Não é só Robinho! Violência de gênero no futebol comove também a Argentina

José Edgar de Matos

Do UOL, em São Paulo (SP)

  • Divulgação

    Edwin Cardona, camisa 10 do Boca, se viu envolvido em um escândalo na Argentina

    Edwin Cardona, camisa 10 do Boca, se viu envolvido em um escândalo na Argentina

Não foi apenas o Brasil que discutiu durante algumas semanas a questão da violência contra a mulher, debate este reforçado pela condenação de Robinho em primeira instância na Itália. Na Argentina, dois casos levaram à tona a hostilidade contra a mulher no meio do futebol. Assim como aqui, no país vizinho, mulheres se rebelaram contra Edwin Cardona e Wilmar Barrios, jogadores do Boca Juniors, e Fernando Tobio, do Rosario Central, acusados de violência em casos diferentes.

Enquanto Robinho viu o seu legado ser arranhado depois da condenação em primeira instância na Itália sob a acusação de estupro, os jogadores Barrios e Cardona, dois dos principais nomes do time mais popular do país, foram acusados de assédio sexual por duas mulheres; as denunciantes posteriormente retiraram o processo; apenas Barrios responde com a desqualificação para lesões leves. Fernando Tobio, por outro lado, teve divulgado um vídeo no qual empurra uma garota na saída de um bar na cidade de Rosário.

Jornalista, sócia do Independiente, frequentadora de estádios e participante das manifestações organizadas pelo "Nem uma a menos", Liliana Caruso vê os casos brasileiros (Robinho) e argentinos (jogadores do Boca e Tobio) interligados. Para ela, apenas um exemplo do machismo enraizado na cultura sul-americana.

"Eles [jogadores] refletem a nossa sociedade latino-americana, em que necessitamos mudar hábitos, costume e conceitos sobre o papel da mulher e seus direitos. Lamentavelmente falta educação e instrução a muitos jogadores, de eles considerarem a mulher uma "coisa" e um "objeto". Pensam que com dinheiro ou fama podem solucionar todos os problemas", afirmou Liliana, em entrevista ao UOL Esporte.

A jornalista ainda enxerga muita resistência nas denúncias. "A mulher, em muitos casos, tem medo de denunciar qualquer tipo de violência, ainda mais quando o denunciado pode ter contatos ou poder. Muitas mulheres se calam. Não vou negar que conheço casos em que essas denúncias foram retiradas por troca de dinheiro. É uma faca de dois gumes: eles sabem que podem passar impunes, e muitas mulheres vão ao encontro sabendo que essas pessoas podem não ser confiáveis", comentou.

Por outro lado, Debora Hambo, advogada ligada ao futebol argentino e apoiadora dos grupos feministas "Nem uma a menos" e "Não é não", possui uma visão mais otimista e enxerga uma mudança na coragem da mulher em relação à violência de gênero. Hambo, que por anos defendeu o polêmico "barra brava" Bebote Alvarez, crê que os casos públicos com jogadores possam encorajar vítimas anônimas a procurarem justiça.

"É uma mudança de paradigmas e vai levar nossa sociedade a evoluir. Os homens são muitas vezes educados por mulheres; são todos filhos de alguma mulher. Se as mães ensinam que não é não, as gerações futuras vão aprender", afirmou, em conversa com a reportagem.

"O futebol é parte da sociedade e leva muita gente ao estádio. Ainda há muitos homens que não aceitam que condutas do passado eram aceitas em silêncio por vergonha e por ignorância. Hoje não", enxerga Debora Hambo.

Advogado defende jogadores e contra-ataca

Robert Cianflone/FIFA/Getty Images
Barrios, que defendeu a Colômbia na Rio-2016, ainda responde a processo

A reportagem conversou com Miguel Perri, advogado responsável por defender os dois jogadores do Boca Juniors. O responsável pela orientação jurídica a Barrios e Cardona viu má-fé nas denunciantes e se apega à retirada das denúncias para atacar as mulheres que se disseram vítimas da dupla. Perri entrou com um processo contra as duas mulheres por danos morais.

"Sabemos que são falsas as acusações. Escutaram as denunciantes, que retiraram todas as acusações. Testemunhas mostraram que era uma mentira armada por quem a fez. Quem denunciou, estas senhoras, no caso, queriam tirar dinheiro dos dois", comentou o advogado à reportagem, sem negar, no entanto, o problema evidente de machismo no futebol.

"Está havendo uma mudança na conduta do papel da mulher na sociedade. Ainda há muito machismo em todos os ambientes. Estamos mudando pouco a pouco. Em todas as culturas, os homens têm que ter uma atitude distinta, é importante que a informação sempre se espalhe rapidamente", acrescentou.

Cardona teve todas as acusações retiradas, enquanto Barrios ainda responde por lesões corporais leves - Perri crê que, em dez dias, a situação do volante será completamente resolvida.

"Não estamos seguras em nenhum lado"

A questão da violência de gênero ultrapassa o futebol, obviamente. No Brasil, campanhas em defesa das mulheres (Não é não) ganharam as ruas durante o Carnaval. Na Argentina, a segurança total ainda é uma utopia; os estádios refletem esta questão da sociedade em relação às mulheres, segundo Liliana Caruso.

"Não estamos seguras em nenhum lado. Sinto segura no nosso estádio porque conheço os lugares que podem ser perigosos e nunca vou sozinha. (...) Tem que saber 'mover-se' nos estádios, essa é a chave. Lamentavelmente, vou no setor mais popular somente em jogos da seleção. De resto, vou nas cadeiras, mais tranquila", relatou a jornalista, que sonha com uma mudança rápida em pouco tempo.

"O futebol para mim é uma saída em família, ponto de reunião e encontro com amigos. Íamos em família para partidas como visitante e passar o dia em uma cidade do interior. Almoçávamos, passeávamos pela cidade e depois íamos ao jogo. Isso é maravilhoso, une culturas. É isso que queremos fazer como mulheres. Estar e participar", encerrou a jornalista.

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