Técnico da adolescência define Cueva: "Mimado, genial e piadista"

Bruno Grossi

Do UOL, em São Paulo (SP)

  • Alexandre Schneider/Getty Images

    Cueva coleciona episódios de genialidade e polêmicas no São Paulo

    Cueva coleciona episódios de genialidade e polêmicas no São Paulo

Christian Cueva é capaz de lances geniais, de decidir clássicos contra os maiores rivais do São Paulo e até de melhorar o futebol de Hernanes. Ao mesmo tempo, pode dar trabalho para manter a forma física, para assimilar as críticas internas e para cumprir prazos. Na última quarta-feira, pela terceira vez perdeu uma data de reapresentação no Tricolor, agora para participar de campanhas publicitárias no Peru. A gangorra de prós e contras evidenciam o "gênio complicado", a personalidade forte. Algo que Orlando Lavalle conhece como poucos.

Lavalle foi quem descobriu Cueva para o futebol, foi seu técnico nas categorias de base do Universidad San Martín e um segundo pai para o garoto que pediu abrigo ao sair do povoado de Huamachuco, no norte do Peru, para viver em Lima quando tinha 15 anos. "Primeiro ele viveu na casa de uma tia em Lima, mas ficava triste pela saudade dos pais. Depois foi viver no clube e um dia, após alguma viagem com o time, passamos perto de casa e ele perguntou se podia almoçar. Eu falei que tudo bem. Ele perguntou se podia ficar uns dias e acabou ficando uma temporada na minha casa", conta o treinador, em entrevista ao UOL Esporte.

Essa convivência diária, íntima, permite a Lavalle traçar um perfil de Cueva. "Em campo sempre mostrou picardia, alegria de jogar. Ele sempre se divertiu em campo. E sobressaía esse lado inventivo. Ele gostava de um chapéu, de uma caneta. E fazia sempre de forma objetiva, e não para humilhar o rival", descreve, antes de falar sobre o que via em casa: "quando chegou, era um menino mimado, porque era muito querido pelos pais por ser o filho mais novo. Ele teve sorte de encontrar uma família que o acolheu e deu carinho, como a minha. Ele era muito provocador, alegre e piadista, mas mimado".

Arquivo Pessoal
Orlando Lavalle e Cueva, ambos em destaque, na base do San Martin

Ver um dos principais pupilos da carreira brilhando, atuando em um grande clube no Brasil e levando o Peru à Copa do Mundo de 2018, é motivo de orgulho para Lavalle. O técnico de 48 anos deixou o San Martín somente nesta temporada e agora espera resolver em breve qual será seu novo time. Enquanto isso, deseja que Cueva lembre do que aprendeu em sua casa e em seus treinos para seguir a carreira com seriedade e respeito ao São Paulo.

"Não o vejo como um jogador famoso, mas como a criança que chegou na minha casa, que chorava no meu colo, que mexia na minha orelha para dormir porque fazia igual com o pai. Eu fico com essas coisas. O resto é efêmero, os momentos de glória passam e podem mudar a pessoa. Eu sinto felicidade por ele, pela família, pelas filhas. Sinto orgulho por ter contribuído com o futebol. E ele precisa levar esse orgulho para a carreira, valorizar o grande clube que representa que é o São Paulo. É um clube espetacular que tem muitos torcedores no Peru por tudo o que Christian faz. Fico tranquilo porque fiz meu trabalho", celebra.

A relação hoje não é das mais próximas. Lavalle já não mantém contato frequente com Cueva. A ligação entre os dois, porém, permanece. O melhor amigo do camisa 10 do Tricolor é o mesmo amigo que também foi acolhido na casa do técnico em Lima. Richard Palomino não cresceu no futebol como imaginava e defende o modesto Sport Rosario, do Peru. Desconhecido pela carreira, no Brasil o parceiro acabou viralizando em vídeo ao lado de Cueva, tomando cerveja e assistindo a um show de cumbia na televisão.

"Muitos passaram por nosso trabalho e não só ele viveu comigo. Tinha um amigo que também cuidei como filho, mas não teve tanto sucesso como Christian. Vocês brasileiros já o viram, pois ele tem um video muito conhecido, em que sai tomando cerveja e cantando canções de um grupo de cumbia peruana. O amigo está junto com ele no vídeo. Eles jogaram juntos comigo no San Martin, no juvenil e no sub-20", brinca.

A descoberta

Foi em julho de 2007, em uma festa no povoado de Huamachuco, na Serra da Liberdade, em Trujillo (cidade onde a família de Cueva vive e onde o São Paulo estreou na Libertadores de 2016 contra o César Vallejo). Parte da festa era que um time de Lima levaria seu time sub-20. Quase sempre era o Alianza Lima, mas desta vez fomos nós, do San Martin. Eu era o técnico do sub-20. Jogamos contra a seleção de Huamachuco, onde jogava Christian, e a partida terminou 2 a 2. Com o desenrolar do jogo, vi um menino que atuava muito bem e perguntei sobre ele. Disseram que tinha 15 anos e pedi para observá-lo.

Essa mesma pessoa avisou que o auxiliar do Huamachuco era pai do garoto. Pedi para conversar e avisei que gostaria de levá-lo a Lima para passar por uma avaliação. Como era uma partida amistosa, o pai dele sugeriu que eu usasse Christian no segundo tempo pelo meu time. Ele estava fazendo a diferença no adversário e passou para nossa equipe. Isso foi em julho e já em agosto ou setembro foi a Lima, em nosso estádio, e já começou a treinar no sub-17. E começou todo o processo no meu clube, até chegar ao profissional.

O filho do coração

Eu tinha uma filha pequena quando ele chegou para morar com a gente. Christian acabou ocupando o lugar de um irmão mais velho, do homem que passava o tempo comigo. Ficávamos vendo futebol, jogando videogame. Ele ia em reuniões familiares dos meus parentes. E quase todos foram futebolistas, como meu tio, meu pai, então se rodeou de gente que o aconselhava muito sobre a carreira.

O destino

Tem uma passagem curiosa. Uma vez no meu bairro, onde morávamos e onde nasci, estava com amigos na rua, começamos a jogar e falei que aquele menino que estava comigo seria muito bom, que vingaria no futebol. Eles brincaram, riram e uma das pessoas que estava junto era Christian Ramos, zagueiro, que agora é seu companheiro na seleção.

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