28 reforços e obra no vestiário: Corinthians iniciava retomada há 10 anos

Diego Salgado e Vanderlei Lima

Do UOL, em São Paulo

  • Folhapress

    Chicão comemora gol pelo Corinthians em 2008: reconstrução e títulos

    Chicão comemora gol pelo Corinthians em 2008: reconstrução e títulos

Grupo desmontado, contratações em atacado e obras urgentes nos vestiários do clube a pedido de um técnico recém-contratado. Foi por meio dessas ações que o Corinthians iniciou há exatos dez anos a retomada depois de ser rebaixado à Série B do campeonato Brasileiro no começo de dezembro de 2007. Em uma década, a equipe alvinegra conquistou 11 títulos, incluindo a inédita Libertadores e o Mundial, além de três taças do Brasileiro.

Sair do grupo de elite do Brasileirão pela primeira vez na história fez o Corinthians apostar na renovação da equipe. Jogadores como Vampeta, Zelão e Gustavo Nery deixaram o clube. Para comandar um novo time, a diretoria alvinegra apostou em Mano Menezes na vaga de Nelsinho Baptista.

Trazido às pressas, o treinador gaúcho citou o Grêmio como inspiração na sua apresentação. Mano assumiu o time tricolor em abril de 2005, meses depois do descenso no Brasileirão. Em dois anos, o comandante não só levou a equipe à elite do nacional, como chegou à final da Libertadores - na decisão, os gremistas foram superados pelo Boca Juniors.

Experiente no cenário de terra arrasada, Mano chegou ao Corinthians apenas dois dias depois do rebaixamento. Naquela ocasião, a diretoria já havia acertado com os primeiros reforços para a temporada 2008: o meia Rafinha e o atacante Lima, que tiveram vida curta no Parque São Jorge - até setembro do ano seguinte, mais 26 atletas seriam contratados para os primeiros passos da reconstrução.

Até o fim do mês de dezembro, outros seis jogadores foram contratados: os zagueiros Chicão, William, Valença e Suárez, além dos atacantes Acosta e Herrera. Em janeiro, o Corinthians acertou com mais seis: o trio de volantes Fabinho, Bóvio e Perdigão, o meia Marcel e os laterais Alessandro e André Santos.

Mesmo com uma lista extensa de reforços, houve dificuldades no trabalho de reconstrução do time. De acordo com relatos de dirigentes corintianos na época, jogadores condicionaram a transferência ao Corinthians à permanência na Série A nas negociações iniciadas antes do jogo derradeiro do Brasileirão.

Os casos dos zagueiros Chicão e William foram justamente ao contrário. Os atletas, que defendiam Figueirense e Grêmio, respectivamente, preferiram acertar com o Corinthians pela visibilidade e o desafio de levar o time de volta à rota de títulos.

Riscos, porém, também foram colocados na balança por William. Em entrevista concedida ao UOL Esporte, o ex-jogador admitiu que havia uma desconfiança em relação à gestão do futebol corintiano. A figura e um pedido de Mano, entretanto, ajudaram a transferência.

Almeida Rocha/Folhapress
William atuou no Corinthians por três anos

"Eu estava com a insegurança muito grande do que seria o Grêmio com a quantidade de saídas. Tinha o interesse do Mano que eu fosse para o Corinthians. Fiquei meio reticente, não pelo Corinthians estar na segunda divisão. O que mais impactava parecia ser uma desorganização fora de campo", disse William.

Chicão, por sua vez, relembrou à reportagem uma frase dita na coletiva de apresentação. Naquela ocasião, o zagueiro da reconstrução corintiana disse que jogaria no clube até na Série C do Brasileiro.

"Quando eu recebi a proposta do Corinthians, não tinha como recusar. E eu não falo nem da questão financeira. Falo da questão de projetos, de desafios, da questão de você estar subindo na sua carreira e buscar novos ares", explicou o ex-atleta, que acertou com o Corinthians por três temporadas.

Os planos da dupla deram certo. Juntos, eles formaram a defesa titular do Corinthians por três anos seguidos. William foi um dos líderes do time nas conquistas da Série B e do estadual e da Copa do Brasil 2009, essas últimas duas já com Ronaldo no ataque. Chicão foi além: o zagueiro se sagrou campeão mais cinco vezes até agosto de 2013, assim como Alessandro.

Nos primeiros nove meses de 2008, a diretoria corintiana contratou mais jogadores, até chegar ao total de 28 ao fim de setembro. No pacote, estavam o meia Douglas e Morais, os volantes Elias e Cristian. Já Ronaldo acertaria com o clube no fim do ano para mudar de vez a história do Corinthians após se tornar figura imprescindível dentro e fora de campo.

