Desilusão no Ano Novo: time treina 3 meses, mas imbróglio o tira da Copinha

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação/Federação Amazonense

    Fast foi campeão amazonense sub-20 e base da seleção que iria à Copinha

    Fast foi campeão amazonense sub-20 e base da seleção que iria à Copinha

O Estado do Amazonas é o único do Brasil sem representantes na Copa São Paulo de Juniores em 2018. Um imbróglio que envolve Fast Clube, Federação Amazonense de Futebol e o Governo Estadual por meio da Sejel (Secretaria de Estado da Juventude, Desporto e Lazer) impediu a viagem de 20 jovens jogadores para a disputa do principal torneio de base do futebol nacional às vésperas do embarque. A notícia de que o Fast não viajaria para a Copinha foi recebida pelos meninos no início da noite de 31 de dezembro de 2017.

"Treinamos de manhã no dia 31 e à tarde explodiu a bomba. Fomos todos pegos de surpresa. A maioria dos jogadores chorou, não acreditou. Isso acabou com o Ano Novo de muitos garotos, que não passaram as festas alegres, felizes, e sim chateados. Nem o sentimento dos meninos, que sonharam a vida inteira por isso, foi respeitado", desabafa Darlan Borges, técnico do Fast Clube, em contato com o UOL Esporte.

O Fast era dono da única vaga destinada ao futebol amazonense na Copinha, mas havia um acordo entre três partes em relação à participação: o clube cederia seu nome e estrutura para que fosse feita uma seleção dos melhores jogadores sub-20 do Estado, a Federação se encarregaria de despesas para treinamento e uniformes e o Governo proporcionaria as passagens aéreas de ida e volta para São Paulo. As duas primeiras partes saíram do papel.

A seleção montada por Darlan tinha 12 jogadores do Rio Negro, nove do Fast, dois de Manaus, Nacional e Princesa do Solimões e mais um do Tarumã. Os 28 jogadores iniciaram preparação em setembro de 2017 e até o fim do ano restariam 20 para a viagem até São Paulo. Era algo inédito na história do Estado, com o objetivo de reunir os melhores para fazer uma campanha digna na Copinha. Uma das etapas de preparação foi obtida por meio da Federação Amazonense, que mandou o time para a disputa da Copa de Seleções Estaduais sub-20 organizada pela CBF. Até aí, tudo certo. Mas o fim da história não foi assim.

Emanuel Mendes/Manaus FC
Evento em 23 de setembro apresentou seleção amazonense que treinou até dezembro

Política em cena

Em maio de 2017, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou o mandato do governador do Amazonas, José Melo, por compra de votos nas eleições de 2014. O Estado passou por um governo interino até agosto, quando Amazonino Mendes foi eleito para o cargo. Ou seja, no período de quatro meses, o Estado passou por três grupos políticos. Este processo fez com que a Secretaria de Esportes também passasse por diferentes comandos e visões. Para Thiago Durante, diretor executivo de futebol de base da Federação Amazonense, foi o que fez a diferença.

"Houve uma troca de governo e essa gestão disse que não daria as passagens, enquanto a anterior havia proporcionado para a Copa São Paulo do ano anterior. Daí começou o imbróglio", explica o dirigente.

Oficialmente, o Governo alega que não autorizou o pagamento das passagens porque o Fast Clube não cumpriu duas exigências: falta de prestação de contas da participação na Copa São Paulo de 2017, que deveria ser entregue dez dias úteis após o retorno ao Estado contendo fotografias e relatórios de viagem comprovando o uso de verba pública para o esporte, e solicitação de passagens protocolada com 30 dias de antecedência. 

Divulgação/Sejel
Reunião entre Janaína Chagas, titular da Sejel, e Rafael Melo, da diretoria do Fast

"O dinheiro público precisa ser tratado com seriedade e transparência. Sou amante do esporte e entendo que é muito importante para o futebol amazonense ter um representante na Copa São Paulo. Mas, infelizmente, o Governo não libera passagens sem a prestação de contas", diz Janaína Chagas, atual titular da Sejel.

"Cobraram falta de prestação de contas do Fast, mas quem pediu a vaga foi a Federação Amazonense de Futebol. Essa prestação não era cobrada porque é público e notório que o clube viajou, os jogos passaram na TV. Mesmo assim, foi feita uma prestação de contas em 20 de dezembro com fotos, matérias e súmulas. E aí a explicação deles foi que não tinha mais prazo para tirar as passagens", rebate Thiago Durante. 

O clube alega que a portaria do Governo que estabelece as regras de prestação de contas e solicitação de passagens é de novembro de 2017, já pelas mãos da nova gestão, e não pode punir retroativamente. Apesar das alegações de parte a parte, o imbróglio terminou mal.

Trabalho no lixo

Em 31 de outubro, após reunião final entre Sejel e Fast, o clube anunciou a desistência da disputa da Copinha por meio de um ofício enviado à Federação Paulista de Futebol. Os jogadores que participariam da competição haviam treinado na manhã do último dia de 2017 e ainda estavam reunidos quando a diretoria noticiou o fato. Pessoas do clube, do elenco e da comissão técnica tentaram buscar formas de cobrir os R$ 85 mil referentes à viagem, mas já não havia como voltar atrás.

Divulgação/Federação Amazonense
Darlan Borges foi campeão estadual pelo Fast e montou a seleção para a Copinha

A Federação Paulista recebeu o ofício e buscou no primeiro dia do ano um novo clube para ocupar a vaga. Foi escolhida a União Barbarense, do interior de São Paulo, que entrou no grupo 23, ao lado de Atlético-MG, Osasco Audax e Rio Branco-ES. A entidade não informou o critério utilizado para definir a entrada do time de Santa Bárbara do Oeste e nem as possíveis punições ao Fast, que podem chegar a cinco anos de impedimento no torneio.

Enquanto isso, em Manaus, a seleção estadual foi desmembrada depois de três meses de treinamentos e sem cumprir o objetivo de disputar a Copa São Paulo. Os 20 jogadores e comissão técnica aguardam os próximos passos, mas há uma forte inclinação de alguns garotos em largar o esporte profissional.

"Os meninos deram a vida para ter a vaga, deram a vida nos treinos, debaixo de sol, de chuva, de todas as condições. Aí no dia 31 acontece isso tudo e sem chance nenhuma de alguém fazer algo. A maioria do nosso time é de garotos humildes, tem um monte pensando em largar o futebol, em trabalhar com alguma outra coisa. Isso é o mais triste. São garotos de qualidade, de futuro, que podiam ajudar nossos clubes e nosso futebol, mas não vão conseguir", lamenta Darlan Borges, que dirigiu por três meses um time que não vai jogar.

"Tudo o que fizemos foi em vão. Foi para o lixo. Era nossa Copa do Mundo, o time estava pronto e trabalhado. Eu mesmo estou pensando seriamente em não continuar no futebol. Ainda vou refletir, mas por tudo isso eu não sei se vale a pena. É muita desilusão". 

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