mas como é que eu ia saber né? Como eu ia saber se seria melhor aproveitado? Eu poderia ter esperado um pouco mais, mas não vejo que foi um erro meu ter saído, porque para mim foi muito bom também. E tem um detalhe também: com Tévez e Nilmar, não tinha como deixar um dos dois no banco. Eles tinham acabado de chegar e foram contratados por milhões. Não tinha como um treinador barrar um cara desses para ter um moleque que estava subindo da base, seria um negócio inaceitável. Mas eu digo que eu poderia ter esperado um pouco mais até porque eles saíram depois e outros jogadores tiveram oportunidades", diz.

Rebaixamento visto da Turquia: "muito triste, mas foi divisor de águas"

Um ano após ser negociado com o Besiktas, em 2007, Bobô viu, de longe, o clube pelo qual foi revelado ser rebaixado para a Série B pela primeira vez em toda sua história. Apesar do momento triste, o atacante considera a queda um 'divisor de águas' na história do Corinthians, que cresceu após retornar à elite.

"Foi uma tristeza. A grande maioria dos jogadores que estavam lá eu conhecia, tinha muita gente da base, e a tristeza foi grande por ter vivido dentro do clube, pelo carinho que eu tenho pelo clube, por ser o clube da minha formação. Mas aquilo fez o Corinthians renascer. Depois do rebaixamento o Corinthians começou a ganhar tudo: Brasileiro, Libertadores e Mundial, hoje tem estádio, tem um grande CT, se estruturou muito, e acho que aquilo ali, o rebaixamento, foi um divisor de águas para o clube, foi um renascimento", opina Bobô.

VEJA MAIS TRECHOS DA ENTREVISTA:

Passagem ruim pelo Cruzeiro

Washington Alves/Vipcomm
Eu estava de férias no Brasil, acabou o meu contrato lá na Turquia, era final de maio de 2011, e eu só fui assinar com o Cruzeiro no final de julho, e o Brasileiro já estava rolando e eu cheguei para fazer uma pré-temporada no meio do campeonato. Eu fiz a primeira semana de pré-temporada, e o Cruzeiro estava muito mal naquele ano, tinha muitos jogadores machucados uns 15 no departamento médico, e não tinha jogador para jogar, e aí eles falaram: 'Vamos ter que antecipar a sua estreia porque a gente não tem jogador'. E eu ia falar o quê? 'Vamos lá, vamos ver'. Aí falaram: 'Você vai entrar no segundo tempo, pode ficar tranquilo, até porque você não tem condições físicas ainda'. Aí beleza, num jogo eu entrei, só que no segundo jogo eu ia começar jogando, em Porto Alegre, contra o Internacional, e eu acabei lesionando o adutor da coxa, porque atropelou etapa, e fiquei dois meses parado e fui voltar no final de outubro. E o treinador já não era mais o Joel Santana, era o Vágner Mancini. Já era quase final do campeonato, o time brigando lá embaixo, e quando eu voltei faltavam quatro jogos para acabar e nem acabei jogando mais no Brasileiro. No ano seguinte tive a pré-temporada com o Mancini, mas também acabei não jogando com ele, e no final do Campeonato Mineiro eu fui embora e voltei para a Turquia; acertei com o Kaiserispor e fiquei três anos lá. Depois fui para o Grêmio.

Grêmio e Roger Machado: "vou torcer por ele"

Lucas Uebel/Grêmio
No Grêmio foi muito legal. Eu fiquei um ano. Tive uma sequência boa no Campeonato Gaúcho, joguei na Libertadores, onde o Grêmio saiu nas oitavas de final para o Rosário Central da Argentina. O nosso treinador era o Roger Machado, que hoje acertou com o Palmeiras. Eu tive uma sequência boa com o Roger lá: joguei Campeonato Gaúcho, Libertadores, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro, e aí eu recebi a proposta do Sidney, aqui da Austrália. Eu tinha contrato com o Grêmio até o final de 2016 e antes eu procurei saber como era o país aqui, falei com um amigo que tinha jogado comigo na Turquia e ele falou coisas boas do clube, bem estruturado, que o país é sensacional para se viver, e eu já estava com 31 anos. Aí conversei com o Roger Machado: 'eu não queria te liberar porque aqui não tem um jogador com a sua característica, mas também não dá para você ficar aqui querendo sair, faz o que é melhor pra você'. O Roger foi muito gente fina, é uma pessoa muito transparente, e eu acabei decidindo em sair do Grêmio e hoje estou aqui no Sidney. E o Roger Machado é um cara muito honesto, transparente com os jogadores dele, e isso é uma coisa legal. Ele é um treinador novo e agora está no Palmeiras... Espero que ele tenha sucesso, eu vou torcer para ele. O Roger foi muito transparente comigo.

Futebol australiano: "os caras correm demais"

Jason McCawley/Getty Images
Foi uma novidade grande para mim. Eu procurei informações, mas no Brasil ninguém tinha ouvido falar do futebol australiano, para ser sincero. Aí tem esse amigo meu que estava aqui, eu tinha jogado com ele na Turquia, e eu perguntei para ele como era aqui, e ele disse: 'É um futebol de força. Como na Austrália tem muita colônia da Inglaterra, os caras assistem muito o futebol da Inglaterra e tentam fazer o máximo parecido com o [futebol] de lá. Aí eu cheguei e não imaginava que os caras corriam tanto. Aqui os caras correm demais, é muito corrido, eu até me surpreendi. Achei que seria até mais fácil jogar, mas o nível é muito bom, eles têm um espelho, que é o Campeonato Inglês. O pessoal corre bastante, tem muito toque de bola. Você não vê jogador driblar alguém, eles não têm muita técnica, mas têm disciplina tática e batem na bola bem. E correm. Por exemplo: jogador aí no Brasil corre 10 km por jogo, aqui o pessoal corre 13, 14 km por jogo, é muito diferente. No começo eu senti um pouco para me adaptar porque no Brasil tem aquele negócio: o 9 só espera a bola para finalizar, mas aqui o 9 marca os caras, pressiona, tem que fazer gol... No começo foi um pouco difícil para eu pegar esse jeito deles jogarem, até fisicamente, porque eu vinha de um ano no Brasil no Grêmio onde não precisava fazer isso, mas eu me adaptei ao futebol daqui, com a correria dos caras, e estou correndo muito mais que no Brasil. Sábado passado eu fiz três gols, agora eu sou artilheiro, com dez. Eu tenho contrato com o Sidney até o final de maio de 2018.

Sucesso só fora do Brasil. Por quê?

É estranho isso. Na verdade é assim: desde quando eu estava começando a minha carreira, no Corinthians, o pessoal que me via jogar falava: 'Cara, a sua característica de jogar não é no Brasil, você tem mais jeito de europeu, mais de bola aérea'. Eu nunca tive muita técnica, mas eu sempre fiz gols, então é aquele negócio; é uma característica mais europeia, eu sempre cresci ouvindo isso na base do Corinthians e acabou sendo uma realidade na minha vida.

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