Ele viralizou com camisa improvisada do Corinthians. Agora, tem uma coleção

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

Vilson de Paula é quase onipresente em um quarteirão movimentado do bairro da Lapa, em São Paulo. Lá, durante quase todo o dia, o homem simpático arruma uns trocados ao cuidar de carros e, entre um aceno e outro de moradores e trabalhadores da região, exibe a paixão pelo Corinthians.

Nos últimos dias, essa história comum ganhou um capítulo especial após uma foto despretensiosa viralizar nas redes sociais. Na imagem, Vilson veste uma camisa de botão com o símbolo do Corinthians desenhado por ele mesmo às costas. A atitude encantou corintianos e até torcedores de outros times. E mudou de vez a rotina do morador de rua de 52 anos.

Em uma semana, Vilson ganhou mais de 15 camisas do Corinthians, além de ter um dia especial, com direito a corte de cabelo e barba, jogo de dominó com outros torcedores e aparição nas redes sociais do clube. Tudo isso por meio de Leticia Vilar, responsável pela foto, pela divulgação da imagem e, agora, pela ponte que faz tantos presentes chegarem às mãos de Vilson.

A corintiana fez a foto na noite da última quarta-feira, dia 10. Vilson estava na esquina das ruas Clélia e Aurélia. Carregava um caixote de madeira e aguardava a passagem dos carros para continuar suas andanças. Presença habitual na região, ele muda de ares ao anoitecer, caminhando rumo à região da avenida Paulista, onde procura um lugar para descansar (nos dias mais frios, ele busca abrigo em um albergue).

"Eu estava voltando do trabalho. Sempre o via por aqui e foi a primeira vez que vi com essa camisa. Eu achei muito interessante porque, independentemente do dinheiro, ele quis demonstrar. Ele estava de costas, eu bati a foto. Ele nem me viu. Saí andando sem ideia do que ia acontecer", contou Leticia.

Diego salgado/UOL Esporte
Vilson ao lado de Leticia: foto mudou a rotina do morador de rua corintiano

Na manhã seguinte, a corintiana postou a foto no Twitter. A repercussão foi imediata, com centenas de curtidas em minutos. Em seguida, as pessoas começaram a pedir o endereço de onde a imagem foi feita, a fim de encontrar Vilson.

Depois de dias, Leticia continua recebendo presentes em casa, levando imediatamente para o novo amigo. Na próxima semana, Vilson ganhará um tratamento dentário - esse é um dos sonhos do torcedor, que evita abrir a boca em fotos para esconder os dentes.

"É muito gratificante, tirei a foto na inocência. Estou vivendo muito bons momentos, é muito carinho. É muito bom ver tudo o que está acontecendo com ele. O que eu puder fazer por ele vou fazer", disse Leticia.

A camisa personalizada

Vilson vive no bairro da Lapa há aproximadamente 20 anos e, mesmo sem uma casa, mantém uma rotina no local. Depois de passar a noite na Paulista, ele faz todas as atividades nas ruas próximas ao cenário da foto que viralizou.

Lá, ele almoça no Bom Prato por R$ 1, cuida dos carros da região em troca de algumas moedas e só vai embora depois de assistir ao jornal em uma lanchonete - o estabelecimento serve também para guardar as roupas e o cobertor de Vilson.

Letícia Vilar
Foto tirada na quarta-feira viralizou

"Só olho os carrinhos, de vez em quando pego umas latinhas, uns alumínios, para dar uma complementada. Mas não dá para pagar um aluguel. Vou para um lugar onde tem uma marquise. Passo as minhas noites lá. Se chover, não molha", contou o torcedor, que toma alguns banhos em um estacionamento.

Corintiano fanático, Vilson comemorou o título brasileiro com uma camisa do time. "Sou apaixonado pelo meu time desde antes de 1977. Foi uma fase ruim que passamos, sem títulos. É desde pequeno", afirmou.

Há três semanas, entretanto, a única camisa acabou furtada depois que ele a deixou secando no muro. O torcedor lamentou, mas pensou numa solução rápida para voltar a torcer com o distintivo do Corinthians à mostra.

"Eu ganhei uma camisa da vizinhança, essa branca. Passei na churrascaria, peguei uns carvões, tinha uma caneta e falei 'vou rabiscar'. Peguei um jornal para fazer uma colinha e fazer o emblema. Pensei: 'agora eu tenho outra camisa, essa ninguém leva, vou esconder bem escondido'", disse Vilson, que decidiu usar o carvão para ser fiel às cores do clube.

"O carvão está comigo e não abre. Eu estava só com a caneta e o carvão ia encaixar mais no meu time, o preto e branco, dá aquela aparência de ser mais do Corinthians mesmo", afirmou o torcedor, que gosta de desenhar há tempos e até ganhou papel e lápis de um morador do bairro.

Diego Salgado/UOL Esporte
Vilson vive nova fase após foto de Leticia

Novos tempos

Natural de Suzano, na Grande São Paulo, Vilson evita dar detalhes sobre o passado. Lacônico, ele se limita a mencionar um irmão que também vive na rua e o encontra "de vez em quando".

Na Lapa, por ora, Vilson colhe os frutos da simpatia mostrada nas ruas do bairro. "Tenho uma popularidade [risos]. Com o decorrer do tempo tive isso, é a política da boa vizinhança. Aos trancos e barrancos, com auxílio dali e força daqui, vamos vivendo dessa forma aí", ressaltou.

Mas não foi só a coleção de camisas que surgiu para Vilson. Mais conhecido, o morador de rua tem recebido ainda mais carinho dos vizinhos. De acordo com ele, os sorrisos ajudam a "alimentar a alma e o espírito".

"Já tinha bons amigos aqui. Agora aparece gente com mais sorrisos. Outras me presenteiam. Me dá mais alegria, estou feliz em sabe que dei alegria para eles também", disse Vilson, que, mesmo com muitas camisas na mala, pretende guardar o uniforme personalizado.

"Vou usar [uma camisa] por dia agora. Mas vou continuar com essa. Essa que trouxe alegria, nada mais justo. Vai ficar lá no guarda-roupa', frisou.

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