Cássio, Diego Souza, o Pacaembu e o lance que mudou a vida dos dois

Bruno Grossi e Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

Você já deve ter ouvido, em alguma roda de amigos nos últimos seis anos, que a defesa de Cássio no chute de Diego Souza, na Libertadores de 2012, mudou os rumos do futebol brasileiro. Pois bem, neste sábado, no clássico Corinthians e São Paulo, os dois protagonistas do lance ficarão frente a frente pela primeira vez novamente no Pacaembu.

O lance mudou a vida dos dois. A defesa fez Cássio, jovem, desconhecido e com poucos jogos como profissional, passar a ser reconhecido nas ruas. Em tempos de pouca confiança do torcedor em quem vestia luvas no Corinthians, ele ganhou crédito para iniciar uma trajetória de sucesso no Corinthians.

Diego Souza, por outro lado, vivia um raro bom momento em uma carreira de andanças, mas viu seu prestígio em São Januário ser espalmado para escanteio junto com aquela bola. Dali em diante, buscou refúgio longe do eixo Rio-São Paulo, teve de se reinventar em campo e agora até sonha com uma Copa do Mundo. 

Neste sábado, Corinthians e São Paulo se enfrentam no primeiro clássico paulista do ano, no Pacaembu, às 17h. Mais que isso, Cássio e Diego Souza, protagonistas de um dos lances mais marcantes da década, se reencontram no mesmo palco após seis anos. 

O erro e o milagre

(AP Photo/Andre Penner
Cássio detém chute de Diego Souza

Diego Souza arrancava pelo meio, com o campo de ataque vazio, após deixar Alessandro para trás. O placar apontava 0 a 0. Era uma corrida decidida, firme, mesmo aos 18 minutos do segundo tempo. O meia olhou para os dois lados, a fim de se certificar que estava sozinho. Em seguida, posicionou o corpo, escolheu o canto e bateu rasteiro, tática recomendável contra goleiros altos.

A bola disparou pelo gramado do Pacaembu, desesperando corintianos e empolgando vascaínos, até encontrar os dedos de Cássio e inverter as sensações nas torcidas. Os destinos estavam selados. Diego levou as mãos à cabeça e iniciou ali uma espécie de calvário até se reencontrar na tranquilidade do Recife. Cássio vibrou como se fosse um gol e foi saudado como se fosse um artilheiro.

"Eu esperei e olhei para os dois lados para ver se estava bem posicionado. Esperei, esperei e consegui usar toda a minha explosão, minha altura para tirar coma ponta dos dedos a bola do gol", relembra Cássio.

Leonardo Soares/UOL
Goleiro na Libertadores 2012: título inédito

O novato que brilha

Cássio chegou ao Corinthians no começo de 2012, mas poderia ter parado justamente no Vasco anos antes, quando o clube carioca chegou a fazer uma sondagem ao PSV Eindhoven. Até desembarcar no Parque São Jorge, o goleiro tinha disputado apenas 20 jogos como profissional, mesmo aos 24 anos.

A estreia se deu em março daquele ano, em um jogo em que o técnico Tite optou por uma equipe mista contra o XV de Piracicaba. No começo do mês em que começou a fazer história no clube, Cássio ganhou a vaga de titular após uma falha de Júlio César na eliminação corintiana no estadual diante da Ponte Preta. Três semanas depois, Cássio conseguiu parar Diego Souza e deu início à carreira sólida no Corinthians.

"Parecia um gol, a torcida vibrou bastante quando eu defendi. Foi num momento crucial, se tivesse tomado o gol naquele momento, de repente a gente não teria força para reverter o resultado. A gente não ia alcançar o sonho de ganhar a Libertadores", disse o goleiro após o título continental.

Aventuras lá fora

Site oficial do Metalist
Passagem-relâmpago pelo Metalist, da Ucrânia, durou apenas seis meses

Semanas depois do fatídico lance, o meia-atacante partiu para uma aventura no Oriente Médio e defendeu o Al Ittihad, da Arábia Saudita. Apenas por seis meses, é verdade. O Cruzeiro apareceu para repatriá-lo e apostando alto para ter em Diego seu protagonista em 2013.

O rendimento individual foi considerável, com sete gols em 22 jogos, mas novamente não conseguiu durar mais de um semestre. O jogador decidiu se arriscar na Europa mais uma vez - já havia atuado pelo Benfica no início da carreira - e fechou com o Metalist, da Ucrânia. E adivinhem? Seis meses e fim de trajetória.