Ricardo NOgueira/Folha Imagem
Reformulado a partir do fim de 2007, Corinthians foi vice da Copa do Brasil em 2008

Os que ficaram e os que foram
O goleiro Felipe foi um dos poucos jogadores poupados pelos torcedores corintianos nos dias seguintes à queda. O jogador foi mantido no time e voltou a se destacar nos temporadas seguintes, até deixar o clube no fim de 2010.

"Ficou eu e os meninos: o Dentinho, o Lulinha, o Fábio Ferreira. O Finazzi ficou no começo, mas depois saiu. Poucos atletas ficaram", relembrou o goleiro, que citou a boa campanha do Corinthians na Copa do Brasil 2008 mesmo com um time completamente novo - finalistas, os corintianos foram derrotados pelo Sport.

"Os primeiros dias foram de protestos, porque até então ninguém aceitava o rebaixamento. Mas ele era uma realidade. Foram chegando atletas poucos conhecidos pelo torcedor corintiano. Com esse time montado, o Corinthians chegou à final", destacou Felipe.

Adriano Vizoni/Folhapress
Ronaldo em ação em treino no CT Joaquim Grava no fim de 2010: novas instalações

O goleiro trata o rebaixamento como um 'mal necessário'. Segundo ele, se o Corinthians não fosse rebaixado em dezembro de 2007, não teria alcançado tantos títulos nos últimos anos.

"Se o Corinthians não caísse, eu não sei se seria essa potência que é hoje. O clube deu um passo para trás para depois dar dois para frente. Foi um mal necessário, infelizmente foi um mal necessário para o Corinthians, pois ninguém quer ser rebaixado", frisou.

Já Betão, revelado pelas categorias de base do clube alvinegro, deixou o Parque São Jorge ao acertar com o Santos algumas semanas depois do descenso. Para o defensor, o rebaixamento fez o clube iniciar uma mudança necessária.
"Existem duas maneiras de ver isso. Claro que rebaixamento não é bom para ninguém, sempre marca. Mas foi um divisor de água para o Corinthians, uma mudança drástica. Muita gente abriu o olho para muita coisa que não estava certa e a partir dali o Corinthians se tornou o que é hoje. Deveria ter se tornado muito tempo antes", disse o zagueiro do Avaí.

Fernando Santos/Folha Imagem
Alessandro, gerente de futebol, em 2008

"Para mim foi muito triste porque me senti incapaz de impedir uma situação ruim num clube que fui criado e gosto. Me senti incapacitado naquele momento, mas serviu com uma grande lição, como crescimento profissional. Me fez uma pessoa madura", completou.


Obras a pedido de Mano
Tão logo chegou ao Corinthians, Mano Menezes começou a implantar mudanças pontuais no dia a dia do clube. Uma delas, segundo os jogadores, foi a melhoria dos vestiários da Fazendinha, uma exigência do novo treinador. A reforma das instalações ocorreu durante a pré-temporada corintiana em Itu.

"Eu nem cheguei a ver os vestiários como eles eram. Quando eu fui para o Parque São Jorge, já tinha uma estrutura boa de vestiários, coisa que os jogadores que conheciam falavam realmente que era bem precária", relembrou William.

"O Mano tem uma visão muito boa do todo, do que precisa ser feito, de como precisa ser feito. Ele cobrou isso. Foi um tipo de cobrança positiva para o Corinthians", disse o ex-zagueiro.

Em setembro de 2010, o elenco profissional do Corinthians deixou de vez o Parque São Jorge para treinar somente no CT Joaquim Grava, erguido com verba obtida por meio de patrocínios trazidos por Ronaldo.

lmeida Rocha/Folhapress
Em 2009, com Ronaldo, o Corinthians conquistou a Copa do Brasil e o estadual

Antes da abertura, no entanto, os jogadores tiveram de superar mais adversidades ligadas à estrutura. "O Corinthians tinha um CT e nem chamávamos de CT, obviamente. A gente se trocava em um contêiner. Era uma coisa absurda pro nível de Corinthians", disse William.

"A Fazendinha estava no período de reforma. A gente chegava no CT e tinha um, dois campos no máximo. Tinha lá um contêiner para gente trocar de roupa, tomar banho. A gente até dava risada, brincava e falávamos para o Ronaldo: 'três vezes o melhor do mundo e tomando banho num contêiner'", relembrou Chicão.

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