"Eles beijavam a minha mão"

Leandro Moraes/UOL
Depois do Mundial, idolatria por Cássio por parte dos torcedores aumentou

A defesa deu início a uma espécie de devoção nos meses seguintes que antecederam o Mundial no Japão. Ela começou logo após a vitória por 1 a 0 sobre o Vasco, com gol de Paulinho. De acordo com Tite, Alessandro, que possibilitou a finalização de Diego Souza ao errar um lançamento na intermediária, fez um agradecimento ao goleiro pois "o mundo cairia na sua cabeça"

"Aqueles segundos são difíceis de traduzir. Foi um alívio para mim. Depois do jogo pensei muito que se aquela bola tivesse entrado seria um ponto final na minha carreira, na minha passagem pelo Corinthians. Tudo o que fiz teria se apagado. Sofri muito para dormir aquela noite. Mexe muito com o emocional", relembrou Alessandro em entrevista à Corinthians TV.

Segundo o próprio Cássio, alguns torcedores chegavam a se ajoelhar diante dele em encontros pela cidade. Outros beijavam suas mãos como forma de agradecimento. Mal sabiam que elas parariam também três jogadores do Chelsea em dezembro.

Cássio, durante todo o segundo semestre de 2012, passou a ser um dos líderes técnicos do Corinthians, com o ápice alcançado em plena na decisão contra os ingleses. Mais uma vez decisivo ao defender os chutes de Cahill, Moses e Fernando Torres, Cássio foi eleito o melhor jogador da partida que valeu o bi mundial corintiano.

Ostracismo cai por terra no Recife

Clelio Tomaz/AGIF
Diego brilha no Sport e se reencontra

Não era difícil imaginar um fim de carreira no ostracismo para Diego Souza. A volta ao Brasil no segundo semestre de 2014 teve como destino o Sport. O meia encarou críticas ao mesmo tempo que, em campo, mantinha seu histórico de bons jogos, presença ofensiva e golaços. O Metalist o queria de volta e mais uma vez foi fácil imaginar mais uma parada na vida de um nômade do futebol.

Diego, no entanto, quis romper com os fantasmas do passado. No Sport, sentiu-se acolhido, protegido e respaldado. Fugiu dos xingamentos por "ter deixado o Corinthians ser campeão da Libertadores" para ser querido por uma torcida.

Em 2016, Diego considerou que estava pronto para voltar ao "mundo real" e aceitou proposta para retornar ao Fluminense. Não se sentiu bem e não esperou nem os seis meses de sempre. Voltou assim que pôde ao Sport. Pesou o que muitos apontaram como comodismo e até o bem estar da família. E cada vez mais à vontade no Recife, virou centroavante, rejeitou outros clubes interessados e conseguiu voltar à seleção brasileira, respaldado pelo técnico Tite. Diego ganhou fôlego, motivação e mais uma vez resolveu se arriscar.

Títulos, renovações e identidade

WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO
Cássio ergueu a taça após o título brasileiro de 2017: já são sete taças no Corinthians

Cássio se mostrou estável na meta corintiana nos anos seguintes, com exceção de alguns meses da temporada 2016, quando chegou a perder a posição para Walter. Em 2013, conquistou mais dois títulos (o estadual e a Recopa). Na temporada seguinte, acertou a primeira renovação das três renovações de contrato no clube.

Campeão brasileiro em 2015, Cássio caiu de rendimento, mas voltou à boa fase no ano passado. Bem fisicamente, ajudou o Corinthians a ser campeão estadual e brasileiro novamente, dessa vez como capitão, erguendo a taça na Arena Corinthians. A boa fase o levou à seleção brasileira e a presença dele no grupo da Copa do Mundo é quase certa.

Identificado com o clube, o goleiro tem vínculo até o fim de 2021. Caso chegue ao fim dele, ultrapassará a marca de 500 jogos no Corinthians. A ideia do jogador, porém, é ir além. Nos últimos dias, Cássio disse que não quer ganhar apenas títulos. A meta é superar Ronaldo, goleiro que defendeu a meta corintiana por dez anos. Se superar os 601 jogos, o herói alvinegro se tornará o terceiro jogador com mais jogos pelo Corinthians.

Vale tudo pela Copa do Mundo

Célio Messias/Estadão Conteúdo
Diego Souza comemora o primeiro gol com a camisa do São Paulo

O São Paulo apareceu como a última esperança de Diego Souza para uma redenção nacional. Ir à Rússia e apagar com pelo menos um dos rivais corintianos a imagem de "culpado" pela Libertadores de 2012.

A torcida tricolor o abraçou desde que as negociações com o Sport vazaram ao público, já cantou seu nome no Morumbi e pôde comemorar um gol do agora camisa 9 no segundo jogo dele pelo clube. Querem deixá-lo em casa, como foi feito no Recife, para ter o melhor de Diego em campo. Sem o desespero de seis anos atrás.

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